Sábado, 25 de Maio de 2013
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Mercado

O pequeno notável

Os bons frutos que o açaí rende para a economia do Brasil e do mundo

Texto: Fernando Torres | Fotos: Pedro Vilela


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Originário da Amazônia, o açaí caiu no gosto da população. Na última década, o fruto roxo de apenas 1,5 g e menos de 2 cm de diâmetro percorreu a trilha dos quiosques alternativos e chegou à indústria alimentícia, com escala no setor de cosméticos. Exótico e versátil, ele também segue sólida carreira no exterior. Em 2010, só o Pará exportou 6,6 mil toneladas para países como Estados Unidos e Japão, totalizando 18,6 milhões de dólares, conforme a Secretaria de Agricultura do Estado (Sagri-PA). 

A rota do açaí, aliás, passa necessariamente pelo Pará, detentor de 88% da produção anual. “Em 2010, produzimos 706 mil toneladas, com receita de 1,03 bilhão de reais. Como a procura para plantio ainda existe, a perspectiva é que esses valores dobrem daqui a dez anos”, afirma Geraldo Tavares, engenheiro agrônomo da Sagri. Com cerca de 60 mil hectares de área plantada, o Pará também concentra 17 dos 20 maiores municípios produtores, como Limoeiro do Ajuru (16,6%), Ponta de Pedras (9,3%) e Igarapé-Miri (5,3%), conhecida como a capital do açaí.


Filipe Sabará: exportação para mais de 40 países / Divulgação
Filipe Sabará: exportação para mais de 40 países / Divulgação

Graças ao fruto, o estado tem mais de 150 agroindústrias e recebe investimento de empresas estrangeiras. Em 2009, por exemplo, a californiana Bolthouse Farms abriu filial em Icoaraci, região metropolitana de Belém, para explorar a produção diária de 60 toneladas de polpa para a fabricação de sucos tropicais. O investimento foi de 10 milhões de dólares. 

Como consequência, a economia local sofre impacto positivo. “O açaí é responsável por 70% da renda da população ribeirinha, cerca de 300 mil pessoas. É a base econômica de muitos municípios, como a ilha de Marajó”, informa Tavares. Exemplo disso é a Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu, a 113 km de Belém, com 800 famílias cadastradas como fornecedoras.

Os lucros do açaí também chegaram a Minas. A GlobalBev, por exemplo, trouxe o fruto da tigela para a caixinha. Em abril, a empresa lançou a Linha Amazoo Açaí em três sabores – tradicional, com morango e com banana –, nos tamanhos 1 l e 250 ml. “Vislumbramos um mercado que, praticamente,  não existe no Brasil. A maior parte do consumo é da polpa congelada”, diz o presidente da companhia, Bernardo Lobato. 

"Vislumbramos um mercado que ainda não existe no Brasil. A maior parte do consumo é da polpa congelada” Bernardo Lobato

O investimento da GlobalBev inclui a compra da fábrica Bony Açaí, em Marituba, região metropolitana de Belém. “Investimos pesado para ter garantia da matéria-prima, pois a cadeia de produção do fruto ainda é artesanal fora do período de safra”, explica Lobato. Atualmente, a empresa produz cerca de 

800 toneladas mensais de polpa congelada, das quais 50% são exportadas para clientes dos Estados Unidos e da Europa. As 50% restantes vão para a mineira Visconde do Rio Branco, na Zona da Mata, onde são transformadas em 250 mil unidades mensais de suco. “Para 2012, a expectativa é que a linha Amazoo tenha faturamento anual de 25 milhões, cerca de 10% do valor total da companhia”, antevê Lobato. O empresário ainda planeja expandir os negócios para novos sabores do suco e também a polpa industrializada.

