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BrasilEngavetadosConstrução do Memorial da Anistia Política, em Belo Horizonte, é mais um sopro de esperança na busca por respostas de familiares de desaparecidos políticos durante os anos de ditadura no Brasil
Texto: Dilke Fonseca | Fotos: vários
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Já se passaram quase 40 anos da guerrilha do Araguaia. No dia 14 de maio último Paulo Roberto Pereira Marques, que era o mais velho dos irmãos, teria completado 62 anos, mas até hoje a família não sabe como foi a sua morte e muito menos recebeu o corpo. As feridas estão abertas. “Isso continua vivo. É preciso que a verdade e a justiça sejam feitas”, afirma Maria de Fátima. Sob o codinome Amauri, Paulo Roberto foi visto pela última vez durante uma ofensiva do Exército brasileiro no acampamento em que estava, localizado na região conhecida como Couro Dantas, no Araguaia. O tempo também não reduziu a dor da família de Juarez Guimarães Brito, morto em uma cilada no Rio de Janeiro em 18 de abril de 1970. Ele foi cercado por policiais e cumpriu pacto feito com a companheira Maria do Carmo de não se entregar e deu um tiro no ouvido. A mulher não teve coragem e foi presa e levada para o Doi-Codi em São Paulo. “A família sofreu muito. Foi muito duro. Apesar da distância, todos esses fatos continuam presentes e muito doloridos”, afirma a irmã, Dilma Berutti. Caçula de nove irmãos, Juarez era idealista, calmo e sossegado. Ele dizia que era um soldado que ou saia vitorioso ou perdia. Até o irmão Jayme Brito que era militar da linha dura reconhecia, segundo Dilma, que Juarez era um altruísta. Formado na Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG em sociologia política e administração pública, Juarez teria 73 anos hoje. Ele foi membro da Juventude Trabalhista do PTB, assessorou sindicatos, organizou cursos de história e oratória como militante da Polop, participou de todas as lutas da época como a greve dos mineiros de Nova Lima contra a Hanna Corporation e movimentos da Liga Camponesa em Três Marias. Mais tarde divergiu da Polop e optou pela luta armada. Passou a fazer parte do Colina, uma organização clandestina. Juarez também participou da criação e foi dirigente da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). |
Maria Rosa Campos Magalhães, irmã do advogado Antônio Joaquim Machado, desaparecido desde 15 de fevereiro de 1971, quando foi preso no bairro Ipanema, Rio de Janeiro, afirma que cada vez que mexe nesta história revive uma situação bastante dolorosa. “Essa coisa de você não enterrar é terrível! Falta algo. É uma lacuna. A gente tem de aprender a conviver com isso.” Maria Rosa conta que não fez faculdade para se dedicar a buscar respostas sobre o desaparecimento, mesma angústia compartilhada pelos seus 11 irmãos. O pai, Joaquim Maria de Souza Machado, lutou para ter notícias do filho até que, segundo ela, Armando Falcão, ministro da Justiça à época, informou a ele, em audiência, que Antônio Joaquim estava morto. A família, que vivia em uma fazenda em Papagaios, a 150 quilômetros de Belo Horizonte, não sabia de seu paradeiro, mas tinha notícias por cartas que ele enviava por meio de amigos que muitas vezes eram deixadas em Sete Lagoas. Antônio Joaquim era militante da Vanguarda Revolucionária Palmares (Var-Palmares) e morava em uma pensão em Ipanema, no Rio de Janeiro. Segundo depoimento de Maria Clara Abrantes Rego e outros presos políticos, Antônio Joaquim foi torturado na Casa da Morte, informa o site do Grupo Tortura Nunca Mais. Já Afonso Celso Lana Leite, irmão de Elisa Lana Leite, tinha 22 anos quando se engajou na política estudantil e ingressou no Colina atuando na guerrilha urbana em Minas apenas durante um semestre. Afonso tornou-se ativista do Colina em agosto de 1968 e em janeiro de 1969 foi surpreendido no bairro São Geraldo com mais cinco companheiros, entre eles, Jorge Nahas e a então mulher, Maria José, Nilo Sérgio e Murilo Pezutti. Todos foram levados para o Dops e depois transferidos para polícia do Exército no Rio de Janeiro, no bairro Realengo, onde foram torturados no pau de arara, mantidos nus e sem alimentação. Neste local, o Exército fez uma aula de tortura, curso de demonstração para que soldados aprendessem os métodos para tirar informações dos presos políticos. Neste momento, relata Elisa, entrou na sala uma criança, sobrinha do capitão de nome Guimarães, que pediu para que a aula continuasse, porque ela precisava aprender. O sentido de justiça social e de luta contra a desigualdade herdados do pai, o italiano Pedro Pezutti, já estavam presentes em Ângela Pezutti, um dos ícones da luta pela anistia em Minas, quando veio de Araxá, no Alto Paranaíba, para Belo Horizonte em abril de 1964 para trabalhar na área administrativa da UFMG. Nessa época ela começou a ter mais contato com seus sobrinhos Ângelo e Murilo Pezutti, filhos de sua irmã Carmela, que eram engajados nas lutas estudantis. |
