Sábado, 25 de Maio de 2013
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Conexão Empresarial IV

Palavras de peso

Desenvolvimento de Minas foi tema central das palestras em Tiradentes, a começar pela fala do governador Antonio Anastasia

Texto: Silvânia Arriel | Fotos: Tião Mourão


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As notícias boas se sucedem: o PIB, a produção industrial, as exportações, a agropecuária de Minas cresceram. Devem continuar, ir mais, esticar os números, impulsionados pelo consumo mundial, pela Copa de 2014. Teria tudo para seguir, correr nessa estrada larga, só que há notícia ruim: o estado está cercado pela estreiteza da infraestrutura, da mão de obra não tão especializada para acompanhar as passadas gigantes dos países asiáticos. Há muito a fazer, a debater. A 2ª edição ampliada do Conexão Empresarial, em Tiradentes, no Campo das Vertentes, no início de junho, entrou nessa discussão, rendeu, deu o que falar, com palestrantes de peso, plateia também. Passou de 320, em 2010, para 470 lideranças empresariais, políticas, formadores de opinião do estado, do país, que lotaram o auditório da pousada Pequena Tiradentes. Ouviram, viram números, debateram, buscaram ideias para colocar Minas, o país em trilhos velozes. Lapidar seus produtos, hoje tão brutos, in natura. Refazer-se, ficar de vez na era do desenvolvimento. Leia nas páginas seguintes o que foi dito nas palestras.


Quatro pilares

Minas nunca exportou tanto: foram 3,5 bilhões de dólares em maio. O café in natura e o minério de ferro puxaram os números para patamares nunca vistos antes por aqui. “Não devemos nos envergonhar disso, mas o sentimento das lideranças é que precisamos agregar valor aos nossos produtos. Fazê-lo não é tão fácil assim”, afirma o governador Antonio Anastasia. Aponta quatro questões, o para casa do estado: melhoria da infraestrutura, qualificação da mão de obra, investimento pesado em segurança desestabilizada pelas drogas e geração de empregos. Um arrasta o outro.

Não há como crescer sem energia, telecomunicações, estradas, portos, aeroportos. “O modelo de infraestrutura está obsoleta, temos deficiências. Ocorreu desabamento de ponte perto de Belo Horizonte, que liga dois estados.” Acredita que é preciso ousadia, a participação da iniciativa privada, da sociedade. “Se não superarmos essa questão, dificilmente teremos condições para atrair empresas ao estado.” Bem localizado, com água, mas que também carece de gente especializada, preparada para trabalhar.

“Houve uma queda abrupta da qualidade de ensino, com o processo de democratização, antes restrito à elite”, diz Anastasia. A carreira de professor perdeu atrativo. “Se não conseguirmos modificar essa situação, não vamos ter boa educação.” Vê a necessidade também de se investir em ensino profissionalizante, em segurança, o terceiro dever de casa, no combate às drogas, responsável por 80% dos homicídios e da maioria dos furtos, roubos. “Saímos de uma população carcerária de 5 mil para mais de 30 mil hoje. Gastamos por mês 2 mil reais com cada preso adulto e 6 mil com adolescentes.”

Cobra a sensibilização da sociedade, a participação do governo federal para fechar as fronteiras e impedir a entrada da cocaína, do crack, do oxi, droga nova mais devastadora do que as outras. Chega-se à geração de empregos, a quarta questão para fazer o estado avançar no desenvolvimento alicerçado. Estimular a vinda de empresas para cá. “Minas foi o que mais sofreu com a guerra fiscal. O Rio tinha condições de abrir mão do ICMS, aqui não.” Com o fim dessa batalha, apaziguada pelo Supremo Tribunal Federal, ele acredita que agora os estados vão competir com suas qualidades. “Há muito a fazer. Temos a Copa do Mundo aí como vitrine.”

Ameaça de fora

A balança de veículos pesa para o lado de fora do país. Em 2005, eram importados 5%, passaram para 21,7% em 2010 e devem chegar a 25% este ano. Se nada for feito, em 2020 serão 50%, prevê Cledorvino Belini, presidente da Fiat do Brasil e da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). “O país deixou de exportar e passou a importar.” As vendas para o exterior caíram de 31% em 2005 para 12% no ano passado.

