Quarta, 23 de Maio de 2012
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Reportagem

Somos ateus, e daí?

Pessoas que não acreditam em nenhuma divindade costumam ser vítimas frequentes de preconceito e encontram em sites e blogs da internet uma maneira de expressar seus pensamentos

Texto: Elisângela Orlando | Fotos: Robson Regato, Andre Dias e Daniel de Cerqueira / Arte: Paulo Wener


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Eles fazem parte de uma minoria e, como tal, constantemente são alvos de discriminação. Não em razão da cor da pele ou por causa do saldo de suas contas bancárias. Num país predominantemente religioso como o Brasil – segundo o IBGE, somente católicos e protestantes representam cerca de 89,2% dos brasileiros – eles são exceção por não crerem em nenhum tipo de divindade. Pesquisas recentes apontam que o número de ateus no país hoje gira em torno de 2,7 milhões de pessoas ou 1,4% da população. Para combater o preconceito do qual são vítimas, muitos descrentes encontraram nos fóruns, sites e blogs da internet um jeito para se fortalecerem e expressarem seus pensamentos sem correrem o risco de cerceamento.

 

A questão é controversa e esbarra no artigo 6º da Constituição brasileira, que assegura a liberdade de consciência e de crença a todas as pessoas. Essa definição, porém, também inclui a liberdade de não crer. Mas não é incomum encontrar no Brasil quem associe o descrente a alguém que não possui princípios éticos e morais, o que explica, em parte, a discriminação que essa parcela da população sofre.


“Tudo se passa como se o ateu, por não acreditar em Deus, fosse um sujeito carente de ética, sem freio e sem lei, capaz dos atos mais bárbaros. Na verdade, estas são concepções preconceituosas, pois é perfeitamente possível um ateu seguir uma ética de vida, inspirada por princípios naturalistas ou de respeito ao outro ser humano”, afirma o doutor em filosofia e professor do programa de pós-graduação em sociologia e direito da Universidade Federal Fluminense, Maurício Vieira Martins. 


André Díspore: debates sobre moral e livre-arbítrio
André Díspore: debates sobre moral e livre-arbítrio

A internet tem sido ferramenta importante para ateus na luta contra essa visão deturpada. O escritor e estudante de letras André Díspore Cancian, 27, é responsável pelo site ateus.net. Segundo ele, o espaço virtual surgiu casualmente, conforme publicava textos e traduções de artigos que discutiam o assunto. Entretanto, com o passar dos anos, o conteúdo se tornou bastante vasto. Hoje, o site possui algumas centenas de membros cadastrados. “Os debates mais comuns são sobre questões filosóficas clássicas como moral, livre-arbítrio e, é claro, religião. O propósito é funcionar como fonte de recursos sobre o assunto e ser ponto de referência para pesquisas.”


Um usuário assíduo desse tipo de ferramenta é o engenheiro Fernando Silva, 55. Ele, que foi católico até os 42 anos, participa hoje de três sites sobre o tema na rede mundial de computadores: Ateus do Brasil, Clube Cético e Religião É Veneno. O engenheiro frisa que a internet foi importante para que ele descobrisse que não era o único ateu do mundo. “Consegui encontrar pessoas que pensavam como eu para trocar ideias”, conta. E acrescenta: “Muitas vezes, temos que refutar argumentos de religiosos escandalizados que aparecem para nos dizer que vamos para o inferno.” 


Outro espaço de debates dos ateus é o site da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea), que hoje possui cerca de 450 pessoas cadastradas. O presidente da Atea, o engenheiro Daniel Sottomaior, 37, assinala que o site tem múltiplas finalidades. “O fórum serve como ponto de encontro dos membros. Também é uma fonte de informação e notícias para os visitantes, a fim de ajudar a alcançar os objetivos da associação, como por exemplo, acabar com o preconceito contra os ateus.”


Sottomaior diz que, pessoalmente, nunca foi vítima de preconceito por ser ateu. O engenheiro ressalta, porém, que o site recebe inúmeros relatos de pessoas que foram vítimas de discriminação por esse motivo e que algumas, inclusive, chegaram a perder o emprego por este motivo. A professora da faculdade de letras da UFMG, Vera Menezes, 60, é ateia convicta e sabe bem o que é ser discriminada em razão de sua postura perante a religião. Ela afirma que não é alvo de preconceito, mas de um constante assédio moral. “Pessoas que sabem que sou ateia me convidam para cultos ou me enviam mensagens religiosas por e-mail. Isso é bastante desagradável.”