Em meio à turbulência pós-64 agravada em 1967-68 os seus sobrinhos foram presos. A irmã Carmela trabalhava no Palácio da Liberdade como secretária no governo Israel Pinheiro quando ficou sabendo da prisão de Ângelo em 13 de janeiro de 1969. E no dia 29 de janeiro da prisão de Murilo em uma casa no bairro São Geraldo com outras pessoas. No mesmo dia ela recebeu a recomendação de sair da cidade, mas, ao chegar em casa à tarde na companhia de Ângela, agentes do Dops a aguardavam e também a levaram presa. Estes fatos marcaram o início da luta de Ângela por notícias de sua irmã e sobrinhos. Pouco depois ela soube que Carmela estava incomunicável na penitenciária de Mulheres, mas apenas dois anos e três meses depois conseguiu localizar os sobrinhos Ângelo e Murilo, respectivamente, na penitenciária Magalhães Pinto. Carmela foi presa três vezes, fugiu para o Rio onde foi novamente detida, torturada e colocada em uma solitária Os sobrinhos foram levados para o Rio de Janeiro, submetidas a novas sessões de tortura. Murilo foi usado como cobaia na aula de tortura ministrada para 100 soldados do Exército brasileiro, enquanto Ângelo foi obrigado a assistir. Depois ambos foram enviados para a penitenciária de Juiz de Fora onde os presos fizeram o primeiro documento de denúncias de torturas e que conta em detalhes esta aula a que foram submetidos. O original foi entregue ao então ministro da Justiça, Alfredo Buzaid. A partir desta época Ângela Pezutti começou a organizar o que seria o embrião do Movimento Feminino pela Anistia reunindo familiares dos presos políticos, principalmente, mulheres para não só visitá-los, mas reivindicar melhorias, contratar advogados e denunciar as arbitrariedades. Em 1975 Terezinha Zerbini fundou o movimento pela anistia restrito a São Paulo. Em Minas foi fundado por Magda Neves, Zélia Rogedo, Emely Salazar, Eleonora Menicucci, Elisa Lana, Ângela Pezutti. Em 1969, recorda Ângela, algumas organizações clandestinas iniciaram sequestros de embaixadores para exigir em troca a libertação de presos políticos. Em 1970 o grupo de 40 presos políticos, entre eles Ângelo e Murilo, foram trocados pelo embaixador alemão Ehrenfried Anton Theodor Ludwig Von Holleben, e seguiram para a Argélia. No final desse ano 70 presos políticos, entre eles Carmela, foram trocados pelo embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher e viajaram para o Chile. Em 1979 foi promulgada a anistia, ampla, geral e irrestrita e que, segundo Ângela, infelizmente, não foi nem ampla, nem geral e nem irrestrita. |
MEMORIAL DA ANISTIA POLÍTICAUm sopro de esperança
Maria de Fátima Macedo vê a criação do Memorial da Anistia Política como um “sopro de esperança, alento para a família”. A memória deste período será resgatada e tornada pública para que as futuras gerações não deixem que fatos como esses voltem a acontecer. “Para quem não viveu é algo morto, não é um assunto. Só vai ter conhecimento a partir deste memorial.” Nilmário Miranda, secretário nacional de Direitos Humanos no primeiro governo Lula e que integra o Comitê de Implantação do Memorial, afirma que todos os países que passaram por regimes totalitários, assumiram compromisso com o direito à memória e à verdade. A construção do Memorial da Anistia Política na rua Carangola, 228, no bairro Santo Antônio, em Belo Horizonte, insere o Brasil na rede internacional de instituições públicas que defendem a liberdade e os valores da democracia. Apenas para este ano já estão disponíveis no orçamento do Ministério da Justiça 14 milhões de reais para a restauração do coleginho na antiga Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich), símbolo da resistência, para a construção do Memorial, que terá oito ambientes, um prédio com cinco andares e a praça do Bosque da Esperança. Praça que, por sinal, deve se chamar, segundo Betinho Duarte, Herbert José de Souza (Betinho) em cumprimento à lei 7.966 aprovada em 27 de março de 2000. Durante a ditadura milhares de pessoas tiveram seus direitos violados, afirma Nilmário. A Comissão de Mortos e Desaparecidos tem o registro de 479 desaparecidos e existem 70 mil processos com pedido de indenização que já entraram na Comissão de Anistia Política de pessoas que tiveram seus direitos violados. Betinho Duarte, que foi presidente do Comitê Brasileiro da Anistia e um dos organizadores da criação da Associação dos Amigos do Memorial da Anistia, calcula que, pelo menos, 350 mil pessoas estão envolvidas direta e indiretamente neste processo. |
Todo este acervo, que inclui vídeos, áudios, livros, fotos, imagens, relatos, dossiês, será preservado neste memorial. O espaço terá exposições permanentes e temporárias. Mas a ideia é de que Memorial da Anistia Política não seja apenas um lugar para preservar o passado, mas organismo vivo. E este é o objetivo da Associação de Amigos do Memorial da Anistia lançada no dia 14 de maio. “A ideia é também reforçar, divulgar, dar transparência e respaldar o Memorial da Anistia Política”, informa Betinho Duarte. |
Nilmário diz que, por meio da associação, será feita uma espécie de apropriação do Memorial da Anistia Política pela comunidade que vai acompanhar sua implantação e funcionamento. “O direito à memória e à verdade é fundamental para que o país não repita mais essas tragédias.” Os atrasos no início da construção do Memorial da Anistia Política são atribuídos à demora na definição da concepção museológica do espaço. Daniela Thomaz, responsável pela concepção do Museu da Língua Portuguesa, esteve em Belo Horizonte no dia 2 de junho para iniciar o trabalho de concepção do memorial em mais um passo para a materialização deste projeto. |
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