A Rádio Itatiaia está prestes a completar 60 anos como a principal emissora de Minas Gerais. Como é acompanhar e manter a fidelidade do ouvinte durante seis décadas?
A Itatiaia foi criada com a proposta de ser uma rádio diferenciada, muito ligada ao esporte porque o fundador, Januário Carneiro, era locutor esportivo, e ao jornalismo. Belo Horizonte tinha três emissoras de rádio AM na época que eram a Inconfidência, a Guarani e a Mineira. A Itatiaia foi a quarta emissora, com uma diferenciação. Ela não tinha auditório, cantores, cantoras, novelas. A proposta era nova e estava surgindo, vindo dos Estados Unidos, de ser uma rádio de rua, feita de jornalismo, de informação, de prestação de serviço. E essa marca, penso que a Itatiaia manteve esse tempo todo. O começo foi muito difícil, a concorrência era muito forte, havia poucos recursos. Apostamos então em gente jovem, estudantes, pessoas que não tinham chance no rádio e queriam trabalhar.
E qual foi o impacto no ouvinte com a chegada de uma rádio com esse formato?
O público estava acostumado há anos, desde que o rádio começou, a ter shows de auditório, cantores e cantoras, programas humorísticos. Foi muito difícil. Às vezes, nossa equipe saía às ruas e havia sempre a pergunta: onde é o auditório da Itatiaia, a que horas passa a novela? E devargazinho, a Itatiaia foi conquistando público. E fazendo transmissões que na época eram quase uma epopéia como falar, durante a semana santa, de locais como Roma, Jerusalém, transmitir os jogos dos times mineiros fora de BH. A Itatiaia depois fez Copa do Mundo, jogos olímpicos e aí engatou a quinta marcha.
Houve momentos de maior dificuldade?
Havia uma concorrência na nossa área mais forte e depois veio o FM. A faixa de FM roubou muito público do AM. Em 2000, colocamos a mesma programação do AM na faixa do FM e chamamos isso de clone e o resultado foi ótimo, rejuvenescemos a nossa audiência. A Itatiaia teve alguns percalços pelos anos 60 e 70, por causa do golpe militar, da censura. Tivemos que tirar alguma coisa do ar, alguns comentários. Preferimos até substituir jornalismo por música para não ficar no jornalismo chapa branca. Isso foi muito benéfico porque mantivemos a credibilidade do público, fomos muito honestos. E depois com a volta da democracia, da liberdade de imprensa, isso valorizou muito o nosso trabalho e o nosso conteúdo, que foi sempre em cima de informação, de botar o público para falar, para reclamar.
O que mais impactou as rádios no Brasil: o fortalecimento da TV nos anos 50 e 60, ou a chegada da internet e mídias sociais?
No caso da televisão, o rádio enfrentou brilhantemente a concorrência. Antigamente, o rádio ocupava lugar na sala de cada lar, perdeu espaço para televisão e foi para o quarto, para o carro, virou portátil, foi para o local de trabalho. O rádio foi lutando bem, com as armas que tinha. Quando veio a internet, ela nos deu um susto, porque a novidade era fantástica. Mas, acredito que a nossa grande estratégia foi utilizar a internet como aliada e não como concorrente. Hoje temos uma ótima audiência na internet, que se espalha pelo Brasil afora, pelo mundo. Temos mineiros que acompanham a Itatiaia e estão fora do país. Estamos também na Sky, na Net, no Via Embratel, no telefone celular.
E como essas novas mídias mudaram a programação e jornalismo da Itatiaia?
No caso da internet, o público cobra uma resposta muito rápida. O público é interativo, se manifesta, pede informações. Tivemos que mudar equipe, dar um tratamento todo especial. E, principalmente, a internet tem um público muito jovem, que é irreverente. Tivemos que adaptar nossa linguagem, modo de ser e isso foi muito bom. A resposta tem sido muito boa.
Diante de tanta tecnologia, já dá para delinear um futuro para o rádio?
