No dia 17 de março deste ano, o deputado e estilista Clodovil Hernandes morreu vítima de um acidente vascular cerebral (AVC). Dias antes, ele havia passado por forte emoção, quando foi absolvido da acusação de infidelidade partidária. Terá sido uma infeliz coincidência? Ou ele não estava se cuidando bem? Afinal, em junho de 2007, Clodovil já havia sofrido um AVC de leve intensidade, causado pela pressão arterial elevada. Mesmo tendo fatores de risco para o AVC, o caso levanta a velha polêmica de quanto o emocional pode contribuir para o desenvolvimento de uma doença.
O neurologista Paulo Caramelli, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), afirma que ainda não são definitivos os estudos que relacionam aspectos psicológicos ou emocionais ao AVC. “Mas há estudos associando depressão ao acidente vascular cerebral”, garante. Segundo ele, é provável que pessoas deprimidas ou com problemas emocionais, que eventualmente tenham pressão alta e diabetes, não controlem esses fatores de risco e fiquem, assim, mais sujeitas a ter um AVC. “Apesar de ainda não haver comprovação científica, pode-se associar o emocional ao AVC. Quando alguém passa por uma situação de estresse, pode ocorrer taquicardia e, às vezes, o aumento da pressão arterial. Os picos de hipertensão podem desencadear um AVC. Mas isso quando a pessoa já apresenta outros fatores de risco”, esclarece.
O caso da bancária aposentada Márcia Domingues de Albuquerque, 47 anos, revela quanto o emocional pode ajudar a desencadear um AVC. Há 11 anos, foi pega de surpresa por um AVC isquêmico. E põe surpresa nisto: ela garante que não tinha nenhum fator de risco, não fumava, não bebia e não usava anticoncepcional. A causa? “Um estresse emocional muito grande. O banco onde eu trabalhava foi vendido duas vezes, fui mudada de setor e fiquei responsável pelas chaves da agência e do cofre. Ia embora do banco com as chaves à noite, com muito medo. Também havia me separado há pouco tempo. Foram seis meses de mudanças muito radicais na minha vida, e não consegui assimilar tudo. Sentia muita dor de cabeça. Fiquei quase 60 dias internada”, conta. Como consequência, Márcia perdeu parte do campo visual e algumas lembranças: não consegue mais memorizar datas, nomes e lugares, toma comprimido anticoagulante diariamente e teve de se aposentar por invalidez. Também faz controle com neurologista, hematologista e oftalmologista.
O médico de Márcia, o neurocirurgião Henrique Barros, diz que o fator emocional pode piorar qualquer doença e até precipitar um AVC. “Mas, no caso da Márcia, existia um fator de risco que não era conhecido. Ela tem deficiência de proteína no sangue, que altera a sua coagulação e pode provocar uma trombose. Na verdade, o AVC foi consequência de um trombo nos seios do cérebro”, explica. “Mas distúrbios emocionais e ansiedade são fatores agravantes de doenças”, acrescenta.
A presidente da Sociedade Mineira de Neurologia, Elizabeth Comini Frota, também destaca que, até o momento, não há nada que comprove a relação entre o psicológico e o AVC. “Entretanto, na prática, a gente vê que o fator emocional tem influência muito grande para desencadear processos patológicos no organismo, mas de forma indireta”, afirma.
Para saber se existe fator de risco, só mesmo consultando um bom especialista. A prevenção pode ser feita com um clínico geral, um cardiologista ou neurologista. Comer alimentos saudáveis, como peixes e fibras – e esquecer de vez os produtos gordurosos –, praticar exercícios físicos e controlar a tensão nervosa são as dicas do médico Aluízio Arantes, presidente do Departamento de Neurocirurgia da Associação Médica de Minas Gerais. “A melhor forma de prevenção é ter controle sobre os fatores de risco e saber que o emocional também pode afetá-los”, destaca o neurocirurgião. Fazer uma atividade prazerosa também ajuda muito, garante. Por via das dúvidas, prevenir continua sendo o melhor remédio.