Sábado, 18 de Maio de 2013
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Mineração

Potencial existe

O Brasil, especificamente Minas Gerais, possui grandes reservas de terras raras, conjunto de 17 elementos químicos quase inexplorados no país, mas que começa a ganhar estudos para viabilização extrativa

Texto: Terezinha Moreira | Fotos: Luludi/LUZ


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Uma mina de ouro ou um tesouro perdido? Na China, uma mina de ouro. No Brasil ainda uma incógnita. Estamos falando das terras raras, das quais a China detém 97% do mercado mundial. Ao contrário do que o nome sugere, segundo o professor associado da Escola Politécnica da USP e diretor de Inovação do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), Fernando Landgraf, as terras raras são o conjunto de 17 elementos químicos, usados em produtos de alta tecnologia, como os ímãs, que transformam energia elétrica em energia mecânica e em produtos high tech como notebooks, telefones celulares, trens-bala, iPods, fibras óticas e painéis solares. As terras raras também são usadas como catalisadores, em automóveis; nas indústrias do aço, cerâmica e de vidro por causa de suas propriedades decorativas, como as substâncias fosforescentes. Os elementos também são utilizados como componentes de aparelhos eletrônicos, lâmpadas e em vários ramos da pesquisa. A pedra dos isqueiros, por exemplo, contém o cério, um composto dos elementos terras raras. Cinco bilhões de dólares anuais é o valor movimentado no mercado dos 17 elementos químicos individualizados. 

De acordo com estudos da agência norte-americana US Geological Survey, divulgado em novembro do ano passado, o Brasil detém a maior reserva de terras raras do mundo, sendo que Minas Gerais teria importante papel neste contexto, com a ocorrência em Araxá, no Alto Paranaíba e em Poços de Caldas, no sul do estado. Sendo que, em Araxá, na mina explorada pela CBMM para extração de nióbio. Não é nada comprovado, mas, segundo o engenheiro de minas e diretor da YKS Serviços, que presta consultoria ambiental e de sustentabilidade, Carlos Eduardo Orsini, existem excelentes perspectivas também no norte de Minas. A estimativa da US Geological Survey é de que haja, somente em Araxá, 450 milhões de toneladas de terras raras e 8,1 milhões de metal nelas contido. 

Mas a exploração destes elementos químicos ainda é muito pequena por aqui e nem existem dados mais concretos sobre a quantidade existente no território nacional. E é justamente para mapear as terras raras no Brasil que o governo federal, por meio da Diretoria de Geologia e Recursos Minerais (DGM), do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), sob a coordenação do Departamento de Recursos Minerais (Derem), executa em todo o país o projeto Avaliação do Potencial dos Minerais Estratégicos do Brasil. “O projeto prevê pesquisas para a identificação de novas áreas potenciais para ocorrência de vários minerais estratégicos, entre os quais, as terras raras, com foco no lítio, potássio e fosfato, e supre recomendação de Portaria Interministerial, de junho de 2010, que trata da implementação ou fortalecimento de programa de levantamento geológico detalhado, conjugado com o apoio à exploração mineral pelo setor privado”, explica o chefe do Departamento de Recursos Minerais da Companhia de Pesquisas de Recursos Minerais (CPMR), o Serviço Geológico do Brasil, Valdir Silveira. O projeto prevê, segundo ele, investimentos de 18,5 milhões de reais, dos quais, 2,35 já foram aplicados este ano. O projeto deverá ser concluído em três anos.


“Separar as terras raras em cada um dos elementos agrega bastante valor, mas custa muito caro” Fernando Landgraf
“Separar as terras raras em cada um dos elementos agrega bastante valor, mas custa muito caro” Fernando Landgraf

Mesmo sem resultados concretos sobre a ocorrência de terras raras no Brasil, elas já despertam a atenção de algumas empresas. A WHPos Estratégias Ambientais, de Belo Horizonte, está desenvolvendo projeto de viabilidade econômica para a exploração dos minerais em todo o Brasil. “Estamos buscando fontes de terras raras e uma delas é em área de rejeitos de mineração”, informa o presidente da empresa, o químico Willer Pós. “As terras raras são o grande negócio da mineração, na atualidade”, defende. Talvez esta afirmação esteja embasada na supervalorização do preço de um dos 17 elementos das terras raras, o neodímio metálico. Em janeiro de 2009, o quilo era cotado na Ásia a 15 dólares e, em março de 2011, a 200 dólares. Mas, os preços bem mais elevados dos elementos das terras raras não são garantias de que a exploração seja rentável. “É preciso verificar se a concentração é economicamente viável, ou seja, se a operação de separar o mineral que contém as terras raras dos minerais restantes é válida economicamente”, ressalta Landgraf. “Separar as terras raras em cada um dos elementos agrega bastante valor, mas exige tecnologia química especial, resinas importadas. Enfim, custa muito caro. Vale a pena?”, questiona o professor da USP. 

