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Meio AmbienteForça do eucaliptoA silvicultura se move e pede passagem em minas gerais, estado responsável por quase 24% das florestas plantadas no país
Texto: Antônio Siúves | Fotos: Márcio Paulino Neto/Divulgação
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O efeito foi particularmente desastroso em Minas, estado responsável por 70% da produção nacional, especialmente no polo sete-lagoano. Houve parada brusca da produção e a consequente demissão de centenas de empregados. De lá para cá, a commodity mal se refez, principalmente devido à forte valorização do real, que encarece o produto no exterior e reduz sua competitividade. “O setor como um todo está utilizando 43% da capacidade instalada em Minas”, diz Marcio Paulino. Em meio à crise, entretanto, quem plantava e não parou de plantar não se arrepende. As florestas de eucalipto se tornaram um patrimônio capaz de lastrear a própria atividade siderúrgica. “Algumas siderúrgicas, após os primeiros impactos da crise, tiveram que paralisar suas atividades, mas não interromperam a produção de carvão, e parte delas conseguiu se reerguer economicamente a partir do fluxo de caixa gerado com essa produção”, observa Marcio Paulino. A indústria de gusa e aço compromete-se com o investimento em florestas plantadas por necessidade e obrigação, já que uma lei estadual aprovada em setembro de 2009, ainda não regulamentada, estabelece que, até 2019, 95% do carvão vegetal utilizado nas usinas deverá ser proveniente de reflorestamento, ou seja, caminha-se para o corte zero de árvores nativas. O carvão vegetal é, tecnicamente, um eficiente termo-redutor, isto é, faz a reversão do minério que aflora no solo para ferro metálico. Com a diminuição da produção, algumas guseiras, como a de Paulino, já atingiram a autossuficiência, ainda que provisória. A Siderpa cultiva 24 mil hectares de eucalipto em municípios situados numa faixa de 200 a 300 quilômetros de distância da usina de Sete Lagoas. As plantações da empresa concentram-se em João Pinheiro, Buritizeiro, Olhos d’Água e Paracatu. Com capacidade de produzir até 200 mil toneladas de ferro-gusa por ano, o patrimônio da Siderpa tornou-se verde por excelência. “A silvicultura se mostrou nosso melhor investimento”, revela o empresário. “Hoje, com o investimento em florestas, feito de 1985 para cá, a Siderpa conseguiu financiar um ativo que tem, grosso modo, quatro vezes o valor da própria empresa.” |
O presidente da Associação Mineira de Silvicultura (AMS), Bruno Melo Lima, considera mais significativo olhar para o horizonte da silvicultura no estado ao longo da década passada do que para a queda na atividade decorrente da crise. “De 2008 para 2009 houve realmente uma queda na área plantada em Minas Gerais, porém, é importante destacar que o total atingido naquele ano (2008) foi de 200 mil hectares, o maior já registrado”, considera o empresário, que dirige a guseira Metalsider, instalada em Betim, e cultiva 32,5 mil hectares de eucalipto em Minas e mais 5,5 mil na Bahia. “De 2001 a 2010, a área plantada anualmente com florestas de produção cresceu, em média, 10% ao ano, sendo que os 131 mil hectares plantados no ano passado superam em mais de duas vezes a área registrada no começo da década, que era de 63,7 mil hectares.” Um indicador de que a crise não deteve seriamente a expansão da atividade é o preço da terra na principal fronteira agrícola da cultura, as regiões Norte e Nordeste. Nessa grande área, o hectare propício à implantação de florestas sai em média a 1,5 mil reais, contra os 300 de cinco anos atrás, contabiliza o produtor Robson Severino Silva. Uma valorização que ainda tem espaço de sobra para crescer, já que a mesma área pode chegar a 6 mil reais em outras regiões de Minas. “Subiu bem, mas ainda é relativamente barata”, comenta o produtor, que não para de investir em novas áreas de florestas. Ele já acumula 350 hectares plantados em torno de Coração de Jesus, município da microrregião de Montes Claros. O silvicultor não hesita