Sábado, 18 de Maio de 2013
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Especial

Uma pintura de hotel

Quarta edição do prêmio Le Meurice de Arte Contemporânea premia projeto sobre a África, reforçando os laços do hotel com a arte

Texto: Bruno César Dias | Fotos: Divulgação


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O Le Meurice: repaginado por Phillipe Starck em 2009

É possível juntar as lutas políticas da Guiné-Bissau com estilo Luís 16 e o design contemporâneo? Sim, se o assunto for arte, e essa é uma das especialidades do hotel Le Meurice. Desde 2008, o prêmio Le Meurice de Arte Contemporânea prestigia jovens franceses que se destacam no cenário artístico internacional. A premiação é divulgada um pouco antes da Feira Internacional de Arte Contemporânea, que aconteceu no Grand Palais, no final de outubro. Em sua quarta edição, o prêmio ficou para o jovem Mathieu Abonnenc, de 34 anos pela obra Procurando Awa. 

Projeto para um longa-metragem desenvolvido por Abonnenc, Procurando Awa é a reconstituição artística da luta de independência da Guiné-Bissau, na década de 1970. O artista trabalhou por dois anos sobre fragmentos do filme incompleto Forewords to guns for Banta, produzido pela cineasta Sarah Maldoror no período em que a população do país levantava armas contra a colonização portuguesa. Para o projeto do seu longa-metragem, Abonnenc produziu telas e instalações que retomam rostos e notícias de jornal extraídos da película Sarah. O prêmio de 20 mil euros concedido pelo hotel será dividido entre o artista e a galeria que o representa, a Marcelle Allix. 


Mathieu Abonnenc, que venceu o prêmio
Mathieu Abonnenc, que venceu o prêmio

A escolha de Mathieu Abonnenc foi feita por um seleto júri composto por grandes curadores de museus internacionais, como Henri Loyrette, diretor do Louvre, e encabeçado por Franka Holtmann, gerente-geral do hotel Meurice. Desde que assumiu o cargo, a executiva buscou a arte para destacar ainda mais o Le Meurice no cenário da hotelaria internacional. 

O palácio de 1835 por si só já era um espaço de arte. A começar pela localização, em frente ao Jardim das Tulherias, na rua de Rivoli. O estilo da construção, seguindo os preceitos da arquitetura neoclássica, e a decoração de seus 160 quartos, com pinturas e peças de mobiliário estilo Luís 16, são alguns dos outros motivos que sempre atraíram nobres, artistas e magnatas de todas as partes do mundo. 

Referências tão fortes que foram mantidas pelo grupo Dorchester Collection no período de reforma do hotel, em 2000, e retomadas pela parceria do grupo com o renomado designer Phillipe Starck. 

Fachada do Le Meurice, de 1835: quartos com pinturas e mobiliário estilo Luís 16
Fachada do Le Meurice, de 1835: quartos com pinturas e mobiliário estilo Luís 16

O térreo do Le Meurice passou por uma repaginada pelas mãos de Starck, processo concluído em 2009 e divulgado ao mundo numa bela festa de inauguração. As composições simétricas tradicionais da construção formaram a base para a redefinição do desenho do lobby de entrada. Adornos tão característicos do estilo de móveis imortalizado pelo nome do rei francês que caiu junto com a Bastilha entraram na prancheta do designer para a produção de novos móveis. Um dos grandes destaques do projeto é a tela de 145 metros quadrados pintada por sua filha, Ara Starck, decorando o salão do jantar do restaurante Le Dali. 

Dali: fotos e obras do artista no hotel
Dali: fotos e obras do artista no hotel

Hóspede surreal

O gênio do surrealismo se hospedava pelo menos uma vez ao ano no hotel no auge de seu período produtivo. Já entrou para a história do anedotário da hotelaria as loucuras que o artista pedia ao staff do Le Meurice: peles de carneiros para se cobrir que eram alvejadas por balas sem pólvora; cavalos andando dentro dos corredores do prédio, caça a moscas no Jardim das Tulherias que rendiam 5 francos por inseto aos funcionários que topavam as loucuras do pintor.

Além das histórias e do nome de batismo do restaurante, as marcas de Dali podem ser encontradas em fotos do artista e de algumas de sua obras que decoram o hotel e em móveis por ele desenhados e reinterpretados por Starck, como uma cadeira Daliesque, com os pés na forma de sapatos de senhoras, uma lâmpada com gavetas e a lagosta – uma das marcas presentes nas telas do artista – utilizada como gôndola de um antigo telefone.


 
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