Quarta, 19 de Junho de 2013
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Ciência

Revolução robótica na saúde

Auxílio de robôs em diversos tipos de cirurgia projetam passo gigantesco na medicina e Minas Gerais já se movimenta para não perder o trem da história

Texto: Eliana Fonseca | Fotos: Pedro Vilela


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É impossível falar em cirurgia robótica sem pensar numa revolução na medicina. Menos riscos e dores, recuperação mais rápida, microincisões substituindo cortes enormes, internações mais curtas, movimentos cirúrgicos amplos, com o cirurgião orquestrando tudo, incorporando à técnica a tecnologia que torna sua uma coordenação muito mais fina. Além da possibilidade de chegar a lugares com o braço robótico que a mão humana não alcançaria. E ainda a visão 3D, na junção de exames a programas que permitem uma cirurgia mais precisa, na incorporação de inúmeras tecnologias ao processo. O estado começa a se mover nesta direção. Estimulados pelo Instituto de Pós-Graduação (IPG) da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, coordenado pelo professor José Rafael Guerra, dois cirurgiões mineiros Fernando Augusto de Vasconcellos Santos e Alberto Julius Alves Wainstein deram a largada nesta fronteira da cirurgia como convidados de uma das mais renomadas instituições do mundo nesta área, o Centro Médico da Universidade de Illinois em Chicago. O que era treinamento de um mês em cirurgia robótica transformou-se em intercâmbio entre as duas instituições e a vinda, em novembro, do diretor da entidade norte-americana a Belo Horizonte, Enrico Benedetti, para mostrar aos especialistas mineiros que esta é uma tendência sem volta. 

A aparelhagem para a cirurgia robótica custa caro, algo em torno de 2 milhões de dólares porque atualmente há uma única empresa norte-americana detentora da licença para a produção. No próximo ano, com a quebra da patente, a expectativa é que fique mais barato e possa ganhar o mundo. Minas está na fila de espera para essa chegada. Será uma mudança que beneficiará, principalmente, o paciente. Para quem nunca viu, a fantasia é a de um robô operando, mas na verdade quem está por trás da cirurgia robótica é o médico cirurgião, com o comando e todas as decisões. As cirurgias urológicas  foram as primeiras e são as mais comumente realizadas com essa nova tecnologia, mas as possibilidades são infinitas e nota-se a ampliação para outras especialidades médicas como a cirurgia geral, do aparelho digestivo, oncológica, ginecologia, bariátrica e cardiovascular. “É possível fazer cirurgias complexas, sem grandes incisões, menos sofrimento, com acesso a ângulos que proporcionam visão ilimitada, em que é possível agregar aos programas do robô, os exames dos pacientes e, assim, garantir um maior êxito”, garante o professor Benedetti.

Atualmente, os Estados Unidos são campeões na cirurgia robótica em todo o mundo, seguidos por países da Europa e da Ásia. Nos EUA, segundo Benedetti, atualmente 85% das cirurgias de próstata são feitas na técnica robótica e de 20% a 30% das outras especialidades. Apesar das inúmeras vantagens da cirurgia robótica, Benedetti explica que há dificuldades ainda da classe médica e da população em aceitar a nova tecnologia. De um lado há profissionais da linha tradicional reticentes com o novo mundo aberto pela tecnologia; a população ainda olha com receio a possibilidade de esse novo tipo de cirurgia significar o afastamento do médico. “É o profissional que irá orquestrar a tecnologia usufruindo de dezenas de facilidades e inovações para que a cirurgia possa transcorrer com maior precisão e menor dano”, observa o cirurgião oncológico Alberto Wainstein.