Outro mineiro bem-sucedido é o empresário Tony Camargos, dono da Rede Açaí.com, de Divinópolis, na região Centro-Oeste. No mercado desde 2009, ele conta com quatro unidades próprias – três em Divinópolis e uma em Belo Horizonte, no Buritis –, 14 franquias espalhadas por Minas e uma em São Luís, no Maranhão. “Compro a matéria-prima in natura de cooperativas do Pará. A polpa é pasteurizada no Norte, mas o creme é preparado em Minas, com receita exclusiva”, conta. Das 1,5 toneladas mensais comercializadas em 2009, a rede saltou para 60 toneladas ao mês, mais de 700 ao ano. “A empresa gera 50 empregos diretos nos setores de fabricação, transporte e atendimento das quatro lojas próprias”, diz Tony.

Carlos Mesquita, da L’acqua di Fiori: expectativa de aumentar as vendas em 15% no verão
Carlos Mesquita, da L’acqua di Fiori: expectativa de aumentar as vendas em 15% no verão

Indústria da beleza

O óleo de açaí, extraído da casca do fruto, também faz sucesso no campo da cosmética. A principal justificativa é o pigmento antocianina, responsável pela coloração roxa do fruto, que ajuda a retardar o   envelhecimento. Grande parte da matéria-prima é comercializada pela empresa paulista Beraca, com unidade em Ananindeua (PA). Indiretamente, o grupo dá emprego à cerca de 4 mil pessoas na região. “Trabalhamos em parceria com comunidades locais. Elas são responsáveis por coletar e despolpar o açaí, processo que agrega valor ao produto e aumenta o retorno financeiro”, diz o diretor de negócios da empresa, Filipe Sabará.

Desde o início dos anos 2000, a Beraca exporta cerca de 200 toneladas do ativo processado, o equivalente a 18% da produção, para mais de 40 países, como Estados Unidos, França, Japão, Austrália e China. “Temos entre nossos clientes marcas como a norte-americana Victoria’s Secrets, a japonesa Shiseido e a inglesa Unilever”, lista Sabará. O insumo importado também é base de sabonetes, xampus e cremes antiaging da multinacional norte-americana Procter & Gamble. Outro nome de peso é a grife Kiehl’s, do grupo francês L’Oreal, que utiliza o açaí em quatro produtos: gel de limpeza, tônico, soro de renovação e hidratante antienvelhecimento. A atriz Julianne Moore, quatro vezes indicada ao Oscar, é a garota-propaganda.

No Brasil, a Natura é o principal comprador da Beraca. A grife inaugurou em 2009 a linha sazonal Ekos Açaí, composta de hidratante para as mãos, sabonete líquido corporal, sabonete em barra, esfoliante, óleo trifásico e até mesmo fragrância – o carro-chefe na última edição. “Para a safra 2011, que se inicia em novembro e fica à venda por cinco meses, temos como novidades a polpa hidratante corporal e o sabonete líquido para as mãos”, anuncia a gerente da linha Ekos, Penelope Uiehara. A marca O Boticário seguiu os passos do açaí também em 2009. A linha Nativa Spa conta com sabonete, esfoliante, flan hidratante, óleo e creme para os pés. No início do mês, mais dois produtos se agregaram à família: loção cremosa e o desodorante colônia Açaí Senses.

A mineira L’acqua di Fiori, por sua vez, privilegiou a combinação entre açaí, guaraná e buriti na fórmula de três produtos da linha Spa L’acqua: hidratante corporal, óleo esfoliante e sabonete líquido. Lançados em 2010, os itens correspondem a 35% do faturamento da linha. “A expectativa para o próximo verão é aumentar as vendas em 15% e lançar novos produtos, como cremes pós-sol e loções faciais”, antecipa Carlos Mesquita, diretor de relações públicas da L’acqua di Fiori.

Como se não bastasse, o açaí também já deu as caras em produtos de saúde bucal. Em 2007, a Colgate lançou o gel de uso diário Sorriso Fresh Açaí. A iniciativa é resultado de estudos da Universidade Federal do Pará (Ufpa), que desde o início da década passada estuda o uso de corantes à base do fruto amazônico. A principal justificativa é o nível zero de efeitos colaterais. Defitivamente, não há limites para este pequeno notável. 

