Finalmente a lagoa da Pampulha alcançou o limite máximo de poluição. Moradores da região já não suportam o odor fétido. A aparência é de um esgoto a céu aberto, onde os dejetos de toda ordem estão à superfície. As margens têm de tudo. Diante desse quadro, movimentaram-se todos os especialistas para encontrarem uma solução definitiva e não mais uma nova promessa não cumprida. O sonho do saudoso presidente Juscelino Kubitscheck, que construiu todo o complexo turístico da Pampulha, como prefeito de Belo Horizonte, transformava-se num pesadelo. Niemayer jamais voltaria a BH.
Em segredo um grupo de trabalho foi formado com técnicos do meio ambiente, planejamento financeiro, engenheiros agrônomos, hidráulicos, metalúrgicos e administradores de finanças públicas. Deliberou-se então sobre a execução de dois planos: opções A e B.
Representantes foram enviados à Alemanha e à Espanha. Ali se desenvolveram experiências muito bem-sucedidas na captação de gás derivado do lixo. Em Barcelona construiu-se o mais moderno sistema de coleta de lixo do mundo para atender à última Olimpíada ali realizada. Justamente como era o objetivo de todos, ou seja, que a solução para a lagoa da Pampulha estivesse concluída até a Olimpíada de 2016 no Brasil. Belo Horizonte não poderia continuar a exibir tamanha vergonha para os estrangeiros que aqui chegariam. Os moradores, estes, acabariam se acostumando. Afinal foram tantos anos de poluição.
A opção A necessitaria de aços especiais. Minas Gerais tem. E assim nasceu o projeto do gasômetro da Pampulha. Uma enorme cúpula cobrindo toda a lagoa, captando o gás emanado e este fornecido para a comunidade local a preços favorecidos. O teto da cúpula seria iluminado pelo extraordinário cenógrafo Abel Gomes (da TV Globo e da árvore de Natal do Rio) dando ao público a imagem de águas azuis em movimento e a chaminé de escapamento, sempre acesa, teria a forma de uma tocha olímpica. O Iate Clube abrigaria o centro administrativo do gasômetro. O atual museu seria preservado como observatório da fantástica obra. As televisões no mundo inteiro transmitiriam o acontecimento divulgando Belo Horizonte, aumentando ainda mais o fluxo de turistas. Mais hotéis, restaurantes, milhares de novos empregos. É possível que a obra viesse a ser eleita uma das maravilhas do mundo moderno. O projeto executivo foi elaborado a jato. O financeiro também, já que o investimento foi estimado em apenas 1,5 bilhão de reais. O BNDES e o Banco Mundial financiariam 80% da obra. Os restantes 20% do estado e da prefeitura. Os problemas começaram a surgir na quantidade e preço do gás a ser gerado. Primeiro, a quantidade não era suficiente para toda a população residente no entorno da lagoa. Os bairros eram mais populosos que o previsto. O preço do gás era bem superior ao de botijões ou canalizado. A questão do preço foi rapidamente ultrapassada. A prefeitura subsidiaria o valor para as residências de até cinco moradores. Nova dificuldade. O valor do subsídio iria onerar em 20% o orçamento anual da prefeitura, o que impediria a realização de todas as demais obras do município. Politicamente inviável . A solução era partir para a opção B, sobretudo porque somente haviam sido gastos pouco mais de 200 milhões até ali.
O grupo de trabalho, diante da urgência, acelerou o segundo projeto, cujas obras já haviam iniciado-se, ainda que sob outro pretexto. O objetivo real jamais fora divulgado.
E assim nasceu o aterro da Pampulha. Um novo parque para a cidade. Superarborizado, afinal o terreno foi adubado por várias décadas. Ciclovias. Pistas para caminhada. Brinquedos para a criançada. O aroma agradável das árvores e flores faria com que a população se esquecesse do antigo odor fétido. O mundo aplaudiria a preocupação com o meio ambiente e a divulgação pela mídia, ainda que menor do que com o gasômetro, seria também positiva. O Iate Clube mudaria de nome e o museu continuaria como está.
Quem desejar ver as obras iniciadas é só passar pela lagoa defronte ao Jardim Zoológico.