O futuro do rádio já está acontecendo, que é a segmentação. Antigamente, as emissoras procuravam atingir todos os públicos, todas as faixas etárias, classes sociais. Hoje não. A mensagem do rádio tem que ter foco. Vamos pegar as rádios musicais. Temos as que tocam rock, outras que tocam sertanejo, ou o estilo adulto contemporânea, há também as religiosas, e por aí afora. Isso no FM e no AM. Já a rádio que é feita com jornalismo, informação e prestação de serviço, é mais cara, mais trabalhosa, mas em compensação dá um retorno muito grande, porque o anunciante reconhece que está juntando sua mensagem a uma informação importante.
Vamos ao futebol. Os jogos televisionados diminuem a audiência da rádio?
O rádio dá um algo mais na cobertura esportiva. Ele começa a falar mais cedo do estádio, presta serviço, anuncia escalação antes da televisão, acompanha os treinos. Tem repórter atrás do gol, pertinho do lance, tem informação de todo tipo para dar ao ouvinte. Claro que não somos pretensiosos de dizer que a voz do rádio substitui a imagem. Ela seria hoje um complemento. A televisão complementa o rádio e vice-versa. Temos pesquisa sobre isso, em números a audiência de futebol não cai quando tem televisão direta.
O interesse dos jovens pelo futebol internacional. O que isso pode significar para o futebol brasileiro?
A globalização do futebol já aconteceu e o Brasil precisa ter cuidado porque os nossos estádios, que vão passar por reforma, não estão bons, os gramados também não, os jogadores foram para o exterior, a violência nos estádios está alta. A gente perdeu muito o charme do futebol no Brasil. Eu espero que com essa ação que está sendo feita nos estádios, após a Copa do Mundo o futebol ganhe uma nova dimensão no Brasil. Para que o torcedor possa ter conforto nos estádios, ter camarote, ter estacionamento, até pagando ingressos mais caros. Temos que caminhar para isso. O futebol vai ter que cobrar um pouco mais pelo espetáculo. O futebol europeu está sendo muito acompanhado, principalmente pelos jovens. A venda de camisas do Barcelona, Real Madrid, Manchester United, Milan, está em alta e os jovens conhecem mais os jogadores europeus do que os do São Paulo, Palmeiras. Estamos vivendo no futebol brasileiro uma fase de transição.
E isso pode significar exatamente o quê para o futebol e para o torcedor?
Os estádios vão diminuir um pouco a capacidade. Então, teremos de compensar a perda de público com valorização do ingresso. E os patrocínios vão ser mais valorizados pelos clubes. Estou esperando que possamos reagir, mas o momento é de muito interesse pelo futebol europeu, Eurocopa, isso muito em função dos canais a cabo que trazem tudo. Em vez de tirar públicos dos estádios, eles estão fazendo o público se ligar mais na competição. Este é um momento que teremos de repensar muita coisa no futebol brasileiro.
O que falta ao futebol brasileiro?
Está faltando gestão. Está faltando valorização do jogador brasileiro, tentar segurar mais o jogador, não ter pressa de vender garotos com 16, 17 anos, que já estão em times do exterior. Está faltando um trabalho de base. Outro dia li sobre trabalho que o Barcelona faz em suas divisões de base. O Messi foi para o Barcelona com 13 anos de idade, com sua família. A assistência que o clube deve dar. Não é jogar um garoto de 13, 14 anos, numa concentração sozinho. Traz do interior, solta em BH, não estuda porque tem de treinar de dia. Ele não se aprimora como atleta, como homem. Esse trabalho que as equipes europeias fazem é para ser imitado. E também há o lado do torcedor, temos que dar conforto e segurança ao torcedor que compra o ingresso e vai ao estádio.
E o jogador brasileiro diante de tudo isso. O que está ocorrendo hoje com ele?
