Quarta, 23 de Maio de 2012
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Gestão

Sucessão harmoniosa

Programa de Desenvolvimento ao Acionista da Fundação Dom Cabral prepara membros de empresas familiares para lidar com temas espinhosos

Texto: Terezinha Moreira | Fotos: vários


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Assuntos como o integrante  mais bem preparado para assumir a direção da empresa, o relacionamento de negócios entre os familiares, as relações de confiança e interpessoais, os conselhos de acionistas e de administração, a governança corporativa e a sucessão patrimonial. Temas, a princípio, difíceis de serem abordados. Incentivar e orientar a família a discutir os pontos conflituosos da empresa que são evitados entre os membros do clã são os objetivos do Programa de Desenvolvimento ao Acionista (PDA), ministrado há 13 anos pela Fundação Dom Cabral (FDC), a terceira melhor escola de negócios do mundo em cursos customizados, segundo o ranking divulgado recentemente pelo jornal inglês Financial Times.

Desde sua criação, o PDA tem despertado o interesse de famílias empresárias de vários setores e com corporações de todos os tamanhos em diversas regiões do Brasil. O curso já atraiu mais de 300 empresas, com 1,7 mil membros familiares. Um dos diferenciais do PDA é a sua duração de 18 meses, com encontros mensais de dois dias inteiros entre os membros das famílias e profissionais de diversas áreas inerentes a negócios, como advogados e terapeutas familiares. “O PDA é direcionado a empresas familiares para que o amadurecimento dos membros da família ocorra, trabalhando eles ou não na empresa”, explica a gerente de projetos da Fundação Dom Cabral, Juliana Costa Gonçalves. O ideal, segundo ela, é que todo o grupo familiar, filhos, netos, esposas, maridos participem do curso para vivenciarem esse amadurecimento. “A família que entra no PDA é bem diferente da que sai do curso”, enfatiza.

Um das ações no PDA que possibilitam esta mudança é que os pontos conflituosos que são evitados pelas famílias e, normalmente, acabam virando uma bola de neve, são tratados no decorrer do curso, para que os membros os discutam conforme sua realidade. “O resultado é que as famílias criam condições para conversar sobre esses assuntos, refletem sobre eles e definem as formas da conduta”, destaca Juliana. Ela conta que a alta procura pelo PDA ocorre em função de as famílias empresárias necessitarem de agentes externos para discutir as questões conflituosas. O curso também aborda a questão da proteção do patrimônio, do acordo de acionistas, que é um instrumento extremamente importante para que o grupo familiar defina o que pode e o que não pode ser feito dentro das relações familiares. 

A necessidade de se nivelar o entendimento sobre o conceito de gestão e governança corporativa levou a família do diretor da Mecanorte, José Miguel Duque Estrada Frauche, a participar do PDA. Ele, que é um dos fundadores da empresa, o pai, o irmão e a irmã fizeram o curso, concluído em 2009. “Os resultados foram muito bons, pois houve mudança positiva no que a gente precisava. Com o nivelamento do entendimento sobre a governança, a relação entre a família tornou-se mais tranquila e o conceito de gestão da empresa foi bastante modernizado”, assegura Frauche. Ele conta que a experiência familiar com o PDA foi muito positiva, pois os conceitos de governança, de acionistas e de herdeiros ficaram muito claros para todos. “Quero que a próxima geração participe do curso para que conheçam a empresa e saber se tem interesse em trabalhar nela”, antecipa o diretor da Mecanorte.


Fundação Dom Cabral: novos conceitos e práticas de gestão familiar/Alexandre C. Mota
Fundação Dom Cabral: novos conceitos e práticas de gestão familiar/Alexandre C. Mota

Às vezes, os conflitos familiares põem em risco a continuidade do clã na empresa. Em alguns casos,  não muito raros, a companhia acaba tendo de ser vendida porque não houve acordo entre os familiares proprietários. “O objetivo fim do programa é manter a longevidade das relações e das companhias. Muitas empresas acabam sendo vendidas ou se fundindo com outras corporações e a família perde seu controle”, assevera Juliana Gonçalves. De acordo com ela, os efeitos do PDA sobre as famílias e suas empresas é tão positivo que algumas acabam fazendo o curso novamente, com membros que não haviam participado por não terem idade propícia para o curso. 

