Quarta, 23 de Maio de 2012
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Pensar grande

Evento reúne 500 empresários para discutir empreendedorismo

Texto: | Fotos: Victor Schwaner


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Denis Hearne, cônsul dos EUA no Brasil durante palestra

Há gargalos no caminho para o desenvolvimento do empreendedorismo no Brasil. A boa notícia é que o assunto está em pauta. Logo após a Semana Global do Empreendedorismo que, em novembro, fez pipocarem eventos relativos ao tema em todo o país, a Amcham Brasil e a Fundação Dom Cabral (FDC) organizaram o Fórum de Decisões 2011, no último dia 1º de dezembro, em Alphaville, Nova Lima. Cerca de 500 empresários participaram do seminário, que reuniu o cônsul geral dos EUA no Brasil, Dennis W. Hearne, e grandes executivos, como o economista-chefe da Votorantim, Roberto Padovani; o diretor de acesso e relações governamentais da MSD, João Sanches, e o gerente de inovação e gestão do conhecimento da Embraer, Sandro Valeri. 

Dennis Hearne ressaltou a importância do fórum como estratégia para estabelecer contatos entre empresários, entidades e setor público. Na opinião dele, não se pode dizer hoje que o Brasil é o país do futuro. “Esse ditado mudou, o Brasil é hoje, acontece agora. Dar qualquer palpite sobre seu crescimento econômico é desnecessário porque a classe empresarial e os governos estão fazendo um excelente trabalho.” Dennis disse ainda que o Brasil tem muito a ensinar a outros países, inclusive aos Estados Unidos, sobre como aproveitar oportunidades. 

Bom exemplo disso é a história da Samba Tech, empresa líder na América Latina para gestão e distribuição profissional de vídeos.  Gustavo Caetano, seu fundador e um dos palestrantes do evento, conta que, de fato, precisou de boa dose de ousadia e criatividade para crescer. Ele fundou a companhia em 2004, como uma distribuidora de games para celular, mas, logo viu que esse não era o melhor caminho e mudou o foco radicalmente, mirando na prestação de serviços via comunicação digital. Tudo começou quando ele, ainda na casa dos 20 anos, estava cheio de ideias empreendedoras e infeliz na grande empresa onde trabalhava. “Queria estar num lugar onde pudesse expor minhas ideias e me divertir. Precisava apenas de capital inicial.”

Com 100 mil  dólares na mão, Gustavo acertou o alvo quando decidiu desmitificar o uso de vídeos para comunicação on-line e aplicou um conceito que, ainda hoje, é o norte da empresa: foco no cliente. “Não nos esforçamos apenas para entregar os melhores produtos, mas para passar conhecimento de mercado, suporte e carinho.”  O resultado? Eles cresceram 600% em dois anos. A proposta é simples: montar estratégias de comunicação por meio de vídeos on-line. 

Mas como crescer nos patamares da Samba Tech, que parece ser uma exceção? Alguns dos conselhos dos especialistas, reunidos na Fundação Dom Cabral, são: Entenda a cadeia de valor na qual você está inserido, ouça seu cliente, descubra o que ele deseja, ache um nicho de mercado e tente saber se alguém está interessado em pagar pelo que você tem a oferecer. Simples? Claro que não. O professor e coordenador do Núcleo de Empreendedorismo da FDC, Afonso Cozzi, lembra que o final do ano é sempre oportuno para que o empresariado olhe para suas próprias agendas e faça reflexões sobre questões como essas.  


Fórum de decisões, que teve a participação do economista Roberto Padovani
Fórum de decisões, que teve a participação do economista Roberto Padovani

“Palestrantes dessa magnitude auxiliam essas pessoas a trazerem, para seus cotidianos, lições e aprendizados”, diz Fernando Schmitt, diretor de Membership da Amcham, Câmara Americana de Comércio. A propósito, o público presente ao fórum era formado por empresas pequenas, 75%, 20% eram médias e apenas 5% grandes. Ele explica que o seminário, neste mesmo formato, aconteceu ao longo de 2011 em 11 cidades brasileiras. 

Tudo começou há sete anos, quando a Amcham observando o mercado, percebeu a necessidade de as pequenas empresas trocarem boas práticas, diretamente, com os presidentes das grandes companhias. Assim, nasceu o Fórum de Decisões e, desde então, a tônica tem sido provocar o pensar. Ao fazer paralelo com o primeiro evento, em 2004, Schmitt diz que os modelos de administração, economia e de empreendedorismo não são os mesmos. “O que dava certo lá atrás não é hoje garantia, sequer, de sobrevivência. Daí, a necessidade dos encontros”.

A saúde financeira do Brasil também permeou os debates do fórum. Para Roberto Padovani, ex-assessor do Ministério da Fazenda, o Brasil deixou para trás sua história de instabilidade e confusões e tem um bom desafio pela frente: fazer a economia crescer. Para Afonso Cozzi, professor da FDC, este momento de crise econômica na Europa e de estabilidade brasileira, indica a importância da criação de uma cultura de empreendedorismo. Esta tem duas frentes: a primeira de estimular o surgimento de empresas de alto impacto tecnológico e a segunda, de fazer com que grandes empresas desenvolvam novos negócios, a partir de projetos e ideias de seus próprios colaboradores. E foi, exatamente, esta última o foco das discussões do fórum. 

O primeiro gargalo da questão é o despreparo das escolas. Na avaliação de Cozzi, o sistema educacional não está preparado para formar empreendedores. A expectativa é que as instituições ouçam o recado e se preparem melhor para debater o tema em sala de aula. “É preciso que os graduandos saiam da faculdade com um pensamento maior do que o de serem meros empregados de grandes empresas ou do governo. ”

O economista Padovani reflete que, além disso, é preciso construir um ambiente mais favorável e essa expressão genérica engloba vários aspectos: o primeiro, o problema de logística no Brasil com estradas deficitárias, trânsitos urbanos caóticos e aeroportos ineficientes. Outra iniciativa é treinar e qualificar mão de obra. E o terceiro problema a ser resolvido é o mais batido de todos: a alta carga tributária. Para o executivo da Votorantim, o Brasil está indo bem, mas tem muito a caminhar. E ele parece ter razão em se preocupar. Pesquisa feita pela Amcham, em parceria com o Ibope, mostra, pela primeira vez, desde 2009, uma inflexão na expectativa do empresariado em relação ao próximo ano: a maioria acredita em desaceleração.  


 
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