Quarta, 23 de Maio de 2012
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Comportamento

Ter, ter, ter ...

Não há problema algum em acumular bens materiais, a não ser quando este desejo passa a ser voraz, inconsequente, alimentado por uma ganância desmedida

Texto: Daniele Hostalácio | Fotos: Fotos: SXC / Daniel de Cerqueira / Robson Regato - Fotomontagem: Luciano Cabral


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Integrante do rol das obras clássicas da literatura mundial de todos os tempos, Macbeth, de Willian Shaskespeare, é o espelho de uma das mais nefastas características do ser humano: a ganância desmedida. Na obra, o escritor cria a figura de um general inglês e de sua esposa, que decidem matar o rei da Inglaterra para assumir o poder, lançando mão, para isso, de intrigas, jogos espúrios e assassinatos. O típico perfil do ganancioso, uma pessoa sem escrúpulos, disposta a passar por cima de tudo e de todos para conquistar poder e bens materiais. Mas, afinal, o que é esse sentimento, a ganância, que move diversas pessoas na atualidade e que semeia tantos problemas onde impera? Como cada um de nós pode frear dentro de si atitudes gananciosas extremas?


“Em psicanálise, ganância é um sentimento humano que se caracteriza por uma necessidade concreta, incontrolável de ter. Uma ambição desmedida, por poder, dinheiro, coisas materiais. Um sentimento voraz de querer sempre mais e mais, nunca estando satisfeito”, explica a psicanalista Eliana de Moura Monteiro Vergara, integrante do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais. Trata-se, portanto, de um sentimento destrutivo e que, segundo a psicóloga e psicanalista Giselle Groeninga, especialista na área de família, tem sua origem na voracidade. “O desejo é o que move a vida. É da sua característica nunca ser totalmente satisfeito: ele implica necessariamente frustração.” Uma baixa tolerância à frustração pode implicar a intensificação do desejo – e aí ele se transforma em voracidade, “quando se quer mais do que se necessita e do que o outro está disposto a dar”, completa Giselle.


Rodrigo Ventre: “Por trás do ímpeto do poder está o medo”
Rodrigo Ventre: “Por trás do ímpeto do poder está o medo”

O componente destrutivo estaria, justamente, no fato de que o ganancioso não leva em consideração as outras pessoas. A voracidade está associada ao sentimento da inveja, não necessariamente consciente, mas com alto grau de destrutividade – ela implica um nível de desenvolvimento mental em que não há, ainda, a consideração pelo outro e a empatia. E a ganância é a voracidade no nível dos bens materiais. “Somos seres de trocas, emocionais e materiais. Quando há dificuldades nas trocas emocionais, as materiais podem subir para um primeiro plano”, explica Giselle.


Por tudo isso, o perfil do ganancioso típico é de um sujeito narcísico, vaidoso e onipotente. Seus limites são autorreferenciais – para conseguir seus objetivos, ele passa por cima das regras, das leis. É uma pessoa voltada para si própria – para ela, o outro não importa como sujeito. Embora avesso aos limites e às leis, o ganancioso inescrupuloso não é um tipo psicopata. “O ganancioso tem um desvio, uma deturpação da lei, mas ele se insere na cultura, ele faz laços. Na psicopatia,ao contrário, não há conflito, não há angústia. E o psicopata não faz laço social, não possui afeto”, esclarece Eliana Vergara.

João Batista Oliveira: divórcio e ganância
João Batista Oliveira: divórcio e ganância

Em situações de perdas, a voracidade, travestida de ganância, pode aparecer como uma tentativa de compensação. É o que se evidencia nos casos de separação, divórcio ou dissolução de união estável. “Os bens materiais aparecem como mais importantes e o nível de consideração do outro e do que é justo e possível, em termos de partilha e/ou pensão, encontra-se prejudicado”, diz Giselle, que é diretora do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM Nacional). Não por acaso, a Vara de Família e Sucessões, onde são discutidas separações e partilha de bens fruto de heranças, é um palco onde a ganância muitas vezes se revela, sem máscaras. “Na maioria das separações e divórcios, a ganância se faz sempre presente, não necessariamente no sentido do ganho econômico, mas no sentido simples de ganhar, vencer o outro que lhe provocou dor”, observa o advogado João Batista Oliveira Cân­dido, professor de Direito de Família na Fumec e na PUC Minas, e também diretor do IBDFAM Nacional.

 

Na sua prática profissional, João Batista já assistiu a vários processos judiciários em que a ganância representou papel determinante. Não só em separações, mas também nos inventários e nas ações de reconhecimento de paternidade – quase sempre voltadas para o patrimônio, e não para identidade genética ou afetiva. São filhos que mal podem esperar a morte dos pais, já brigando pela herança; filhos que querem interditar os pais, ou porque estes querem se casar novamente, ou porque veem aí a possibilidade de administrar os bens paternos; irmãos que se digladiam na briga pela herança ou, na eventualidade do reconhecimento de investigação de paternidade, que não a querem ver reconhecida, para não diminuir a divisão pelos bens da herança; filhos que se sentiram menos amados ou por inveja dos supostamente mais amados, querem obter ganhos na divisão patrimonial. “Há um sem-número de situações dessa natureza, provocados pela ganância”, exemplifica.