Alberto Wainstein, Enrico Benedetti, José Rafael Guerra,  Fernando Augusto Vasconcellos: intercâmbio para implantar a cirurgia robótica em Minas
Alberto Wainstein, Enrico Benedetti, José Rafael Guerra, Fernando Augusto Vasconcellos: intercâmbio para implantar a cirurgia robótica em Minas

Ele e Fernando Santos passaram um mês em treinamento no centro médico de Illinois. A rotina iniciava às 5h30 com a preparação do paciente, equipe e robô e consistia em acompanhar, participar de pelo menos duas cirurgias robóticas por dia. Além disso eram gastas muitas horas todos os dias em simuladores que são usados para treinar cirurgiões experientes nesta nova plataforma tecnológica. Santos diz que, se houvesse um equipamento em Minas Gerais neste momento, eles já poderiam operar pacientes com a nova técnica tendo em vista que a curva de treinamento é mais curta. Montar um equipamento no estado e incorporar novas tecnologias ao hall do sistema de cirurgia, para os médicos, talvez seja o maior desafio. Isso já é realidade em São Paulo onde existem três robôs.“É uma tecnologia inovadora que está mudando a história da medicina e que beneficia os pacientes. Minas Gerais não pode perder a vanguarda desta janela de inovação e nós estamos aptos a exercitá-la”, diz.

No estado, as operações que  mais se beneficiariam com a robótica seriam procedimentos de cirurgia geral como colecistectomia (retirada da vesícula biliar); o tratamento cirúrgico do refluxo; a cirurgia oncológica com a ressecção radical de tumores de fígado, pâncreas, estômago, cólon; na urologia nos tumores de próstata, rim e bexiga; na  ginecologia para tratamento de endometriose, retirada do útero; na cirurgia bariátrica (tratamento da obesidade mórbida),  bem como na cardíaca e torácica. “Por isso é tão importante que essa tecnologia faça parte da nossa rotina o mais rápido possível. Os pacientes de Minas Gerais têm de se beneficiar dos inúmeros ganhos da cirurgia robótica”, diz Wainstein. 

Como toda tecnologia em constante evolução, a cirurgia robótica tem amplo leque de vantagens – basta treinamento aos médicos para que um procedimento possa ser executado a longa distância, com a mesma precisão. Explica-se, enquanto um médico estará na sala de cirurgia no comando da situação, outro, com maior experiência e especialista na área, poderá estar em qualquer parte do mundo acompanhando a cirurgia numa espécie de videoconferência, compartilhando decisões e mesmo manobras cirúrgicas.

Além do treinamento de 30 dias, os médicos têm que fazer uma espécie de reciclagem de tempos em tempos, voltando para observar as mudanças na tecnologia. No caso de Santos e Wainstein, já há agenda para treinamento de mais 15 dias em Chicago. “Mas nosso objetivo não é apenas sermos consumidores passivos de equipamentos e tecnologias. Como toda incorporação tecnológica incipiente, queremos em Minas Gerais também gerar novos conhecimentos, aplicações de vanguarda, desenvolver tecnologias de sucesso para, também aqui, produzir  ciência de Primeiro Mundo. Queremos constituir um centro de geração e difusão de conhecimentos e aplicações da cirurgia robótica”,  afirma Wainstein. 

Neste caminho, a Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais já celebrou contrato de parceria com a Universidade de Illinois para o intercâmbio permanente de médicos, estudantes, residentes e principalmente conhecimentos e pesquisas. Outra boa notícia é quanto à queda do estresse comum à cirurgia convencional. O médico Fernando Santos explica que por estar sentado, em melhor posição, em postura mais confortável, o profissional que executa a cirurgia robótica deve ter um desgaste muito menor. “A vida útil do cirurgião tende a ser maior e sua concentração e eficiência podem ser otimizados gerando benefícios para os pacientes.”

E não é somente o paciente e o médico que se beneficiam deste tipo de cirurgia. Como a internação e o risco de infecção são menores e trazem recuperação mais rápida, a especialidade traz a possibilidade de maior agilidade e eficácia para um sistema de saúde estrangulado. Como se vê, a promessa da cirurgia robótica é uma inovação em que dezenas de novos equipamentos, i0nsumos e tecnologias estarão e serão desenvolvidos para diminuir os custos e democratizar a técnica da cirurgia  robótica que tem tudo para ser uma revolução. 


 
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