Aquela doença, doença ruim ou aquilo. Eram nomes que as pessoas usavam no passado para evitar pronunciar a palavra câncer, até então permeada de tabus. Hoje, embora o câncer não deixe de ser um problema grave, as pessoas vêm encarando de forma mais natural e enfrentando o tratamento, que costuma causar efeitos colaterais, como queda de cabelos, dores e enjoos, sem esconder o problema ou se entregar à melancolia. O Brasil teve como exemplos recentes desse comportamento o ex-vice-presidente da República José Alencar, ícone da luta contra a doença, e a atriz Drica de Moraes, que sobreviveu a uma leucemia.
Parte dessa maneira positiva de encarar o câncer deve-se sobretudo ao avanço do tratamento. A doença, que antes significava uma sentença de morte, passou a ser vista com fios de esperança em função de pesquisas, novas tecnologias e medicamentos que, em muitos casos, permitem a cura. Dados da Sociedade Americana de Oncologia, divulgados no início deste ano, apontaram cinco grandes avanços da oncologia relacionados a diagnóstico, prevenção, diminuição da mortalidade e aumento da sobrevida. Os dados foram revelados em relatório anual e estudos apresentados no Congresso de Câncer Gastro-intestinal da Sociedade Americana de Oncologia, em São Francisco (EUA). André Murad, oncologista mineiro que participou do congresso, destaca que estes avanços chamam atenção em relação aos bons resultados. Segundo ele, caiu o número de cânceres entre os homens – principalmente os tumores de próstata, pulmão e colorretal. As mortes pela doença também registraram baixa entre pacientes masculinos, apesar de a incidência global ainda ser alta. Com relação às mulheres, nos Estados Unidos, foram constatados declínios nos diagnósticos de cânceres de mama e colorretal. O Brasil, segundo Murad, segue a tendência norte-americana.
Pesquisador coordenador do serviço de oncologia do Hospital das Clínicas da UFMG, do Centro de Oncologia do Hospital Lifecenter e do Centro Avançado de Tratamento Oncológico (Cenantron) em Belo Horizonte, Murad cita também pesquisa da Universidade de São Paulo (USP). Estudo da instituição revela que a taxa de mortalidade por câncer entre mulheres nas capitais brasileiras caiu 10,5% entre 1980 e 2004. Entre os homens, a redução foi de 4,6%. Outra inovação apresentada no congresso foi o estudo realizado pelo Nacional Lung Screening Trial (NLST) para diagnosticar com mais eficiência e antecedência o câncer de pulmão. A técnica utilizada é a tomografia computadorizada em espiral com baixas doses de radiação. Foram estudados 53 mil fumantes e ex-fumantes. Metade passou pela tomografia e a outra metade não. A metade que se submeteu à tomografia foi diagnosticada mais precocemente.
O terceiro avanço é considerado o mais revolucionário por Murad. Trata-se da possibilidade de identificação de células tumorais a partir de um microchip que analisaria o sangue periférico retirado do paciente, como em um exame venoso comum. “A gente consegue ter acesso às células e pode estudá-las em laboratório, testar medicamentos, consegue saber se é mais ou menos agressivo”, diz. As conquistas também foram significativas em tratamento e qualidade de vida para as mulheres acometidas pelo câncer de mama, o mais frequente entre as brasileiras e o que mais mata. “Observamos técnicas cirúrgicas menos agressivas e, ainda, a melhoria do tratamento radioterápico e medicamentoso”, pontua.
O quinto avanço está no tratamento do câncer de ovário. Está em estudo a utilização de um medicamento que impede que o tumor desenvolva vasos sanguineos em torno dele, dificultando a alimentação do mesmo. O tratamento é feito combinado com a quimioterapia. Murad acredita que ainda neste ano estejam liberados a tomografia computadorizada em espiral e o remédio para câncer de ovário. O linfonodo sentinela já aplicado. Faltará o microchip.
Advogado aposentado, Ronaldo Costa Hime, 73 anos, é um dos pacientes benefeciados pelo avanço do tratamento do câncer nos últimos anos. Em 2005, ele recebeu a notícia do diagnóstico de um câncer no intestino. Submeteu-se à cirurgia, com sucesso. “Fiquei bom, mas em 2009 tive uma recaída com a presença de um nódulo no pulmão”, conta. Depois de novo procedimento, ele conta que fez sessões de quimioterapia por seis meses. “O tratamento é muito avançado, porque não tive enjoos, queda de cabelo. Saía um pouco mareado, mas logo estava bem”, conta o advogado, que hoje leva uma vida saudável. “Faço caminhadas, tenho uma alimentação balanceada, viajo, vou ao cinema. Minha vida continua a mesma e nunca tive medo de falar do problema que vivi”, diz.
Saiba mais:
Declaração Mundial Contra o Câncer
Instrumento criado para chamar a atenção para a meta de se reduzir até 2020 a abrangência do câncer no mundo
Objetivos a serem alcançados até 2020
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Reduzir significativamente o consumo do tabaco e do álcool e a obesidade no mundo;
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Assegurar a cobertura universal dos programas de vacinação contra a hepatite B e o Papiloma vírus (HPV) para prevenir o câncer de fígado e do colo do útero;
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Fazer com que o público seja mais bem informado, eliminando noções errôneas e mitos sobre a doença;
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Garantir melhores métodos de diagnóstico;
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Assegurar que todo paciente tenha acesso ao controle da dor;
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Ter equipes médicas mais treinadas;
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E aumentar as taxas de sobrevida dos pacientes com câncer.
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Onde assinar a Declaração? Site do Inca (www.inca.gov.br)
Estimativas de novos casos de câncer (2010)
Mama 49.240
Cólon e reto 13.310 (homens) / 14.800 (mulheres)
Pulmão 17.800 (homens) / 9.830 (mulheres)
Próstata 52.350
Estômago 13.820 (homens) / 7.680 (mulheres)
Pele 53.410 (homens) / 60.440 (mulheres)
Colo do útero 18.430
Tumores pediátricos 375.420*
* à exceção dos tumores de pele não melanoma
Cinco avanços contra o câncer:
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Redução da mortalidade
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Em estudo a utilização de tomografia computadorizada em espiral para diagnosticar câncer de pulmão
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Em estudo a utilização de microchip para identificação de células tumorais por meio do sangue do paciente, o que permitiria a pesquisa em laboratório sobre o tipo de câncer do paciente
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Utilização da técnica do linfonodo sentinela para identificar linfonodos afetados por câncer, o que pode evitar a dissecação completa da axila
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Em estudo a utilização de um medicamento para tratar o câncer de ovário, inibindo o crescimento de vasos em volta do tumor, isso permitiria maior controle da doença e tratamento mais eficaz
Fonte: Ministério da Saúde, Inca e oncologista André Murad