Consequência da invasão de empresas asiáticas. “Elas chegam por dois caminhos: importação direta do veículo ou se estabelecem aqui, só fazem a montagem. Não é benéfico.” Não geram postos de trabalho e, com a valorização do real e a desvalorização de suas moedas, acabam colocando seus produtos à venda a preços mais baixos. “Vamos perder metade dos empregos”, afirma Belini. Acredita que esse é um problema que o governo terá de enfrentar mais cedo ou mais tarde. Até por ser o setor automobilístico responsável por 23% do PIB industrial e 5% do total, ter 200 mil empresas, gerar 1,5 bilhão de empregos.

Vê também carência de mão de obra especializada, a energia mais cara do mundo, para continuar nesse mercado mundial que crescia de 10% a 12% ao ano. Caiu na crise de 2008 de 73 milhões de unidades para 61 milhões, recuperou nos anos seguintes e deve chegar a 2015 com a produção de 93 milhões de veículos em todo o mundo. De radar ligado nessa velocidade crescente, ele anuncia que a Fiat vai investir 10 bilhões até 2014: 7 bilhões em Minas, 3 bilhões em Pernambuco. Expandir a produção de veículos de 800 mil para 950 mil por ano. “Aumento de 150 mil, maior do que a produção da Hyundai, Toyota, Peugeot e Citroën juntas”, compara o presidente da Fiat.

Serão fabricadas 200 mil unidades por ano em Pernambuco. “Fomos para lá, porque precisávamos ter um porto para intercâmbio mundial, explica Belini. Quer conquistar outras terras no continente, aqui é líder, com 23% de participação do mercado. “Como se preparar? Com inovação e competitividade. Temos grandes desafios. Antes liderança de mercado, hoje de resultados. Adiantar-se aos desejos dos consumidores.” Diz que a Fiat foi a primeira empresa a ouvir os clientes para criar plataforma, produto de sonhos. Exibido em filme no Conexão Empresarial. “Muitas das tecnologias ainda não existem, mas nosso esforço é antecipar.” Agir antes para garantir o futuro.

Gringos:

Importações: 5% de importados em 2005; 21,7% em 2010; 25% este ano e 50% é a previsão para  2020

Exportações: 31% em 2005 e 12% em 2010

Pátio largo:

  • O setor representa 23% do PIB industrial e 5% do total
  • 200 mil empresas
  • 1,5 bilhão de empregos

Pedra cambial

Existe uma pedra no meio do caminho da economia brasileira: o câmbio flutuante. “Nós estamos em uma situação de vítima de nossas virtudes. A estabilidade e o crescimento trouxeram a valorização do real. Não há economia sem moeda forte”, diz o ex-ministro Paulo Paiva, professor da Fundação Dom Cabral. Ele enxerga na multidão de 52 milhões de brasileiros que entraram no mercado de consumo um potencial e tanto para deslanchar os produtos e serviços mineiros. Ainda com renda baixa, item da prateleira das fraquezas de Minas.  Há o que fazer: tirar proveito das forças e oportunidades para ultrapassar as fraquezas e ameaças.

Economia: de olho nas oportunidades em Minas

FORÇAS:

  • Setores minero-siderúrgico e agropecuário 
  • Localização
  • Governo

OPORTUNIDADES:

  • Exportações
  • Consumo interno

FRAQUEZAS:

  • Pouca diversificação
  • Infraestrutura
  • Renda média da população

AMEAÇAS:

  • Câmbio
  • Baixos níveis de investimento e de competitividade

Produzir mais

Inserir o estado na era do conhecimento e aumentar a produtividade. Eis as duas vertentes mostradas por Matheus Cotta de Carvalho, presidente do Banco Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) para o estado seguir adiante. “O trabalhador mineiro produz 60% do que o do Rio de Janeiro e de São Paulo.” Culpa da informalidade, da falta de logística, da baixa qualificação da força produtora. “Nossa posição é de inferioridade em relação aos outros. Se aumentarmos nossos recursos humanos vamos ser capazes de produzir mais riqueza”, afirma. Acredita que Minas precisa enfrentar essa situação o mais rápido possível, porque não adiantaria fazer outros esforços se não estiver preparado para mudar, produzir mais, entrar na era do conhecimento. “Os Estados Unidos são uma máquina de inovação. Essa característica é que permite o desenvolvimento. Minas não pode se furtar à tarefa histórica de passar da fase industrial para a do conhecimento.”

