O Brasil vive um momento de ambiguidade em sua economia. Se de um lado vemos um enorme dinamismo em vários setores – a construção e o agronegócio são bons exemplos disso – em outros, há uma preocupante perda nas condições de operação, seja por estreitamento do mercado, pela concorrência predatória dos produtos importados, seja pela redução das margens operacionais, pela elevação de custos. A siderurgia nacional enfrenta dificuldades nas duas pontas. De um lado, há a concorrência com países como a China, capaz de produzir, segundo o ministro Fernando Pimentel, “tudo a um preço muito mais baixo do que todos”, que tem provocado a queda dos preços do aço, problema agravado com a redução do crescimento mundial, fazendo aumentar o estoque do produto no mercado internacional. Essa concorrência é a, poderíamos chamar assim, de forma direta.
Além de não conseguirmos colocar o aço que produzimos no mercado internacional, ainda enfrentamos a concorrência no mercado interno de um produto que, além de ser produzido a custos menores, ainda chega entre nós através de práticas pouco ortodoxas para dizer o mínimo. Para se ter uma dimensão desse problema, em 2005 a importação direta de aço foi de 756 mil toneladas, chegando a 5,9 milhões de toneladas em 2010. É um crescimento para derrubar qualquer setor. Mas há ainda a concorrência indireta. A avalanche de importações de automóveis, autopeças,máquinas e equipamentos, bens eletrodomésticos e outros produtos com elevado conteúdo em aço é vista hoje como o principal vilão do mercado siderúrgico nacional. Estima-se que a entrada de aço indireto no país via material acabado já roube cerca de 15% a 20% de um mercado que potencialmente seria das usinas locais. Em 2005, esta importação indireta era de 1.409 milhões de toneladas e em 2010 atingiu 4.201 milhões de toneladas. Da concorrência direta a siderurgia nacional tem procurado dar conta, a custo de um enorme esforço que tem reduzido dramaticamente sua margem operacional que hoje está num patamar que inviabiliza a realização de investimentos de ampliação do parque siderúrgico.
Quanto à indireta ele nada pode fazer, pois ela retrata uma preocupante sinalização de desindustrialização, problema que está mascarado pelo dinamismo de outros segmentos. Em pouco tempo vamos descobrir que estamos transferindo para o exterior nossos empregos de melhor qualificação. Há uma clara inversão na determinação dos preços praticados pelo setor. As siderúrgicas já não podem tomar por base os seus custos para, fixarem seus preços. Hoje, tomam os preços de mercado e comprimem seus custos para chegar a este valor, às vezes reduzindo perigosamente suas margens. Esse problema vem se agravando sem que o governo federal aja de uma forma efetiva. Ninguém cobra do governo ações que não são de sua competência. O setor siderúrgico, que fique claro, não quer protecionismos pois, em igualdade de condições, tem competência, tecnologia e experiência gerencial para estar no mercado. Mas fica em desvantagens com seus concorrentes naquilo que escapa ao seu controle e é de competência exclusiva do governo.
Nenhum segmento consegue competir massacrado por uma carga tributária excessiva. Enfrentando guerra fiscal entre estados. Sofrendo com a falta de infraestrutura de transportes- com carências desde rodovias até portos e aeroportos isto sem falar, claro em ferrovias que entre nós inexistem- e de insegurança jurídica pela falta de legislação clara. A capacidade de competição do setor siderúrgico tem limites que extrapolam sua competência. E ela já está muito próxima deste limite. Em algumas situações até já superou. É hora dos governos – em todos os níveis – assumirem suas responsabilidades com um setor que gera milhões de empregos, recolhe bilhões em impostos é que está na origem de nossa história econômica.