Quarta, 22 de Maio de 2013
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Espanha

Viagem com vinhos

Viver Brasil foi até o norte da Espanha conhecer uma região de vinícolas e belo paladar

Texto: Antônio Siúves | Fotos: Ruta del Vino de Rioja Alavesa / Quintas


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O viajante que baixa de Bilbao, norte da Espanha, serpenteando de carro a cordilheira cantábrica, deixa para trás a névoa úmida outonal e de repente depara um céu imaculado. Logo, vê brilhar a imensa planície que delimita La Rioja ao pé de serras brancas, a lembrar o que fora a imensa cratera de um vulcão. Ao longo do vale, às margens do rio Ebro, avistam-se pequenas vilas erguidas a uma dezena de séculos. 

A fertilidade do vale contrasta com a aridez da paisagem e dá vida às centenas de milhares de vinhas que no início de outubro começam a descolorir, depois da última colheita. Chega-se a uma das mais importantes rotas mundiais do vinho e da comida. Em La Rioja, a excelência da bebida faz par com uma cultivada e orgulhosa tradição culinária que reverencia a qualidade das suas carnes e verduras.

A escolha da simpática Laguardia para nos hospedar se mostrou acertada. O pequeno município, que ergueu suas muralhas por volta do século 12, conserva admiravelmente o aspecto medieval; algumas edificações, como a igreja de Santa Maria de Los Reyes e as cinco portas da antiga fortificação, permanecem íntegras. 

Guardia, no idioma euskera, onde vivem cerca de 2,5 mil pessoas, é um município da Alava, uma das comunidades autônomas, ou comarcas, que formam o País Basco, cuja capital é Vitória. Elciego, Leza, Páganos e Samaniego são outros pequenos e charmosos povoamentos que o viajante atravessa enquanto percorre as estradas (as carreteras espanholas). 

A rota do vinho mais nobre compreende também a Rioja Alta e vai de Haro, onde se concentram grandes produtores, a Logronho, maior cidade da região. A Rioja baixa, a sudeste, é mais quente e árida, produz vinhos mais alcoólicos, e igualmente merece ser percorrida.

Com minha mulher e um casal de amigos, ficamos no confortável Castillo El Collado. Javier Acillona, o proprietário, é um homem caloroso e elegante, que parece encarnar algum personagem de Somerset Maugham. Entre a administração do hotel e o comando do restaurante, se porta como um genuíno gentleman perante os hóspedes. As suítes, amplas e com banheira, têm nomes e decoração próprias de muito bom gosto; ocupamos La Fábula (quarto 6) e Sancho Abarca (7). A diária, no final da primeira quinzena de outono, estava a 125 euros; o café da manhã, que inclui suco, presunto ibérico, embutidos e frutas, a 21 euros.


Bodega Isios: Sede entregue a uma celebridade da arquitetura contemporânea
Bodega Isios: Sede entregue a uma celebridade da arquitetura contemporânea

Depois de uma taça de Crianza no bar à frente do hotel e de apreciar o inesquecível panorama que se descortina dos jardins que circundam a parte leste de Laguardia, ao longo do Paseo El Collado, passeamos pelo centro histórico e fomos comer, em horário espanhol (depois das 14h). Na quarta-feira, 12 de outubro, feriado nacional na Espanha, reservamos o El Bodegón, pequeno restaurante-taberna de ótima cozinha riojana tradicional. Como primeiros pratos, minestra de alcachofra, batatas a la riojana e lecherillas (lascas de costeletas) de cordeiro ao aroma de alho e salsinha; vieram em seguida as carnes, muito bem executadas, de cervo, cordeiro,  porco e boi; entre as sobremesas (postres), me encantou uma formulação de coalhada com licor de anis e toques de compota de morango. A conta ficou em 75 euros por casal, incluindo os vinhos.  

Não circulam carros e outros veículos motorizados dentro de Laguardia, entre outras razões óbvias, para se proteger as cavas subterrâneas dos prédios do centro histórico. Depois do almoço e de pequena caminhada, um amigo espanhol, vindo de Bilbao com a mulher, nos apresentou a uma delas, pertencente à família de uma colega de trabalho. Trouxe consigo a chave da bodega, que abrimos por conta própria. Descemos as escadarias, nos guiando até depósitos cobertos por teias de aranha onde repousam um milhar de garrafas no mais perfeito sossego.

Na saída, recebemos o regalo de uma garrafa de vinho e salame que haviam sido deixados à nossa espera, e que iríamos guardar para celebrar mais tarde o comovente pôr do sol visto sobre Elvillar, desde o dólmen neolítico conhecido como La Chabola de La Hechicera (a cabana da feiticeira), na localidade de La Hoya.

Na bodega El Fabulista, onde é utilizado o método ancestral de pisa no lagar
Na bodega El Fabulista, onde é utilizado o método ancestral de pisa no lagar

Antes, tivemos tempo para visitar El Fabulista, bodega (denominação espanhola para toda sorte de vinícola e empresa do ramo) encravada sob o palácio que pertencera ao literato e herói de Laguardia Félix María Samaniego. A vinícola ainda utiliza o método ancestral da pisa no lagar, onde ocorre a primeira fermentação da colheita. O ar é cheio de gás carbônico e do característico e penetrante odor azedo. Em outubro, logo depois da colheita, o visitante pode experimentar a prática, depois de calçar botas de borracha de cano alto. Uma representante da casa explica todo o processo da vinificação. Ao final, se oferece uma cata (prova) de dois vinhos da marca. A visita custa 6 euros.  

