Introspectivo, cauteloso, desconfiado e hospitaleiro. Todas essas características atribuídas aos mineiros estão presentes na maneira de fazer negócios e gerir dos empresários de Minas. Mesmo em tempos de mundo globalizado e tecnologia em frenético avanço, o mineiro continua a manter traços comportamentais moldados no século 18, época de bonança e exploração do ouro. Quem garante é Ricardo Augusto Alves de Carvalho, professor da Fundação Dom Cabral. Pesquisador e especialista nas áreas de antropologia, administração, gestão de pessoas e comportamento organizacional, ele discorre sobre mineiridade e gestão. Para ele, aliar tradição e modernidade não é problema. “O mineiro, pelas condições históricas, já nasceu pós-moderno.”
O jeito mineiro de fazer negócios é diferente?
Sim, tem uma diferença em função de razões históricas. Os bandeirantes paulistas, que depois se transformam em mineiros, tiveram que desbravar matas virgens, lidar com animais selvagens e negociar com índios canibais. Ao encontrar o ouro, teceram toda uma hierarquia com o grupo de tropeiros, como por exemplo, quem cozinha, guarda a chave do cofre. À medida que a Coroa Potuguesa extraía mais ouro, eles tiveram que pensar em estratégia de deter o ouro aqui. Depois, essa elite vai para a Europa e traz ao Brasil o iluminismo, com seu ideário de liberdade. Aí tiveram de desenvolver uma inteligência com códigos de estratégicas, senhas e sinais.
Que códigos eram esses?
Por exemplo, como a Coroa Portuguesa cada vez tirava mais ouro, eles criaram o Santinho do Pau Oco, onde guardavam joias e pedras para fugir da fiscalização. É a ideia de comer pelas beiradas, com negociação muito elaborada até que você consiga vender. Isso também gerou características como desconfiança e o jeito cauteloso de ser.
Como isso é repassado?
A cultura é uma reunião de símbolos, mitos, histórias, transmitidas pela tradição oral. Ela é internalizada e vai criar um jeito mineiro de ser.
Além dos fatores econômicos, historiadores atribuem o jeito introspectivo à topografia do estado, repleto de montanhas...
Para chegar às minas, os bandeirantes tiveram que se embrenhar nas montanhas, útero da terra. Esse recolhimento levou, sim, à introspecção tão bem descrita por escritores mineiros, como Carlos Drummond de Andrade. Essa característica pode ser vista também no jeito de fazer negócios. O mineiro, antes de fechar um acordo, tem processo de elaboração, observação, que exige tempo.
O mineiro seria menos ousado?
Se ousadia for vista como irreverência, o mineiro não é ousado não. Mas se for pelo lado da coragem de adentrar em montanhas, em lugar que ninguém jamais foi, aí sim ele é. O mineiro também aparenta ser mais simples, mas é uma simplicidade elegante.
Principais qualidades dos mineiros.
O comportamento cauteloso, a grande capacidade de escuta e uma certa hospitalidade. Ele não tem opinião pré-formada, vai costurando o processo pelo seu próprio caminho. Por ser desconfiado, tenta se colocar no lugar do outro.
E os pontos negativos?
Não tem negativo e positivo. É de acordo como posicionamento. A perspectiva é mais dialética. O fato de dizerem que o mineiro fica em cima do muro pode ser uma posição conciliadora.