Nas últimas décadas do século passado o mundo parecia ter entrado em um período de permanente prosperidade. A análise das consequências do final da Guerra Fria, que induziu Fukuyama a anunciar o fim da história e a consolidação da globalização, eram os sinais do início de uma nova era: no plano econômico, com a expansão do livre comércio, do crescimento do consumo, do emprego e da renda, e no plano político, de liberdade e paz.
Contudo, o século 21 chegou prenunciando outros tempos. O novo século inicia-se em 11 de setembro de 2001 com a destruição das torres gêmeas em Nova Iorque. O terrorismo ocupa o espaço deixado pela guerra fria. Seus efeitos atingem também a economia, principalmente os fluxos comerciais internacionais.
Sete anos mais tarde, a globalização financeira tem o seu revés com a falência do Lehman Brothers em 15 de setembro de 2008. O modelo de expansão do mercado financeiro com pouco ou nenhum controle ou supervisão supranacional mostrou-se vulnerável.
O novo século começa, então, destruindo as bases da prosperidade que vinha do século passado e colocando em dúvida a visão predominante da supremacia do mercado sobre o controle do governo. É o alvorecer de um período de instabilidade e incertezas.
Sinais das mudanças na orientação da política econômica nos EUA surgem na administração Obama, com a expansão monetária e fiscal. Ademais, o governo socorreu bancos e grandes empresas visando à manutenção do emprego. Na Europa, as medidas de política monetária seguiram no mesmo sentido, embora menos flexíveis, e houve um afrouxamento no controle fiscal em muitos países para estimular o crescimento.
Quase tudo diferente do que se entendia mais apropriado e se fazia no século passado. Os resultados foram modestos e a crise voltou mais grave, agora, com a combinação de vulnerabilidade bancária no setor privado com desequilíbrio fiscal no setor público. A gestão econômica não contribuiu para a solução da crise de 2008 e tornou-se uma ameaça ao equilíbrio financeiro global. Ampliam-se, assim, os conflitos entre globalização e interesse nacional.
Tais conflitos dificultam a construção de soluções duradoras para um novo equilíbrio. De um lado, nos regimes parlamentaristas, a crise vai abatendo primeiros-ministros, como nos casos da Grécia e da Itália. Outros virão em breve. De outro lado, a agenda político-eleitoral dos EUA e da França, onde haverá eleições presidenciais no próximo ano, dará prioridade aos temas nacionais em detrimento às questões internacionais.
Se a participação dos países emergentes no âmbito do G20 pode ajudar na busca de soluções efetivas, ao incluir, legitimamente, seus interesses na pauta de discussões, torna ainda maior a complexidade na construção de consenso.
Enfim, se a crise econômica promove a instabilidade política, a indefinição política contribui por manter a instabilidade econômica. O mundo torna-se mais perigoso.