Rogério Vidal: plantio de juçara / Daniel de Cerqueira
Rogério Vidal: plantio de juçara / Daniel de Cerqueira

Açaí mineiro

Quem não tem açaí planta juçara. Esse poderia ser o lema das empresas mineiras Sertão Agroindustrial, em Itabira, a 111 km de Belo Horizonte, e Infrater Engenharia, em Betim, região metropolitana. Há cinco anos, as companhias incentivam a produção extrativista da juçara (Euterpe edulis). Nativa da mata atlântica, a palmeira é prima em primeiro grau do açaí, mas está em extinção. “Nossa estratégia, além de comercial, é ecológica. Hoje, são 40 famílias de agricultores em atividade na região do Vale do Rio Doce, em comunidades como Marliéria, Jaguaraçu, Mesquita e Antônio Dias”, enumera o engenheiro agrônomo Rogério Vidal, responsável técnico da Sertão Agroindustrial.

As empresas conduzem o processo do plantio à colheita. A Infrater retira as sementes da região do Vale do Rio Doce e planta as mudas em Honório Bicalho, na região metropolitana, e em Ipatinga, no Vale do Aço. Quando elas atingem 50 cm, são fornecidas aos agricultores. Já as de 1 m são vendidas por cerca de 3 reais. Na época de safra, entre janeiro a junho, a Sertão compra o fruto – de 70 centavos e 1 real o litro. Em 2011, até agora, foram processadas cinco toneladas. “A produção ainda é baixa, pois o tempo entre o plantio e a colheita demora bastante. Ainda faltam uns quatro anos para o negócio realmente deslanchar, virar agricultura mesmo”, antevê Vidal.

O produto final da juçara é a polpa congelada e o suco concentrado – tal qual o açaí – com a marca Sertão. “A aparência e o gosto são bem parecidos, mas a cor é mais amarronzada, devido ao alto teor de óleo”, diz o engenheiro. Segundo ele, a polpa da juçara também é superior na quantidade de potássio.

Em alta no exterior

Total de açaí exportado

 

2002: 1,1 mil t - US$ 1 milhão

 

2010: 6,6 mil t - US$ 18,6 milhões

 

Fontes: Secretaria de Agricultura do Estado do Pará; Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior

Raio X

Fruto do açaizeiro, o açaí (Euterpe oleracea) fazia parte da cultura dos povos nativos do Norte do Brasil antes da chegada dos portugueses. Os grãos amassados dão origem ao vinho do açaí, o espesso líquido roxo de valor energético. Versátil, pode ser consumido como suco, sorvete (polpa congelada) ou geleias, acompanhado de granola e frutas como banana, morango, kiwi. No Pará, a forma mais usual é acompanhado de farinha de mandioca ou de tapioca. Além de agradável ao paladar, o açaí tem valores nutricionais. “Ele ajuda a reduzir riscos de doenças cardíacas e os níveis elevados de colesterol, graças à grande quantidade de fibras, vitamina E, proteínas, minerais, antioxidantes e ácidos graxos essenciais como ômega 6 e 9”, relaciona a nutricionista Luiza Campos. O único inconveniente é o alto nível calórico: cerca de 350 kcal a cada 100 g. Já o óleo é extraído da casca. Dela, se obtém a farinha de açaí, prensada para obter o óleo e também usada como matéria-prima para a fabricação do esfoliante natural. O rendimento é muito baixo: para se produzir 1 kg de óleo, são necessários 300 kg de casca.

Histórico

O terreno fértil da exportação do açaí foi descoberto quase por acaso pelos surfistas norte-americanos Ryan Black e Ed Nichols, em 2000, em viagem ao litoral brasileiro. Encantados com o fruto, ainda no mesmo ano eles lançaram nos Estados Unidos a marca Sambazon. De lá para cá, o elixir virou mania nos Estados Unidos. A rede comercializa linhas de suco, energético e suplementos em mais de 15 mil lojas no país e tem faturamento estimado em 160 milhões de dólares. O sucesso foi tanto que a empresa também abriu filial no Brasil – mais especificamente em Santana, no Amapá – para beneficiamento da polpa.


 
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