Vera Menezes: “Não podia acreditar em um Deus vingativo”
Vera Menezes: “Não podia acreditar em um Deus vingativo”

Um episódio, porém, ficou marcado na lembrança de Vera. A professora tinha acabado de perder o filho e, durante o velório, uma pessoa católica se aproximou dela para dizer que talvez aquela perda tivesse ocorrido para que ela aprendesse a ter fé. “Isso foi a coisa mais cruel que me aconteceu e impressionou mal até a outros católicos que convivem comi­go. Eu reagi dizendo que não podia acreditar que existisse um Deus com tanto poder vingativo.”


A repulsa pelos descrentes é comprovada por meio de pesquisas. Em 2008, a Fundação Perseu Abramo perguntou a 2.014 pessoas acima de 15 anos, em todas as classes sociais, o que elas sentiam normalmente ao ver ou encontrar desconhecidos de diferentes grupos de pessoas. O resultado foi o seguinte: empatados com usuários de drogas, os ateus estão em primeiro lugar no quesito re­pul­sa/ódio, sentimento despertado em 17% dos entrevistados. O segundo lugar é o de garotos de programa, com apenas 10%. Os ateus também estão em primeiro lugar na categoria antipatia (25%).


Outros levantamentos também apontam a discriminação sofrida pelos adeptos do ateísmo não só no Brasil. Por exemplo, para medir índices de rejeição, há décadas o instituto Gallup vem perguntando aos norte-americanos se eles votariam para presidente em um indivíduo no geral bem qualificado e indicado pelo partido de sua preferência, caso ele fosse judeu, negro, mulher etc. Os ateus têm hoje o maior índice de de rejeição (53% não votariam em um ateu), bem à frente do segundo colocado (43% não votariam em um homossexual). Já a pesquisa encomendada pela revista Veja ao CNT/Sensus descobriu que 84% dos brasileiros votariam em um negro para presidente da República, 57% dariam o voto a uma mulher, 32% aceitariam votar em um homossexual, mas apenas 13% votariam em um candidato ateu.


“Não podemos esquecer que o Brasil foi colonizado por cristãos e isso influenciou a história da formação do povo brasileiro. O que não nega também a existência de outras tradições religiosas que se manifestavam de forma mais privativa até a República, quando também se proclama a liberdade religiosa”, salienta a professora de cultura religiosa da PUC Minas de Poços de Caldas e doutoranda em ciências da religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Giseli do Prado Siqueira.


Para o sociólogo Ricardo Falcão, em sua origem, o ateísmo é uma coisa boa porque faz um alerta sobre a incoerência existente entre o discurso e a prática das instituições religiosas. A essência do ateísmo é a razão, o que explica a existência de muitos ateus no meio acadêmico, conforme o sociólogo. Entretanto, ele afirma que o grande problema é quando a razão assume o lugar da própria prática religiosa e também se torna uma espécie de deus. “Essa racionalidade exacerbada pode levar ao mesmo engodo de uma instituição religiosa.”

Daniel Sottomaior: “Acabar com o preconceito contra ateus”
Daniel Sottomaior: “Acabar com o preconceito contra ateus”

Saiba mais

O que prega o ateísmo? E o agnosticismo?
Ao contrário das religiões organizadas, o ateísmo não possui textos sagrados ou hierarquia. O ateísmo não é e nem possui uma doutrina e, portanto, a única coisa que todos os ateus têm em comum é a ausência de crença em deuses. Já o agnosticismo defende a impossibilidade de se provar a existência ou não de Deus, ou seja, duvida da existência de Deus.

Todo ateu é antirreligioso?
Não. Há ateus que veem a religiosidade positivamente, outros a entendem como uma posição inofensiva, e há aqueles que veem a religião como um mal. Não há dados confiáveis para saber qual a proporção de cada um.

É possível ser ateu e religioso?
Sim. O jainismo e algumas formas de budismo, por exemplo, não incluem o teísmo entre seus princípios.


 
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