Trabalhador mineiro produz 60% do que o do Rio e de São Paulo

O que falta:

  • Qualificação da mão de obra
  • Infraestrutura
  • Inovação

Nascer e crescer

Cerca de 68 mil indústrias em Minas não geram nenhum emprego. “Apenas 102 têm mais de mil funcionários e 10 com mais de 3 mil”, diz Olavo Machado, presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg). Pede tratamento diferenciado, incentivo para essas empresas, porque investem em gente. Como acontece com as pequenas, com a simplificação para o pagamento de tributos. “Será que o Simples na indústria não é motivo de vergonha? Porque ela nasce para crescer.” Ele crê que as oportunidades existem, estão aí, à frente, no aumento do consumo, na construção para suprir o déficit habitacional. “Mas não basta ver passar pela porta, têm de concretizá-las.”

Números:

  • 68 mil empresas mineiras não geram empregos
  • 32 mil de 1 a 4 empregados
  • 102 têm mil funcionários
  • 10 possuem mais de 3 mil

Sem desistir

“A gente não pode se abater com os nãos. Nem fazer apenas o básico, porque não funciona. Tem que ser agressivo. Arriscar faz parte do jogo”, afirma Roberto Chade, presidente da Dotz, empresa de fidelização. Ele passou por isto e viu a sua empresa crescer: foi de 230 mil usuários para quase 550 mil hoje. De olho no que o mercado de consumo progressivo, com tantas opções nas prateleiras, deseja. “Independentemente da classe social, os brasileiros querem ser recompensados.”

O dobro:

550mil usuários da Dotz, antes eram 230 mil

Receita Chadeana de sucesso:

  • Fazer o algo a mais. É preciso inovar sempre, ser agressivo
  • O desafio de querer faz acontecer
  • Ter ajuda
  • Ser persistente com um plano
  • Apoio dos colaboradores e da família. Ninguém faz nada sozinho e sem parceiros certos
  • Nada substitui um trabalho intenso e contínuo
  • Infelizmente nada acontece no tempo que a gente quer

Energia boa

Ventos favoráveis levam o país a investir em fontes de energia sustentável, renovável. “O potencial eólico é maior do que o elétrico”, diz José da Costa Carvalho, presidente da Eletrobras. Vai do vento ao sol tão constante em país tropical, com investimento em painel fotovoltaico, que acredita baratear nos próximos anos. Integrar essas energias à hidroelétrica, à nuclear. O país guarda hoje a sexta reserva de urânio do mundo. “Será a maior nos próximos anos. Temos duas usinas e até o final de 2015 ou início de 2016 vamos construir a terceira”, informa Carvalho. Ampliar a produção, distribuição com a polêmica usina de Belo Monte, no Pará, que deverá produzir 11 mil megawatts no período de chuva. “Desde o primeiro estudo até hoje são 30 anos. A maioria da comunidade, 98%, é a favor.”

Alternativas:

País precisa de 37mil km de transmissão

Mais força:

  • Investir em energia eólica, solar e nuclear
  • Até o início de 2016 começa a construção da 3ª usina nuclear, em Angra no Rio de Janeiro
  • Atuar no mercado com energia integrada, rentável e sustentável

Nos ares

Os céus vão ficar ainda mais movimentados. O número de voos deve crescer e muito. Há potencial. “Hoje 65 milhões de pessoas utilizam o transporte aéreo”, informa José Mario Caprioli, presidente da Trip Linhas Aéreas. O que representa 0,26%. Mais de 250 milhões ainda vão de veículos. “Mas as pessoas das classes C e D estão migrando muito rápido para o avião.” Ocupam as aeronaves, hoje com tarifas mais baixas e para vários locais, enchem aeroportos, que não acompanharam a tendência. “Essa é a pedra no meio do nosso caminho: a infraestrutura dos aeroportos tanto na área de aproximação dos aviões quanto na de passageiros”, diz Caprioli.

De avião:

  • 65 milhões de brasileiros vão de avião
  • 250 milhões usam transporte rodoviário

Viagens aéreas (por habitante):

  • 0,26 no Brasil
  • 0,36 na Argentina
  • 0,36 no México
  • 0,37 na China
  • 2,10 na Austrália
  • 2,24 nos Estados Unidos
  • 2,69 no Canadá

TRIP:

  • 85 destinos no Brasil. Deve chegar a 100 nos próximos dois anos
  • 3ª maior frota do Brasil: 46 aeronaves
  • 3ª maior em pousos e decolagens
  • 98% das operações são no aeroporto da Pampulha: 56 pousos e decolagens por dia

 
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