 

Eliana Vergara: “Sentimento voraz de querer sempre mais”
Eliana Vergara: “Sentimento voraz de querer sempre mais”

Mas, os indivíduos não estão sozinhos quando se trata deste sentimento. Em certa medida, avaliam alguns, o sistema capitalista contribui para formar uma horda de gananciosos. Um dos mais importantes teóricos e defensores do neoliberalismo, o economista Milton Friedman, autor do livro Capitalismo e Liberdade, e Prêmio Nobel de Economia, em 1976, questionou, certa vez, um jornalista, durante entrevista. “Existe alguma sociedade que você conhece que não seja movida pela ganância?” E seus efeitos nefastos encontram vários exemplos históricos, desde a desigualdade social que marca várias sociedades contemporâneas como a última crise econômica mundial. No discurso no qual anunciou medidas econômicas para conter o colapso financeiro nos Estados Unidos, o presidente Barak Obama criticou o que chamou de “a ganância de grandes empresas e dos investidores de Wall Street.”

Professor do Departamento de Ciências Econômicas da UFMG, o economista e doutor em Filosofia, Hugo da Gama Cerqueira, destaca o fato de que o funcionamento das economias capitalistas impõe como objetivo, para cada unidade produtiva, a acumulação indefinida de capitais. “É da natureza dessas economias que o crescimento e a acumulação de riquezas venham acompanhados da miséria e da distribuição desigual dos frutos do progresso”, destaca.

Giselle Groeninga: sentimento destrutivo
Giselle Groeninga: sentimento destrutivo

E este é um dos problemas de uma socieda­de que se pauta pela ganância sem limites: os valores éticos e morais são deturpados. Nossa sociedade capitalista estimula, valoriza e vende cada vez mais a ideia de que ser é ter: poder, dinheiro, coisas materiais. O que importa é o lucro. “Para agir dessa forma, o sujeito tem de funcionar aprisionado na forma regressiva, em que a relação com o outro se baseia na capacidade de ele fornecer prazer – baseia-se na ganância”, diz Eliana Vergara. Num cenário como esse, observa a psicanalista, o ganancioso não percebe sua inadequação, já que ele opera como a sociedade. “Daí a importância do limite e da lei para desenvolver na criança a noção de alteridade”, indica.
O consultor e diretor da Vitadenarium Con­sultoria, Rodrigo Ventre, que dá cursos sobre o lidar consciente com o dinheiro e planejamento financeiro, entre outros, lembra que não há nenhum problema em ter ou possuir coisas materiais. O problema é quando isso se torna mais importante do que ser. Na avaliação de Ventre, na base do sentimento de ganância está o medo. Um medo muito comum em relação ao dinheiro é a falta. A pessoa pode se tornar gananciosa pelo medo de, no futuro, o dinheiro vir a faltar. “Há também aqueles gananciosos que se preocupam muito com o status. Mas, por trás do ímpeto pelo poder, está também o medo: são pessoas que apresentam muita insegurança, que têm uma questão com a autoestima”, completa.


Do ponto de vista racional, avalia Ventre, a pessoa começa a acumular cada vez mais, para não sofrer com a falta ou em busca de reconhecimento. Do ponto de vista emocional, isso se torna um círculo vicioso, porque quanto mais a pessoa tem – dinheiro e outros bens materiais –, mais ela tem medo de perdê-los. A maioria dos clientes de Ventre são pessoas na faixa dos 50 anos de idade. “Trata-se de um momento da vida em que os balanços são muito comuns. A pessoa se dá conta de que está trabalhando muito, acumulando para ter tranquilidade no futuro, mas enquanto isso a vida está passando”, diz. Para fugir dessa cilada, observa ele, as pessoas devem se questionar sobre o que é, de fato, valor para elas. Isso significa romper com a pressão da sociedade, que prega consumismo exacerbado, a pressão da família, dos amigos. O importante é encontrar o equilíbrio, e entender que as comodidades materiais são benéficas e práticas e não representam problema. “A questão é quando elas criam sentimentos de ganância, competição e algum tipo de insatisfação duradoura, que nos faz querer cada vez mais”, como disse Dalai Lama no livro Iluminando o Caminho – Nossa busca da felicidade. Para os gananciosos típicos, no entanto, só mesmo um duradouro tempo de divã.

Frases

“Quem ama o dinheiro jamais terá o suficiente; quem ama as riquezas jamais ficará satisfeito com os seus rendimentos”
(Textos cristãos)


“Cuidado! Fiquem de sobreaviso contra todo tipo de ganância; a vida de um homem não consiste na quantidade dos seus bens”
(Textos cristãos)


“A ganância é insaciável”
(Tales de Mileto)


“A ganância insaciável é um dos tristes fenômenos que apressam a autodestruição do homem”
(Textos judaicos)


“O perigo constante é abrir a porta para a ganância, um de nossos inimigos mais incansáveis. É aí que se deve pôr em prática o verdadeiro trabalho da mente”
(Dalai Lama)


“A ganância do ter não só engoliu o ser e a convivência pacífica, mas até privou a maior parte dos homens do ter indispensável, para acumular nas mãos de uns poucos o que a todos pertence”
(Textos cristãos)


“A concórdia é o melhor, apesar de o ser humano, por natureza, ser propenso à ganância”
(Textos islâmicos)


“Aquele que é ganancioso sempre está desejando” (Horácio)


“A Terra provê o bastante para satisfazer a necessidade de todos os homens, mas não a ganância de todos os homens”
(Mahatma Gandhi)


“Para a ganância, toda a natureza é insuficiente”
(Sêneca)


“A ganância é uma cova sem fundo, que esvazia a pessoa em um esforço infinito para satisfazer a necessidade, sem nunca alcançar satisfação”
(Erich Fromm)


 
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