No sopé de Laguardia se avista, dos altos do Paseo El Collado, o cartão-postal que se tornou a bodega Ysios. Como várias das vinícolas regionais, esta sede também foi entregue aos cuidados de uma celebridade da arquitetura contemporânea, no caso o espanhol Santiago Calatrava, na onda desencadeada pela vizinha Bilbao com advento do espetacular museu Guggenheim, inaugurado em 1997. A longa fachada com telhado sinusoidal revestido em alumínio sobre madeiras em cor terrosa esplende amarelos fortes ao sol da tarde, no mesmo alinhamento do horizonte, ao fundo, delineado pelas serras cantábricas. 

Navaridas: pequeno povoado da região
Navaridas: pequeno povoado da região

A Ysios é uma das inúmeras vinícolas da rota do vinho que podem ser conhecidas mediante agendamento, por telefone ou internet. Os passes custam entre 6 e 10 euros. Também é possível marcar visitas premium, nas quais os grandes reservas da vinícola podem ser provados. Saem por 25 euros ou mais. Infelizmente, não ocorrem com a mesma regularidade. Não se deve esquecer que as apresentações, que duram cerca de duas horas, ocorrem rigorosamente no horário e são quase cronometradas.

O viajante iniciado no mundo dos vinhos há de eleger os grandes nomes da Rioja para visitar — nem todas as bodegas recebem turistas. Viña Tondonia, Muga, Roda, localizadas em Haro, estão entre as mais cotadas, eleitas, por exemplo, por Robert Parker, papa da Wine Advisor, ou Eric Asimov, crítico de vinhos do jornal The New York Times. Recomenda-se ao viajante uma permanência mínima de três dias na Rioja para que possa percorrer a rota do vinho essencial. Há muito que se ver, conhecer e desfrutar. 

No segundo dia, depois de uma primeira vista d’olhos sobre Logronho, tomamos o caminho de volta, rumo a Haro. Destino: Viña Tondonia. Fundada há quase 150 anos por dom Rafael López de Heredia, a casa faz jus a este destaque. Este “Vaticano dos crentes das virtudes da Rioja clássica”, na definição de Luiz Henrique Horta, colunista de vinhos do jornal O Estado de S. Paulo, é um porto seguro de tradição, talento e perseverança. Os principais vinhos da casa amadurecem por períodos mínimos de 10 anos. Seus inverossímeis brancos se mantém vibrantes por décadas. As safras de 1985 e 1987 estão entre as mais celebradas, e ainda são disputadas. Em nossa visita, provamos o branco Viña Gravonia 2002 (aparentemente ainda indisponível no Brasil), e o vermelho Viña Todonia Reserva 2001 (196,72 reais, na importadora Vinci). Os Viña Tondonia nascem em vinhedos de 100 hectares plantados na margem direita do Ebro. Outros três vinhedos de López de Herdia compartilham mais 70 hectares na Alta Rioja e são engarrafados com os rótulos Cubillo, Bosconia e Gravonia.

Enoteca Arburi, em Laguardia: excelência da bebida faz a fama de La Rioja
Enoteca Arburi, em Laguardia: excelência da bebida faz a fama de La Rioja
Em Elciego — outra vila de La Rioja que dá ao viajante a impressão de estar invadindo um canto olvidado pelo mundo —, queda a Marques de Riscal — bodega hotel e restaurante, comandado pelo chef José Ramón Piñero sob supervisão de Francis Paniego, primeiro riojano a receber uma estrela do guia Michelin. As opções dos três menus-degustação variam de 55 a  91 euros. O edifício é cria do celebrado Frank Gehry, o mesmo arquiteto do Guggenheim bilbaíno. A cobertura em chapas retorcidas de titânio nas cores prata, dourado e bordô lembra um primeiro anteprojeto do museu de Bilbao. 
Nessa mesma tarde estivemos em Briones, situada a menos de 10 quilômetros de Haro, para conhecer a Dinastia Vivanco. Dificilmente se poderia proporcionar um passeio mais completo e profundo pelo universo da vinicultura do que oferecido pelo museu construído pela Vivanco. O acervo, distribuído na planta em cinco pisos temáticos, contempla milênios de civilização em torno da fabricação, armazenamento, comércio, degustação e arte inspirada no vinho. No último, fica a maior coleção do mundo de saca-rolhas e outros aparatos utilizados no serviço do vinho, com mais de 5 mil exemplares.
Centro temático del Vino Villa Lucia, em Laguardia
Centro temático del Vino Villa Lucia, em Laguardia

No museu se podem observar, por exemplo, cortes de carvalho francês e norte-americano, empregados na fabricação de tonéis e barricas onde a vinificação e o amadurecimento da bebida são realizados. Não se trata de mero detalhe. O vinho riojano conserva longa e estreita combinação com o carvalho. A diferença entre as madeiras nativa dos montes Apalaches, nos Estados Unidos, ou da região francesa de Bordeaux pode definir o caráter da bebida. Em geral, se concorda que os barris de madeira norte-americana se integram melhor ao vinho da Rioja. Na saída do museu se pode caminhar pelo Jardim de Baco. Em vez de canteiros de flores, foram plantadas ali castas de todas as regiões viníferas do globo.

