Terça, 21 de Maio de 2013
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Especial

Letras do sucesso

José Olympio Editora completa 80 anos de uma história que ajudou a revelar vários nomes de peso da literatura nacional

Texto: Sueli Cotta | Fotos: Divulgação


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Vitrines da loja do Ouvidor, à entrada o romancista José Lins do Rego
A ousadia, o amor à literatura brasileira, o respeito aos autores e suas obras, o cuidado na edição e o apuramento gráfico são os pontos mais marcantes e festejados na comemoração dos 80 anos da José Olympio Editora. O visionário paulista José Olympio Pereira Filho apaixonou-se pela literatura aos 15 anos, quando deixou a sua Batatais, no interior de São Paulo, e começou a trabalhar na capital, na Casa Garroux.  
Sua função era abrir caixas de livros novos, limpá-los, colocá-los nas prateleiras e tirar-lhes a poeira. Fascinado pelas letras e pelos frequentadores da Casa – nomes ilustres na década de 20, como Mário e Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia e Plínio Salgado – José Olympio foi se aproximando das palavras. A paixão o levou aos livros raros e a ser referência para colecionadores e escritores. Comprou coleções inteiras. Em 1931, na rua da Quitanda, em São Paulo, fundou a Casa José Olympio Livraria e Editora. 
Em 1934 foi para o Rio de Janeiro, o centro intelectual no Brasil na época. Aos 29 anos abriu a livraria José Olympio Editora, em um imóvel nos fundos da rua do Ouvidor, 110. Ali, naquele endereço, se reunia com os jovens romancistas, poetas, cronistas, escritores, tornando o endereço um dos mais conhecidos pela intelectualidade da época e entre os que buscavam apoio e incentivo às suas obras. 
Visionário, pagava direitos autorais adiantado, e lançava obras com milhares de exemplares. Como editor, José Olympio revelou talentos como os mineiros Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, a cearense Raquel de Queiroz, os cariocas José Lins do Rêgo, Graciliano Ramos, o maranhense Ferreira Gullar e uma infinidade de escritores nacionais, em uma época em que a literatura estrangeira predominava nas livrarias. Não havia espaço para os talentos brasileiros. “Esse homem começou os anos 30 ousando, com a visão clara do que queria e apostou nos autores nacionais”, emociona-se Maria Amélia Mello, diretora da Editora José Olympio. 

Rachel de Queiroz e Maria Amélia Mello
Rachel de Queiroz e Maria Amélia Mello

A livraria foi fechada em 1955, quando José Olympio resolveu se dedicar ao mercado editorial. Da ousadia inicial, ele teve que se adequar às mudanças políticas que ocorriam no país. Conhecido por revelar novos talentos e por redescobrir escritores, José Olympio também era um articulador político e gostava de atuar nos bastidores, nas conversas veladas. Durante as várias fases da política brasileira, do Getulismo, à ditadura militar e a retomada da democracia, o editor acompanhou tudo na rua Marquês de Olinda, no bairro Botafogo.

 Nos anos 40 e 50 publicou mais de 2 mil títulos, com 5 mil edições e tornou-se o maior editor do país. Nos anos 80, a editora diversificou sua grade e já não publicava só autores nacionais. Atingiu então os 30 milhões de livros publicados, de 900 autores nacionais e 500 estrangeiros. 

Não conseguiu, porém, acompanhar todas as mudanças que aconteciam no país e em 1984, afundada em dívidas a editora foi vendida para Henrique Sérgio Gregori, que em 2001 transferiu o seu comando editorial para o grupo Record, funcionando como uma empresa dentro da organização, onde está até hoje.

José Olympio morreu em 1990, aos 87 anos. Ele acompanhava, mesmo que à distância, a evolução da editora. Maria Amélia conta que frequentava a casa do editor, com quem manteve convivência fraterna e dividia as suas ideias e projetos de livros. “Ele morava perto da editora e sempre conversávamos. Era lúcido, escrevia bilhetes”, lembra Maria Amélia, que mantém o mesmo escopo editorial idealizado por ele. “O nosso foco principal são os autores brasileiros, os clássicos e os correspondentes internacionais, como Henry Miller e Pablo Neruda”.

O envolvimento de José Olympio com o escritor e sua obra era tão intenso, que, quando morreu, Rachel de Queiroz relatou na sua crônica no jornal O Povo como esse relacionamento com ela se consolidou nas longas conversas, na busca do melhor texto, do melhor formato gráfico. “É, não sei bem como se deu que, editada e editores, viramos irmãos. Não foi planejado, não foi nada repentino e dramático, foi misterioso, insensível. Quando vi já estava chamando J.O. de José”. 

 
Livros editados pela José Olympio
Livros editados pela José Olympio

No patrimônio editorial construído nesses 80 anos estão livros considerados emblemáticos na literatura brasileira,  como Poema Sujo, A Pedra do Reino, Cobra Norato, O Coronel e o Lobisomem e clássicos como O Menino do Dedo Verde, do francês  Maurice Druon com 2 milhões de exemplares vendidos e Menino de Engenho que está na centésima edição com 1 milhão de livros vendidos.

Maria Amélia ressalta que a editora José Olympio está muito ativa e para 2012 pretende implementar vários projetos editoriais, dentre eles, o lançamento do livro infantil que será visualizado a partir da letra de uma música de Tom Jobim. “Se tivermos visão crítica nada nos faltará”, profetiza Maria Amélia, que tem como principal projeto fazer com que essas obras permaneçam vivas e atrair o jovem leitor com obras de qualidade. “Quando lançam um livro de vampiro, todos correm atrás do mesmo filão, a José Olympio não quer se parecer com elas”. 


 
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