Foi dado o pontapé inicial na onda de protestos no Brasil. A massa humana que saiu às ruas, notadamente em Brasília, nos dias 12 e 15 de outubro, foi significativa, o suficiente, para servir de alerta quanto ao fato de que a população não está nada contente com a pecha de corrupção associada à grande parte de nossa classe política. Na campanha presidencial de 1960 essa mesma vassoura que, empunhada pela massa, hoje assombra o poder dominante – representado pelo governo e pela oposição – , também foi emblemática na escalada irresistível de Jânio Quadros, que, ao usá-la como símbolo de sua campanha, impulsionada pelo jingle “Varre, varre, vassourinha”, incendiou o país.
Aditivado pelas redes sociais, à revelia de todos os políticos e à margem dos meios de divulgação, esse movimento acompanha uma tendência mundial – vide primavera árabe e occupy Wall Street – de protestos e começa a ganhar corpo por aqui. É bom que a classe política se ajoelhe e encoste os ouvidos no chão para escutar os ruídos e rumores que vêm das ruas. Por enquanto é apenas um emaranhado de pequenas ondas (uma marolinha?), mas que podem se tornar em verdadeiro tsunami, tamanha a indignação, por tudo o que hoje ocorre, sem o menor pudor ou disfarce. A corrupção desenfreada, uma reforma política que só enxerga o interesse dos partidos, sem ouvir a população; uma briga sem sentido pelos royalties do petróleo, que pertencem a toda a nação, eis que sua extração se realiza a centenas de quilômetros da costa, em áreas federais, sem qualquer investimento estadual, são fatores que irritam a todos nós, sem falar de uma reforma tributária que atenue uma das mais injustas e altas incidências de impostos sobre o assalariado no mundo globalizado.
Tudo, hoje, gerado no mundo político, é por ele manipulado em benefício próprio, de tal sorte que a impunidade que se alastra encontra, até mesmo na própria legislação, pasmem, brechas que protegem uns poucos privilegiados de responder por seus atos, amparados em desvirtuada imunidade parlamentar. Esses protestos, embora, ainda, não atinjam as dimensões dos movimentos Diretas Já e Fora Collor, que reuniram grandes multidões em seus ápices, já fazem com que a maioria da classe política se dê conta de que muitas posições que está a patrocinar mostram-se indefensáveis, moralmente, aos olhos dos eleitores.
Os participantes dos protestos iniciados no 7 de setembro evoluíram para um contingente maior nos dias 12 e 15 de outubro na capital do país e se alastraram para além de Brasília, atingindo diversas capitais, para pedir o fim, dentre tantas mazelas, do voto secreto no congresso e a aplicação da Ficha Limpa. A multidão está empunhando nova bandeira, ostentando a verdadeira liberdade, sem tutelas. O povo, ao não permitir a presença de políticos nessas manifestações, traz à tona uma nova forma de sarcasmo, intrinsecamente presente no movimento, através do desprezo a eles devotado. É como se o brasileiro, de repente, resolvesse exercitar aquilo que Paulo Freire, um dia, denominou como pedagogia da indignação. Ainda não se sabe, nem se pode prever, que dimensão tudo isso irá assumir, mas, seguramente, algo de novo está acontecendo e sendo gerado no ventre fecundo da sociedade brasileira.