Coruja, severa, permissiva, amiga, ausente, participativa... Vários são os tipos de mães. Há aquelas que impõem regras, horários e exigem obediência. Já outras preferem deixar os filhos mais livres e responsáveis por suas próprias escolhas. Algumas babam pela prole e asseguram que os seus são os melhores filhos do mundo. Para muitas, porém, os compromissos com trabalho, casa, marido são tantos que elas mal conseguem acompanhar o crescimento dos rebentos. São mães das mais variadas formas, mas um ponto é comum em todas elas: a dificuldade de encontrar a dose exata entre mimo e cuidado, entre rigidez e liberdade, amizade e respeito. Ainda não inventaram uma fórmula secreta. Não há receita. Mas existem sim alguns ingredientes que sinalizam se o resultado está fadado ao fracasso ou sucesso. Para ajudar as mães nessa difícil tarefa, recorremos à ajuda de alguns especialistas no assunto, psicólogos, pedagogos, educadores, estudiosos e escritores. Eles dão algumas dicas que podem ajudar nessa difícil, mas não impossível missão de ser mãe!
E põe difícil nisso. Que o diga a supermãe Isabel Coimbra, 49 anos. Depois de ter criado as três filhas, Iara, 28, Iana, 24 e Isa, 22, a professora tinha a sensação de dever cumprido. Quando pensava ter chegado a hora de se dedicar à profissão, ao marido e a ela mesma, foi surpreendida pela novidade: aos 45 anos, estava grávida novamente. E mais: de gêmeas! Passado o susto, Isabel conta que retomar a maternidade foi bem mais difícil do que supunha. Sendo mãe de duas gerações totalmente distintas, ela percebe as mudanças. “Apesar de ter ganhado maturidade e experiência, às vezes me sinto mais insegura na criação das gêmeas do que das três mais velhas”, admite Isabel.
Para a psicóloga Lídia Weber o que ocorre nesses casos é que não existe manual para comportamento geral de nada. “Cada ser humano é único, cada família tem seus valores, princípios e seu modo de encarar o mundo.” Autora de mais de 10 livros sobre o assunto, entre eles Eduque com Carinho: Equilíbrio entre Amor e Limites, a especialista diz que a família pode ser tanto um fator de proteção, quanto um fator de risco (ver quadro ao abaixo). “É preciso buscar um equilíbrio, pois, os comportamentos dos pais têm influência direta no desenvolvimento dos filhos.”
A opinião é compartilhada pela psicóloga Suzana Veloso Cabral. Segundo, ela, as mudanças na estrutura da família e a redefinição dos papéis provocam certa confusão. “Antigamente a figura da mãe era muito bem definida. Ela sabia o que tinha que ser feito.” Hoje com tantas mudanças na sociedade, mães e pais em geral estão meio perdidos em seus papéis. “Eles não conseguem encontrar um equilíbrio entre rigidez e liberdade. Por isso, há mães flexíveis demais, enquanto outras são severas em excesso”, afirma Suzana.
Elaine Pereira, 40 anos, parece se enquadrar no segundo caso. Ela admite que preferiu adotar a educação mais rígida na criação dos filhos. “Se deixar, filho manda na gente. É preciso ter pulso firme.” Helena, 19, Ian, 17 e Luciana, 16 dizem que Elaine não tem a menor dificuldade em falar não. “Ela tem resistência em falar sim”, brincam. Apesar da linha dura, eles aprovam a criação e elogiam a mãe. “Ela é amiga, participativa e é a nossa maior incentivadora. Apoia tudo que fazemos”, defende Ian.
Já a filha mais velha, Helena, faz algumas ressalvas. Ela reclama da interferência em seus relacionamentos. Segundo ela, teve que terminar um namoro por causa da reprovação dos pais. “Não trago namorado em casa nunca mais”, afirma. Elaine diz que futuramente Helena entenderá que ela só quer o seu bem. Porém a psicanalista Graciela Bessa alerta que nem sempre as mães devem poupar os filhos das frustrações da vida, até mesmo as amorosas. Os filhos têm que aprender a lidar com decepções. “Muitas mães têm dificuldade em ver que o filho cresceu e querem protegê-lo de todas as coisas que podem fazê-lo sofrer.” Para a psicanalista, outro ponto fundamental é que a mulher perceba que não pode ser somente mãe, tem que ser mulher, amante e profissional. “É muito comum elas voltarem-se exclusivamente para o filho e acabar esquecendo-se delas mesmas e do marido. Não se pode deixar de ser mulher para tornar-se mãe”, pondera.
Sinara Macedo Vieira Martins, 40, sabe o que é isso. Mãe da única filha Bárbara Macedo Martins, 18 anos, ela lembra que quando a menina era mais nova todas as atenções eram só para ela. “Cheguei a reclamar com meu marido quando vi que as coisas não iam bem.” Com o tempo, Sinara diz que isso mudou e que mesmo Bárbara sendo filha única, ela tenta não exagerar nos mimos e proteção à menina. Os filhos únicos, por sinal, são alvo de polêmica. Alguns especialistas acreditam que as mães tendem a ser superprotetoras nestes casos. Segundo a psicóloga Suzana Cabral isso não é regra e pode ser resolvido com a convivência frequente com primos, amigos e vizinhos. A menina Bárbara não teve convivência tão intensa com familiares, mas garante que as amigas sempre foram presentes em sua casa. “Minha mãe é zelosa, mas não superprotetora”, garante ela, que diz ter na mãe a sua melhor amiga. “Conto tudo para ela.” Relação esta questionada pelos especialistas. “Pais até podem ser amigos, mas antes de tudo devem ser pais e isso implica também colocar regras e limites e mostrar responsabilidade,” alerta Lídia Weber.
Outra mãe que se declara amiga das filhas é a cantora Baby do Brasil. Ela criou seis filhos e admite: “Hoje vejo que poderia ter feito melhor.” Baby confessa que foi uma mãe bastante permissiva, dava muita liberdade aos filhos e tinha dificuldade em dizer não. Para Suzana Cabral, alguns pais de hoje são os jovens revolucionários e libertários da década de 60, que lutaram contra a repressão. “Muitos querem dar a liberdade pregada por eles próprios, mas acabam dando em excesso”, analisa.
Apesar de confirmar que Baby era realmente uma mãe permissiva, o filho Krishna Baby diz que o excesso de liberdade não foi prejudicial. Questionado sobre a ausência materna devido à rotina intensa de shows e turnês, ele defende a mãe. “Se ela não podia estar fisicamente, estava presente em uma cartinha, um bilhete, um recado. E nunca faltou nos momentos em que precisávamos dela.” Segundo a psicóloga Lídia Weber, quando não há a possibilidade de maior contato físico, a mensagem que se deve passar é a disponibilidade psicológica e emocional, o carinho e afeto e as regras morais, que são as lembranças que os filhos levam vida afora.