em recomendar o investimento a interessados, com uma ressalva genérica: “É um bom negócio, mas não é para aventureiro. Não basta querer plantar e colher. É preciso estudar o mercado em detalhes. Mas é uma atividade em ascensão”, garante. Marcio Paulino é mais enfático. “Não há outro lugar no mundo onde este tipo de investimento será mais competitivo do que aqui, pelo menos nos próximos anos. Além disso, temos um mercado consumidor alinhado com a tendência de uso de matérias-primas renováveis e que ajudem a diminuir o efeito estufa”, justifica. Trata-se de um tiro certo, avalia Nelson Venturin, professor de engenharia florestal da Ufla aposentado e presidente do Sindicado dos Produtores Rurais de Lavras, no Sul de Minas. “Eu diria que o negócio é rendoso. Não há como não ter mercado para a madeira”, opina. Ele também compara favoravelmente a rentabilidade da silvicultura à de outras culturas agrícolas tradicionais e à pecuária. “Dados de que dispomos mostram que a plantação de florestas ganha muito do gado de corte e do gado de leite. Talvez não ganhe da cana de açúcar, mas, em relação ao milho e à soja, o retorno é maior”, assegura. O manejo de uma floresta é relativamente mais simples, e o investimento, mais seguro, aponta Venturin. “É como um dinheiro em caixa que você lança mão quando necessitar”, diz. Diferentemente da ordenha do gado de leite ou da colheita da soja, que devem ser feitas diariamente, num caso, e no prazo determinado, no outro, ou se vai perder a produção, o corte das árvores pode ser realizado a partir do sexto ou do sétimo ano ou quando for mais conveniente ou lucrativo para o silvicultor. |
Entre as modalidades de transação florestal estão o arrendamento de terras por produtores, o chamado comodato, e o fomento, que é uma alternativa de renda para o produtor rural. Neste caso, o fazendeiro recebe assistência técnica, mudas clonais e demais insumos da empresa, que também financia a atividade do proprietário. A dívida é convertida em madeira e amortizada na ocasião da colheita. O fomento é muito utilizado pela Cenibra, empresa localizada no Vale do Rio Doce e uma das maiores produtoras mundiais de celulose branqueada de fibra curta de eucalipto. Mais incipiente é o Programa Estadual de Integração Lavoura-Pecuária-Florestal, iniciativa da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais (Seapa-MG) voltada para pequenos proprietários e ainda em fase de consolidação. “O programa apoia produtores rurais, técnica e financeiramente, por meio do plantio do eucalipto, da cultura e da pastagem em pequenas áreas, com o objetivo de obter confirmação e validação dos resultados alcançados pelas pesquisas”, informa Guilherme de Oliveira Mendes, superintendente de Desenvolvimento Agropecuário e da Silvicultura da Seapa-MG. Bilhões chegando e um balde d’água fria Às 8h da manhã de 27 de abril, o executivo Carlos Alberto Guerreiro, vindo de São Paulo, aguardava em Confins o desembarque de um cliente norte-americano. Já em Belo Horizonte, duas horas depois, os dois tratavam de negócios na sede da Krypton Serviços Contábeis, na Savassi, de interesse do recém-chegado. Carlos Guerreiro, engenheiro florestal graduado na Esalq há 30 anos, é presidente da TTG Brasil – Investimentos Florestais, ou The Thimber Group, empresa de administração de ativos florestais com sedes em Nova Iorque e São Paulo e escritórios em Minas Gerais, um em Pirapora e outro em Diamantina – onde trabalham 20 funcionários entre engenheiros e técnicos. Alto, vestido de maneira simples, falante e amigável, Carlos Guerreiro recebeu a reportagem da Viver Brasil numa saleta da Krypton. “Nossa empresa faz o meio de campo entre o investidor e o investimento. Fazemos tudo que é necessário para se ter um projeto florestal de pé. Esse é o papel da TTG, ser uma facilitadora e uma gestora de ativos florestais”, perfilou. Os ativos administrados pela empresa formam área de 90 mil hectares, 70% dessas terras localizadas em Minas Gerais, sobretudo nos vales dos rios Jequitinhonha e Mucuri. Guerreiro ressalva que