Na ocasião da nossa visita ainda se podiam encontrar alguns cachos nos pés e provar bagas da rainha Tempranillo, uva que representa para a Rioja o mesmo que a Pinot Noir para a Borgonha francesa. Há vinhos vermelhos feitos inteiramente com a Tempranillo e, mais frequentemente, estruturados com as castas Garnacha e Graciano. A Viura, ou Macabeo, predomina nos brancos dessa terra. 

Conforme a denominação de origem qualificada (Doca em espanhol), estabelecida no país, os vinhos Crianza devem ter pelo menos dois anos de envelhecimento e passar um ano em barrica de carvalho; os reservas, três de maturação e dois anos em barrica. A palavra crianza deriva de criar, o verbo em espanhol aplicado aos cuidados que a mãe dedica ao filho e que se distingue sutilmente de crear, a ação de originar coisas novas. Por aí se tem a medida do papel que a vinicultura desempenha no país de Goya e Góngora.

El bodegón, em Laguardia: restaurante-taberna de cozinha riojana tradicional
El bodegón, em Laguardia: restaurante-taberna de cozinha riojana tradicional

Entre Briones e Laguardia, depois de cruzar o Ebro, passa-se por San Vicente de la Sonsierra, que também pede uma parada ao viajante, ainda que para passar alguns momentos no alto da vila e admirar a igreja de Santa Maria la Mayor, além da soberba vista do castelo de Davalillo, situado na vizinha San Asencio, ainda na Rioja Alta.

No final da manhã tínhamos caminhado pelas ruas da parte velha de Haro. Como nas outras praças da Rioja e da Espanha, orgulhosamente ainda se pratica na cidade a tradição da sesta. As tardes são modorrentas para quem anda pelas calles no período que pode se prolongar das 13h30 às 17h30. Todo o comércio fecha para o mediodia, quando o espanhol realmente almoça e descansa, com direito a tirar uma boa pestana. 

À noite jantamos no hotel, também apegado à tradição culinária local, e passamos bem. O restaurante do Castillo El Collado, de ambiente refinado e serviço impecável conduzido pelo próprio senhor Javier, é um dos mais procurados em Laguardia; experimentei um bacalao en salsa de tomate con piquillos riojanos (bacalhau fresco em molho de tomate e pimentão) digno de constar deste relato. A conta para duas pessoas saiu por 75 euros, incluindo vinhos de primeira linha — uma pechincha em relação a Belo Horizonte, diga-se de passagem. A propósito, indo a Laguardia, evite o restaurante do hotel Marixa, um canta-turista típico que não honra a qualidade da culinária local.

Na manhã seguinte pegamos a estrada de Logronho, distante apenas 16 quilômetros de Laguardia. A capital da província autônoma da Rioja é um rico e movimentado centro de compras e serviços; também, em grande parte, para completamente durante a sesta. Na parte antiga, os moradores locais e raros turistas que se veem nas ruas convergem para as calles Laurel e San Agustin, que disputam os fregueses das rondas de pintxos (tapas na língua basca) antes do almoço (mediodia) e do jantar. Às sextas-feiras à tarde e antes do almoço dominical, conforme o costume, praticado também no casco antiguo de Bilbao ou na parte vieja de San Sebastián, se faz a via-sacra entre um bar e outro, encontrando amigos, provando vinhos e a variedade desconcertante de pequenas formulações com pão, cogumelos, pescados e o que mais a criatividade dos cozinheiros espanhóis seja capaz de agregar. Na travessa Laurel, entre uma calle e outra, o Paganos, especializado em setas (cogumelos), é um dos mais concorridos.

Em Logronho se pode tomar o Vinobús, serviço de visitas guiadas por rotas do vinho próximas ao município, e em Laguardia há o Enobus. São opções interessantes para quem não quer se preocupar em beber e ter que dirigir. Os passeios custam 18 euros, no primeiro caso, e os tíquetes podem ser comprados pela internet.  

No torna-viagem, entregamos em Logronho o carro alugado em Bilbao e descemos de ônibus até Madri. A viagem, em veículo que oferece conforto médio, custa 21 euros por assento e dura um pouco mais de três horas. O passageiro é deixado diretamente no aeroporto de Barajas.

Serviço

Como chegar

A melhor alternativa para se ir à Rioja é por meio do aeroporto de Bilbao, e fazer o trajeto complementar de carro, de aproximadamente hora e meia de duração. Há também voos menos frequentes para os aeroportos regionais de Vitória e Logronho. Os itinerários de trem para o norte da Espanha são demorados e tortuosos.

 

Onde se hospedar em Laguardia

 Onde comer em Laguardia


 
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