O jogador brasileiro sai quase sempre de lugares humildes, famílias muitas vezes mal-estruturadas. Ele é jogado num grande clube em que há uma concorrência para subir, ganhar posição, para ser aproveitado e aquilo é assustador. E muitas vezes, ele passa a ganhar um dinheiro que nunca imaginou. O futebol permite isso. E aí ele perde o foco. A gente vê alguns jogadores que atravessaram ótimas fases e depois perderam tudo, como é o casso do Muller e vários outros jogadores que estão em má situação. Vejo o caso do Adriano, o Imperador, que está vivendo de marketing, porque jogar, não está jogando. O Ronaldinho Gaúcho poderia estar na Europa terminando sua carreira de forma brilhante. E ainda não é um jogador fenômeno. Isso é constante no futebol e os exemplos são muito fáceis de
serem levantados. Toda hora nos chegam notícias de que um jogador está passando necessidade, perdeu tudo, está morando de favor. Esse mundo do futebol tem lado bom, mas tem lado negativo de deixar muitas vezes quem teve sucesso na profissão em situação muito difícil na frente. É preciso que o jogador tenha estrutura. O clube ao receber o jogador e o jovem, tem que fazer trabalho de encaminhamento, reciclar o jogador.
Hoje há algum time no Brasil que seja modelo em gestão e no trabalho de dar apoio e estrutura aos seus jogadores?
Há clubes no Brasil que trabalham bem essas divisões de base: o Internacional de Porto Alegre, Vitória do Bahia, Guarani de Campinas, São Paulo, Santos, Atlético e Cruzeiro, que descuidaram por algum tempo, mas estão fazendo isso. Os meninos têm escolas, acompanhamento, as concentrações são confortáveis, o jogador é assistido e acompanhado. Porém, o surgimento da Lei Pelé deu brechas muito grandes para a atuação de empresários, procuradores e conselheiros, entre aspas, e isso tem causado muito mal ao jogador.
Como estamos nos comportando como futura sede da Copa do Mundo?
Começo pelo exemplo da cidade que vai sediar a abertura da Copa. Onde está escrito que a Copa do Mundo tem de ser aberta em São Paulo? Aí entrou o jogo político do Lula, o fato de ele ser corintiano, de prometer estádio, que vai arranjar financiamento. São Paulo é o maior exemplo de como tudo está misturado no país. O governo federal fala uma coisa, a prefeitura fala outra e o governo do estado outra completamente diferente. Aqui em BH, o pessoal está otimista que o Mineirão vai ficar pronto, bonito e cheirando a tinta e que o Independência deve ser entregue no fim do ano. Mas ouço também, de outras pessoas que não querem desafiar informações do governo, a contestação dizendo que está faltando dinheiro e quando falta dinheiro, falta tudo. Copa do Mundo não tem adiamento, você tem de cumprir prazos. Está faltando uma voz no Brasil que seja responsável pelas obras e informações da Copa. O Ministro do Esporte Orlando Silva vai à Bahia, Brasília, Belo Horizonte e promete a abertura da copa para cada uma dessas cidades. Ele está jogando para torcida, fazendo média a cada lugar que vai. Pesa sobre nós a possibilidade de ocorrer um vexame e o Brasil não ter as 12 sedes. A Copa não estaria ameaçada, mas há estádios e locais em que o primeiro tijolo ainda não foi colocado.
Podemos ter alguma surpresa no Campeonato Brasileiro deste ano?
Todo mundo estava falando que o clube do primeiro semestre era o Coritiba, que já não está ganhando tanto assim. Acho que não teremos surpresas, não há nenhum clube correndo por fora.
Qual a lição da guerra de bastidores para a renovação do contrato dos direitos de transmissão para 2012, 2013 e 2014?
Não vejo outra rede de televisão no Brasil em condições de concorrer com a Globo. Pelo próprio esquema que ela montou na cobertura esportiva, por ter o pay per view, por ser sócia de TV a cabo, ter placas no estádio. Ela ajudou a organizar o futebol brasileiro. As tabelas estão sendo cumpridas hoje e sabemos em maio qual será a última rodada do Campeonato Brasileiro. Hoje não há favor, se um clube grande cair, ele caiu. Tudo isso tem o dedo da Rede Globo. As cotas aumentaram muito, os clubes estão recebendo dinheiro justo, vendem camisa, patrocínio, têm exposição na mídia. Quando vi essa conversa toda, sempre tive a sensação que a Globo conseguiria renovar com os clubes por sua tradição no esporte.
O maior jogador de futebol hoje no país.
O Neymar.
E o seu time de coração?
Atlético .