O que esperar de um país onde dois membros, um deles presidente da Suprema Corte de Justiça, batem boca em público, com acusações e palavreado nada usual, onde o único sinal de civilidade era o formalíssimo tratamento mútuo de Excelência, que naquele momento soava tão falso quanto uma nota de 15 reais.
O que pensar sobre um país em que, escândalo após escândalo, descobre-se que nossos mitos têm pés-de-barros. Que nossos símbolos de seriedade na vida pública, como Fernando Gabeira, Luciana Genro e, até ele, Pedro Simon, se esbaldam com o dinheiro público e usam as mesmas desculpas de conhecidos aproveitadores, para justificarem seus erros.
O que pensar de um país onde um governo, que ascendeu ao poder com um discurso moralista, mostra-se mais atolado e conivente com a corrupção do que os antecessores que vivia denunciando. De um grupo político que se mostra mais preocupado com um projeto de poder que de governo e que, por isso, deixa de promover as mudanças necessárias, mesmo tendo todas as condições de promovê-las. O que esperar de um país onde o poder não consegue se impor sobre a corrupção, a desorganização administrativa, a violência.
Difícil manter uma expectativa de que algo pode mudar. Sinceramente, alguém, em sã consciência, espera punição para as denúncias de mau uso de dinheiro público no Congresso, com pagamento de passagens ao exterior de parentes e amigos de parlamentares. Com salários pagos a assessores que nunca vão ao Congresso Nacional, ou seja, Câmara Federal e Senado? Não, é certo que ninguém será punido. Como não foram punidos até agora os mensaleiros, cujo processo se arrasta no Supremo Tribunal Federal, sem horizonte para julgamento, graças a artimanhas de advogados que se aproveitam das brechas da lei que, aliás, são escritas por eles mesmos, mensageiros, usuários de passagens de avião pagas pelo contribuinte e de tantos outros benefícios escusos.
Duro aceitar que nem mesmo a punição das urnas, estes homens e mulheres, que privatizaram o erário público, sofrerão. A memória curta é de nossa tradição política. Nosso eleitor, diante das urnas, é incapaz de se lembrar dos nomes daqueles que se envolveram no escândalos, punindo-os, negando-lhes seu voto.
Basta ver quantos dos mensaleiros, apontados na denúncia da Procuradoria-Geral da República, foram reeleitos. Ganharam do povo um novo mandato ou, como gostam de afirmar alguns deles, “foram absolvidos pelas urnas”. Daquela turma toda, apenas José Dirceu e Roberto Jefferson foram cassados. Os demais permanecem por aí, mandando na República e colocando de cócoras o governo que disse, em 2002, que viria para mudar.
Enquanto permanecermos como somos, omissos e irresponsáveis ao ponto de nos vangloriarmos de não gostar de política, vamos ficar como estamos. Fingindo que nos assustamos. Fingindo que nos indignamos. De vez em quando, dando uma esbravejada contra a situação, apontando o dedo sujo da omissão para aqueles que, confiando na nossa alienação e na impunidade, continuam assaltando o país.