“Se a gente grande soubesse o que consegue a voz mansa.
Como ela cai feito prece e vira flor, num coração de criança...” (Billy Blanco)
Não é de hoje que adultos maltratam crianças e adolescentes, em todas as classes sociais e econômicas, em todas as raças e em diferentes religiões. A criança maltratada é aquela que sofre qualquer tipo de violência, seja física, emocional ou sexual. No abuso sexual, a criança é invadida por uma experiência cruel para a qual não possui nenhuma elaboração psíquica, ficando numa posição extremamente indefesa. Mas outras formas de abusos são silenciosas e produzem danos irreparáveis. O abuso emocional é mais difícil de ser identificado e abordado, pois na sua grande maioria é praticado por aqueles que, em tese, estão fazendo aquilo porque amam a criança, porque só querem o seu bem – o abuso dos pais, mães, avós e pessoas da família. São situações em que o adulto, por complexas motivações, não consegue distinguir entre dar limites e maltratar. Beliscões, tapas, puxões de orelha, castigos. Não se trata aqui de um momento em que não conseguimos dar à criança um tratamento adequado. Trata-se de uma maneira de funcionamento que sempre se repete e que diz respeito ao adulto que abusa de seu poder.
Recentemente o jornal Folha de S. Paulo trouxe amplo estudo, publicado no Reino Unido, encomendado pela Children’s Society, no qual foram ouvidos 35 mil crianças, pais, educadores e especialistas, sobre as ameaças à infância na atualidade. Dos vários pontos abordados, o que gerou mais polêmica diz respeito ao fato de que o relacionamento dos pais com a criança e entre o pai e a mãe impacta mais do que pensávamos no que é considerado uma boa infância. O adulto que usa de sua força e poder para machucar uma criança, física ou emocionalmente, desconhece outros meios de dar limites e de realmente educá-la. Geralmente possuem baixa-autoestima, foram tratados de maneira hostil quando pequenos, severamente exigidos ou abandonados, pouco ou nada compreendidos, têm história de abuso ou negligência na infância. O adulto agressor não faz o bom uso da palavra, da firmeza, dos recursos lúdicos, desconhece os efeitos que o respeito e a dignidade, em relação às crianças, podem resultar.
E o mais cruel é que esses adultos sequer entendem essas agressões como tal. Pelo contrário, eles as consideram até mesmo necessárias: “É de pequenino que se torce o pepino.” Nos abusos emocionais, a manipulação praticada utiliza o medo e a promessa de punição como aliados. Educar não pode ser isso. Segundo Bob Reitemeier, diretor da entidade que encomendou a pesquisa, “a educação para a vida tem que ser como uma piscina. Quando a criança entra, é na parte rasa, com ajuda. Mas o objetivo é ensiná-la a nadar, para ir sozinha para a parte funda.” Educar dá trabalho e exige disponibilidade psíquica, afetiva e amorosa. Se não existem receitas, a negligência, a permissividade ou o excesso de rigidez, que podem levar a abusos emocionais, não se constituem, absolutamente, recursos na formação de uma pessoa.