Quarta, 23 de Maio de 2012
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Artes Plásticas

Lixo extraordinário

Oceano Cavalcante transforma objetos descartáveis recolhidos nas ruas em obras de arte. A maioria das peças é sacra

Texto: Fernando Torres | Fotos: Pedro Vilela


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Se as pessoas não produzissem lixo todos os dias, Oceano Cavalcante poderia ter passado o resto da vida como técnico de enfermagem ou cuidador de idosos. Mas o avanço dos resíduos humanos, dia após dia, fez com que este paraibano de Areia, há 32 anos em Belo Horizonte, reinventasse a própria história já na maturidade. Aos 51 anos, ele cria arte a partir de objetos descartáveis, como garrafas de plástico e papelão.

A inspiração para transformar sucata em arte veio da coleta seletiva do condomínio em que ele trabalhava como cuidador, no bairro Serra, região Centro-Sul. Ao andar pelas ruas, Oceano pega o lixo que encontra, arrecada doações em oficinas, nas casas. Ele descobriu que, ao aquecer o plástico das garrafas, poderia moldá-las como lhe conviesse e recheá-las com arame ou pedaços de cabo de vassoura, para dar mais consistência. Por fim, o artista recobre as estruturas com papelão molhado e as decora com bijuterias, fivelas e outros balangandãs. “Evito usar tinta. Uso os próprios papéis reciclados para colorir e passo verniz por cima, para ter maior durabilidade”, conta.

As mais de 200 esculturas que nasceram em seu ateliê, no Santa Efigênia, região Leste, aludem ao barroco mineiro, com inspiração em Aleijadinho. O quadro da Santa Ceia, por exemplo, tem forte referência nos 

12 profetas de Congonhas do Campo, a 89 km de BH.  A maioria das obras, a propósito, é sacra. São séries de santos, oratórios e nossas senhoras. “Minas é o berço da religião brasileira”, opina.


Dois personagens predominam na obra de Oceano: dom Quixote de La Mancha e são Francisco de Assis. O célebre personagem do escritor espanhol Miguel de Cervantes protagonizou sua primeira exposição, em 2008, no Centro Mineiro de Referência em Resíduos, no bairro Esplanada, região Leste. Já o santo católico, patrono da ecologia, foi tema, entre outros, de uma escultura de 2 m de altura, produzida para a Casa Cor, em 2009, atualmente em exposição na Regional Pampulha, no São Luís.

Outra obra de destaque é o presépio de 20 peças que decorou o parque municipal em 2008, presente ao aniversário de 111 anos de Belo Horizonte. Ele também já expôs duas vezes como convidado na galeria de arte do Festival Lixo e Cidadania, juntamente com outros cinco artistas. Também com a temática ambiental, abriu outras mostras temáticas no Pátio Savassi e no Hotel Mercure Lourdes.

Na fase atual, Oceano investe nos aros de bicicleta, como no painel que deu o tom da comemoração de três anos da revista Viver Brasil, no camarote vip do festival Planeta Brasil. A inspiração, nesse caso, vem do artista paulista Vik Muniz, que também trabalha com lixo. “Mas para fazer esse tipo de trabalho mais abrangente, precisaria de patrocínio”, afirma.


 
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