A divulgação pelo IBGE das informações sobre o PIB per capita dos municípios brasileiros, em 2006, permite definir, com maior precisão, alguns aspectos da geografia econômica do país. Há centenas de municípios onde é marcante o crescimento econômico acelerado ao longo da última década. Eles se localizam nas áreas de expansão da fronteira agrícola e minerária do país, onde a prosperidade econômica é notável. Estão no centro-oeste do Mato Grosso, no sudeste do Pará, no oeste da Bahia etc. Nas macrorregiões Sul e Sudeste, houve um espraiamento da expansão econômica das capitais e das áreas metropolitanas, levando o progresso econômico para cidades de porte médio dos estados. A preocupação maior é com mais de 1.500 municípios que apresentaram um valor do PIB per capita inferior a 30 por cento do valor médio brasileiro. Na verdade, eles estão presentes, aglomerada ou isoladamente, em quase todas as unidades da Federação, até mesmo nas mais desenvolvidas: no Vale do Ribeira, em São Paulo, na metade sul do Rio Grande do Sul, no eixo central do Paraná. Entretanto, há um fenômeno que se destaca no espaço geográfico do Brasil: uma mancha quase contínua de subdesenvolvimento e de pobreza que se concentra no leste do Pará e do Tocantins, em quase todo o sertão e o agreste da macrorregião nordestina e, lamentavelmente, em quase 150 municípios no norte/nordeste/leste de Minas Gerais. São municípios que podem ser classificados como economicamente deprimidos.
As populações desses municípios, pobres e subdesenvolvidos, estão sobrevivendo à custa de transferências fiscais e de renda, que são extraídas a partir do excedente econômico gerado naqueles mais prósperos. Essas transferências se manifestam, em nível da renda das famílias, pela aposentadoria rural, pelo sistema da Lei Orgânica da Assistência Social (Loas) que atribui um salário mínimo para o idoso ou deficiente físico, pelo programa Bolsa-Família etc. E ao nível das finanças públicas municipais, pelas regras adotadas pelo Fundo de Participação dos Municípios (FPM), pela cota-parte livre do ICMS, pelos fundos especiais de saúde e da educação etc; centenas e centenas de municípios dependem em mais de 80% das transferências federais e estaduais na composição de suas receitas orçamentárias. Há um elemento comum nesses municípios economicamente deprimidos. Em quase todos, houve um modelo não sustentável de ocupação e de assentamento do seu território, uma destruição predatória do seu capital natural. Uma ilustração: segundo o Instituto Bioatlântica, onde havia uma exuberante mata atlântica, a bacia hidrográfica do Rio Doce é atualmente a mais degradada do Brasil, com 90% de sua área transformada em pastagens e capoeiras. Por volta de 1960, havia, em municípios da bacia, cerca de 200 serrarias processando as florestas naturais para suprir os mercados de carvão vegetal e de madeiras do país e do exterior. Nesta época, a produtividade da pecuária era de 5 a 6 cabeças por hectare, caindo hoje para menos de 0,7 cabeças por hectare. Em geral, houve queda abrupta na produtividade dos recursos naturais da bacia, um fator determinante de seus índices de pobreza e do êxodo do seu capital humano mais jovem e dinâmico.
O motivo principal, contudo, para a persistência das assimetrias espaciais está no baixo potencial endógeno dos municípios deprimidos. O processo de desenvolvimento de uma região ou município, que lhe permite superar os seus problemas sociais e mobilizar suas potencialidades econômicas, depende, em última instância, de sua capacidade endógena de organização social e política para modelar o seu próprio futuro, quando, na sociedade, se manifesta uma energia capaz de canalizar, de forma convergente, forças que estavam latentes ou dispersas.