apenas metade da área gerida pelo grupo é plantada. “É tudo que os órgãos ambientais permitem”, observa. A TTG atualmente trabalha com oito ou dez investidores, entre eles os norte-americanos RMK Timberland Group e Phaunos, e ativos da brasileira Suzano Papel e Celulose S.A. Em 24 de junho do ano passado, o jornal “Valor Econômico noticiou que fundos de investimentos em florestas nacionais e estrangeiros começavam a se multiplicar no Brasil com o comprometimento de aproximadamente 4,5 bilhões de dólares. O jornal citava a BRWoods e a Vale Florestar, um fundo de investimento em participações, com aporte de 605 milhões de reais constituído pela Vale e fundos de funcionários da Caixa Econômica Federal (Funcef), da Petrobras (Petros), mais Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. |
Três meses depois da notícia do “Valor” veio o balde d’água fria. Por iniciativa do presidente Lula, um parecer da Advocacia-Geral da União (AGU) limitou a venda de terras brasileiras a estrangeiros ou empresas brasileiras controladas por estrangeiros. Em resumo, as empresas com esse perfil ficaram impedidas de adquirir imóveis em determinadas proporção e extensão. “O negócio está afetado eriamente. Várias empresas deixaram de vir. Todos nós que trabalhamos com investidores estrangeiros, junto com investidores nacionais, estamos sofrendo uma consequência muito forte das restrições”, lamenta Guerreiro. “Existia uma regra vigente até agosto do ano passado, e com uma canetada se mudou tudo”, acrescenta. Conforme o presidente da TTG, a decisão do governo atrapalha os planos de expansão inclusive de empresas que atuam no Brasil há muito tempo, casos da V & M, AcelorMittal e Cargil, por exemplo. A TTG, no entanto, continua apostando fortemente no potencial da silvicultura do eucalipto no estado. “Minas tem um desbalanço enorme, principalmente no setor de siderurgia, entre consumo e demanda. Pelo menos em condições normais de temperatura e pressão, porque a crise toda afetou dramaticamente esse setor, e 2009 e 2010 foram anos muito ruins para a atividade. Mas a tendência é voltar e está voltando, e a capacidade instalada da indústria guseira de Minas Gerais demandaria uma área plantada de quase o dobro do que o estado tem”, projeta Guerreiro. Ele também espera que as restrições impostas ao capital estrangeiro sejam, se não revistas, atenuadas. “Deram um tiro com um calibre muito grosso, abriram demais o leque da restrição, e agora eu imagino o que o governo está pensando para adequar isso e separar o joio do trigo”, espera. Carvão renovável é verde “A siderurgia a carvão vegetal representa a expressão máxima do desenvolvimento sustentável, pois trata-se de um processo industrial e que o gás carbônico é reciclado, ou seja, é recapturado pela floresta em crescimento”, comenta Bruno Melo Lima, presidente da SMS. “O resíduo gasoso, em circuito fechado com a floresta, neutraliza-se, e há uma sobra de oxigênio”, agrega o empresário. Calcula-se que para cada tonelada de ferro-gusa produzida são fixados aproximadamente 880 quilos de gás carbônico, e 200 quilos de oxigênio puro são liberados na atmosfera. “O balanço final é extremamente favorável à produção de ferro a partir de termo redutor renovável. O Brasil tem a chance de ser o único país do mundo com uma matriz produtora de ferro e aço neutra em termos de emissões de gases de efeito estufa, ou até mesmo compensando emissões advindas da matriz de outros países que insistirem no uso do coque” – realça Marcio Paulino Neto, referindo-se ao carvão mineral. “Se utilizarmos coque, um combustível fóssil, lançaremos na atmosfera quase 2 toneladas de gás carbono para cada tonelada de metal produzido. Por outro lado, se a matéria-prima escolhida for o carvão vegetal vindo de florestas plantadas, cada tonelada de ferro produzida retirará este mesmo peso da atmosfera em gás carbônico, sem contar o estoque de carbono mantido nas florestas, que é ainda maior”, argumenta. Como todas as florestas, as plantações de eucalipto cumprem seu ciclo de vida. As árvores renovam