Foi o que aconteceu na Lider Aviação. A vice-presidente do Conselho de Administração e coordenadora da governança familiar da empresa, Jacqueline Piacenza Assumpção Geo, já participou do PDA duas vezes. Uma, com seu pai, José Afonso Assumpção, e as duas irmãs, no início da implantação do curso em Belo Horizonte, e outra, com 11 dos 12 netos do fundador da empresa. Ela lembra que um não participou por não ter idade para tal. Na época do primeiro curso, a empresa estava iniciando em programas de governança corporativa, mas mais curtos. “No Brasil não tinha nenhum curso aprofundado no assunto, até que a Fundação Dom Cabral lançou o PDA”, lembra Jacqueline Geo.

Ela conta que, há 13 anos, a Lider Aviação começou a colocar, em prática a criação dos conselhos de administração e o de governança familiar. “Este segundo curso foi muito bom para que os netos de meu pai tenham a primeira noção do que é uma empresa familiar, quais são as expectativas com relação aos acionistas e vice-versa e tudo o que tem de ser feito para a transição das gerações”, conta Jacqueline. Ela diz que a terceira geração também fez um programa de desenvolvimento individual, oferecido pela FDC, e que foi muito importante porque deu uma direção profissional para os que ainda tinham dúvida sobre que carreira seguir.

Juliana Costa: mais de 300 empresas no PDA/Pedro Vilela
Juliana Costa: mais de 300 empresas no PDA/Pedro Vilela

De acordo com Juliana Gonçalves, o PDA tem três características: a troca de experiência com outras famílias empresárias – o que é extremamente rico e importante porque muitas vezes o depoimento de uma família pode ajudar na solução dos problemas de outra –; o tempo de duração de 18 meses, considerado importante porque não é apenas um trabalho de informação, mas de amadurecimento de percepção; e o terceiro ponto que é uma oportunidade para a família refletir sobre as questões da empresa. “A família está toda junta, mas em um ambiente neutro, para discutir os problemas da empresa”, enfatiza a gerente de projetos da FDC.

E é neste ambiente neutro que as famílias são preparadas para gerir melhor suas empresas. “É preciso as famílias entenderem que à medida que a empresa vai crescendo, novas gerações vão chegando, é necessária a implementação de regras de gestão no negócio, com mais profissionalismo”, assinala a consultora em empresa familiar da FDC, Beatriz Coutinho. Ela lembra que isto é um ponto gerador de conflitos entre os familiares, pois alguns entendem que os membros do clã é que têm de trabalhar na empresa e outros querem profissionalizá-la. “Com isto, há conflitos de autoridade, de pai com filhos e entre irmãos”, comenta a terapeuta familiar. Para tentar fazer com que os membros da família descubram a melhor forma de se comandar a empresa, são feitos workshops de desenvolvimento familiar, de preparação para que estes familiares sejam executivos ou acionistas da empresa. 

De acordo com Beatriz Coutinho, durante o curso também é feita intervenção no nível familiar (de relações emocionais), da gestão (preparação profissional) e no nível patrimonial (em torno das questões societárias). Ela diz que a sucessão é um momento de dificuldade porque o fundador está acostumado a gerir a empresa de uma forma e o filho ou filha chega com características diferentes de administração, que nem sempre são aceitas. “Às vezes, o pai escolhe o filho mais velho para ser o seu sucessor e, nem sempre, é ele a pessoa mais bem preparada ou indicada, o que também gera conflitos e até pode comprometer o desempenho da empresa”, ressalta. “O PDA foi feito para preparar as famílias para que tenham conhecimento suficiente para tomar todas estas decisões, para que elas não discutam estes assuntos sem que estejam preparadas para isto”, finaliza Beatriz Coutinho.


 
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