Para que as relações na sociedade, das mais complexas às mais simples, ocorram regularmente, dois valores são fundamentais: confiança e credibilidade. Quando alguém faz a assinatura de um jornal, imagina-se que o jornaleiro irá fazer a entrega diariamente. Enfim, confia-se no jornaleiro. Quando se vai comprar o pão na padaria, imagina-se que ele foi feito com ingredientes adequados e com as melhores práticas de higiene. Enfim, confia-se no padeiro. Quando se deixa o carro no estacionamento, imagina-se que o responsável não irá dar uma volta ou entregar a chave para que outra pessoa possa usá-lo. Enfim, confia-se no responsável pelo estacionamento. Muitos exemplos poderiam ser apontados mostrando que no dia-a-dia, sempre confiamos e damos crédito às pessoas com as quais nos relacionamos.
Certamente, não confiamos apenas porque queremos bem àquelas pessoas, na maioria das vezes nem as conhecemos, mas para o nosso próprio interesse. Certa feita, Adam Smith observou que, quando alguém vai ao açougue, espera ser bem servido e receber a melhor parte da carne e o açougueiro quer servi-lo bem e fornecer-lhe o que tem de melhor. Não porque eles se gostem mutuamente, mas porque ambos têm interesse próprio: o comprador quer o que há de melhor e o vendedor quer servir bem para ganhar o cliente e ter lucro.
Na base das transações de mercado está o interesse próprio, mas se não houver confiança e credibilidade as relações não serão duradouras. Tanto para as relações mais simples como para as mais complexas. Pois bem, o que ocorreu com a crise financeira: a quebra da confiança e da credibilidade. O que já vinha acontecendo há muito tempo. No caso do mercado de ações, no início desta década, várias empresas sofreram com decisões não transparentes de seus executivos para valorizar as ações de suas companhias e, em consequência, seus bônus (interesse próprio). Quem não se lembra dos casos da Enron e da WorldCon? Agora foram operações com derivativos, sofisticadas, mas não transparentes, que deram ganhos a muitos executivos no mercado financeiro. Quem comprava ações daquelas companhias ou quem aplicou sua poupança com os Madoffs da vida buscava maiores ganhos (interesse próprio) e depositava confiança e crédito nos operadores. Viu-se rapidamente que não mereciam a confiança e o crédito. Comportamentos irresponsáveis, não transparentes e sem estarem submetidos a algum mecanismo de controle, colocaram a economia mundial em recessão. Pior ainda, geraram enormes perdas para muitos. Enfim, parece que vivemos nesse início de século uma crise ética. Confiança e credibilidade foram jogadas no lixo. Não é apenas falta de ética na crise, mas uma crise de ética.
Restabelecer o bom funcionamento do mercado, condição fundamental para o crescimento econômico e o desenvolvimento das nações, exige a restauração da confiança e da credibilidade. Medidas regulatórias são importantes e, certamente, serão tomadas. A supervisão e a regulação sobre o mercado financeiro serão maiores como já são sobre o de capitais com a promulgação da Lei Sarbanes-Oxley nos EUA. Mas isso não é tudo. Torna-se urgente fazer da transparência, da responsabilidade e da prestação de contas elementos básicos e normais das relações nos mercados de capitais e financeiro. Torna-se urgente restabelecer a confiança e a credibilidade nas relações mais triviais da vida cotidiana. Para isso regulação e normas são necessárias. Educação e treinamento são essenciais. Mas, sobretudo, o exemplo das lideranças, quer no setor privado ou público, é que vai fazer a diferença.