O consumo mundial de terras raras é superior a 150 mil toneladas por ano. Parece mesmo que Minas Gerais, apesar da falta de dados concretos, tem ou terá papel relevante na questão das terras raras. A YKS Serviços também está estudando o assunto procurando, inclusive, parcerias internacionais para evoluir em pesquisas e estudos, priorizando os que tenham interesse ambiental. “Trabalhar com terras raras significará sustentabilidade técnica para inúmeras aplicações industriais”, justifica 

Orsini. Ele aposta que os elementos das terras raras farão parte da futura metalurgia do carbono, na produção de ligas leves e resistentes para as mais variadas aplicações, que evoluirão para um composto baseado na combinação com o minério de ferro, substituindo-o gradativamente ao longo dos próximos 50 anos. Considerados estratégicos, os minerais denominados terras raras, bem como o lítio, urânio, tório, grafita e potássio, vêm recebendo atenção especial por parte do governo federal, segundo Valdir Silveira. “São políticas da Secretaria de Geologia, Mineração e Recursos Minerais, o que se traduz em um grande incentivo para novas pesquisas, com o principal objetivo de ampliar a capacidade produtiva de terras raras no Brasil. Considerando os elevados preços destes minerais no mercado internacional, a busca por depósitos economicamente viáveis no Brasil está em franca ascensão.”

Atualmente, a China detém 35% das reservas e responde por 97% da produção mundial, com 125 mil toneladas por ano e projeção de crescimento de 5% a 10% anualmente. Logo depois vem a Índia, com 2,7 mil toneladas. “Apesar de ter uma produção residual de 1,5 mil toneladas no ano passado, o Brasil é o terceiro maior produtor mundial, porém com capacidade de aumentar nos próximos anos com as novas pesquisas em andamento”, aponta o chefe do departamento de Recursos Minerais do Serviço Geológico do Brasil. Segundo Valdir Silveira, no passado a CPRM executou projeto de pesquisa denominado Serra do Repartimento, em Roraima. “Esta área, atualmente, é um prospecto que deve ser objeto de processo de licitação para ser repassado à iniciativa privada”. Fernando Landgraf lembra que nas décadas de 1980 e 1990 o Brasil investiu na exploração da cadeia das terras raras, mas deu de cara com os baixíssimos preços dos produtos chineses no mercado mundial e não resistiu. Sem citar nome, ele recorda que um tradicional fabricante brasileiro investiu na produção dos superímãs de terras raras, mas sucumbiu à abertura dos mercados, no início dos anos 90. “As equipes que trabalharam com esse tema em dezenas de grupos de pesquisa brasileiros estão praticamente desfeitas. É possível retomar o projeto, mas é necessário um plano de mais longo prazo, resistente às intempéries do mercado e das estratégias de outras nações. É hora de agir, mas de maneira consistente”, recomenda Landgraf.

A exploração de terras raras no Brasil, que importa 7 milhões de dólares destes compostos seria muito vantajosa para o país. No entanto, uma das grandes preocupações refere-se aos problemas ambientais que podem ser criados. Para se extrair as terras raras são utilizados produtos químicos altamente tóxicos e nocivos ao meio ambiente. Além disto, a extração gera lama tóxica como resíduo. O problema é que os elementos das terras raras ficam dispersos nas rochas, o que dificulta sua extração, concentração e purificação. Mas, segundo o chefe do departamento de Recursos Minerais do Serviço Geológico do Brasil, os órgãos ambientais estão acompanhando a mineração. “Sendo bem-feita e organizada, ela pode ser até mesmo um grande parceiro na preservação do meio ambiente, já que na mineração moderna não cabe mais o empresário poluidor, sem compromisso com questões sociais e ambientais. Isso já ficou para trás. Não temos outra alternativa, senão explorar as terras raras de forma racional, seguindo padrões sustentáveis, respeitando o meio ambiente, agregando valor ao produto para a geração de emprego e renda e avanço tecnológico para nossa sociedade”, conclui Valdir Silveira.

Terras raras

As terras raras são constituídas de 17 elementos químicos muito parecidos, mas que se diferem quanto ao número de elétrons em uma camada da eletrosfera do átomo. São usados em produtos de alta tecnologia, como os ímãs, que transformam energia elétrica em energia mecânica e em produtos high tech como notebooks, telefones celulares, trens-bala, iPods, fibras óticas e painéis solares.

Elementos que compõem as terras raras

  • Lantânio
  • Cério
  • Praseodímio
  • Neodímio
  • Promécio
  • Samário
  • Európio
  • Gadolínio
  • Térbio
  • Disprósio
  • Hólmio
  • Érbio
  • Túlio
  • Itérbio
  • Lutécio
  • Escândio
  • Ítrio

Fonte: Wikipédia

Ocorrência de terras raras no Brasil

Catalão (GO); Araxá e Poços de Caldas (MG); Pitinga e Sete Lagos (AM); Repartimento (RR), além de várias ocorrências no litoral brasileiro, onde são mineradas as areias monazíticas.


 
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