sua folhagem, folhas e galhos caem no solo e são decompostos e incorporados, o que significa menos carbono na atmosfera, lembra Dárcio Calais, assessor florestal da AMS. “Mesmo depois que as árvores são colhidas, folhas e galhos e raízes permanecem no campo e são incorporados ao solo, onde permanecem no campo”, explica o engenheiro florestal graduado na segunda turma da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Segredo de polichinelo ou não, fato é que a glória de o Brasil ostentar o maior rendimento florestal do mundo em biomassa plantada não costuma ser decantada. As árvores de eucalipto no país crescem a uma média de 40 metros cúbicos por hectare/ano, e nossa história florestal é relativamente recente. Esse desempenho bate, por exemplo, a Austrália (25 m3/há/ano), Finlândia (5 m3/há/ano) e os Estados Unidos (15 m3/há/ano). |
A biomassa nada mais é que energia solar convertida por meio da fotossíntese, a magnífica reação bioquímica por meio da qual se produzem carboidratos com água e gás carbônico capturado da atmosfera. Entre todos os vegetais, as árvores, graças à vasta superfície foliar, são especialmente eficazes para realizar tal síntese da luz. Até os anos 70, a produtividade média da cultura no país girava em torno de 20 m3/ha/ano. O salto no rendimento deve ser atribuído à excelência de pesquisa realizada em universidades como a Universidade Federal de Viçosa (UFV), Universidade Federal de Lavras (Ufla) e, em São Paulo, a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), além do trabalho científico realizado diretamente por empresas como Acesita e Aracruz. “É claro que a silvicultura vem incorporando novas tecnologias indicadas pelas pesquisas. Foi assim que dobramos nossa produtividade em apenas 20 anos”, resume Dárcio Calais. “O grande salto em produtividade começou na década de 80 e resultou de duas linhas fundamentais de pesquisa: adubação mineral e melhoramento genético. A tecnologia dos clones permitiu rapidez no melhoramento florestal e os ganhos em produtividade foram imediatos”. As florestas clonais substituíram a plantação por sementes. A cadeia de investimentos do eucalipto também inclui grandes produtoras de mudas que desenvolvem essa tecnologia. As melhores árvores de uma cepa são selecionadas e cortadas em milhares de fragmentos. Esses fragmentos, com emprego de aditivos apropriados de brotação, se transformam-se em árvores, que são cortadas e o processo se repete indefinidamente até se obter material genético excelente e em quantidade. O desenvolvimento tecnológico realizado no Brasil melhorou a adaptação do eucalipto em solos mais pobres e arenosos – o que significa que não precisa haver competição da planta com terras argilosas mais ricas e afeitas à agricultura alimentar –, inclusive em regiões áridas, como o Norte e Nordeste de Minas, que convivem com secas anuais. Pode-se plantar e cortar durante todo o ano. Existem no mercado mudas que são fixadas em gel e reduzem a necessidade de irrigação. O trabalho da TTG Brasil começa por pregar as vantagens da silvicultura local para clientes dentro e fora do país interessados em investir aqui. “O Brasil tem um nível de competitividade na área florestal que é único. Nós desenvolvemos nesses 30 anos uma tecnologia de plantio de floresta que envolve genética, sem dúvida, mas também técnicas de plantio, preparo de solo, interação entre fertilização e material genético”, projeta Guerreiro. Diante das dificuldades que sua atividade enfrenta desde o ano passado, o presidente da gestora acrescenta, com desalento: “E isso quer dizer que a gente poderia ser uma potência na área florestal muito maior do que nós somos. O Brasil tem 6 milhões de hectares plantados, o Japão tem 9 milhões, a Ucrânia, a mesma área”, compara. “Imagina a possibilidade que poderíamos ter em expandir essa base florestal, e obviamente atraindo indústrias para a cadeia de produção ou para siderurgia, celulose, ou para madeira cerrada, em substituição à madeira da Amazônia, que ainda é amplamente utilizada”, pergunta o empresário. |