Quarta, 23 de Maio de 2012
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Família

Com idades entre 74 e 87 anos...,

...sete irmãs mineiras partem para Mormanno, Itália, cidade natal do pai

Texto: Eliana Fonseca | Fotos: Victor Schwaner


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De malas prontas para homenagear o pai na Itália

Ainda é segredo o que reserva a pequena Mormanno, comuna italiana com quase quatro mil habitantes na região da Calábria, província de Cosenza. Destino de sete irmãs mineiras, elas homenagearão o pai, Carmelutti Harmendani, morto em 1991, com essa visita à sua terra natal. Pichita,  Maria Auxiliadora, Ana Maria, Mazinha, Helena, Antônia Sílvia, Lourdinha, ficarão 12 dias na Itália. Elas não levam muitas referências de lugares quando se trata de Mormanno. A pista aqui e acolá são a certidão de nascimento e o nome da capela de batismo de Carmelutti, que servirão de ponto de partida para uma viagem sentimental em que percorrerão uma terra que o pai não conheceu, já que ele veio com menos de um ano para o Brasil. As irmãs se iluminam quando falam de paizinho, como carinhosamente chamam o pai, e consideram a viagem um momento único não só para homenageá-lo, mas também descobrir uma história da qual fazem parte.

Além das sete irmãs, mais cinco sobrinhas integram a caravana rumo à Itália. A ideia da viagem começou como uma fagulha no Natal passado, quando a cozinheira  Mazzarello Lanna, a Mazzô, filha de Pichita, falou dessa possibilidade às tias e à mãe. Mazzô conta que essa ideia nasceu como um motivo para reunir as irmãs num local agradável, interessante, para festejar. “A viagem era uma oportunidade para tudo isso”, diz.

Nenhuma das irmãs achou que a ideia fosse se concretizar. “Achávamos que era um negócio só daquele momento”, conta Anita. Mas, quando o roteiro começou a ser delineado, nenhuma delas achou ruim. Pelo contrário. “Estamos emocionadíssimas em poder homenagear nosso pai e viajar juntas”, afirma Maria de Lourdes.


Como não tinham dinheiro para voltar para São Paulo, meus avós preferiram ficar em Muriaé” Pichita Lanna
Como não tinham dinheiro para voltar para São Paulo, meus avós preferiram ficar em Muriaé” Pichita Lanna

É Pichita que começa a contar a história de Carmelutti, que veio com os pais e um irmão pequeno para o Brasil em busca de uma vida melhor. Chegaram em 1896 no porão de um navio, com um destino certo, São Paulo, de onde ouviram histórias da pujança e oportunidade. Mas, como a língua falada era um dialeto italiano, quem os recebeu entendeu que era São Paulo de Muriahé e os enviou para a hoje conhecida Muriaé, na Zona da Mata mineira. “Como não tinham dinheiro para voltar para São Paulo, meus avós preferiram ficar ali”, conta Pichita. Logo estariam em Ponte Nova.

Iniciava-se a história de Carmelutti, que começou a trabalhar ainda criança no comércio do irmão. Aos 12 anos, comprou a primeira máquina de costura para a mãe e aos 15 anos ele e o irmão mais velho deram aos pais uma casa para morar. Nos anos 20, a vida mudaria com o casamento com Maria da Conceição Drummond, filha do coronel Cantidio Drumond, e que lhe daria as sete filhas. “Paizinho nunca mais voltou à Itália”, diz Lourdinha.

Não havia nostalgia ou qualquer vontade de retornar à terra natal. Carmelutti era um italiano de nascimento, brasileiro de coração e com uma alma inglesa, segundo as filhas, por causa de sua discrição. “Era um homem mais calado”, afirma Mazinha. Logo elas brincam que, com oito mulheres morando em uma casa, era difícil para o pai se manifestar. “Ele era um homem respeitoso ao expressar sua opinião, no cuidado com a família”, diz Helena.

Carmelutti rodeado pelas filhas, numa de suas últimas fotos / Arquivo pessoal
Carmelutti rodeado pelas filhas, numa de suas últimas fotos / Arquivo pessoal

E bonito, a ponto de provocar ciúmes na avó Maria da Conceição, elegante, com um apuro tão grande ao se vestir, que fazia o alfaiate da cidade comentar que era um dos clientes mais exigentes. “A letra dele era maravilhosa”, elogia Antônia Sílvia. As lembranças jorram e elas começam a falar da habilidade e delicadeza de Carmelutti que fazia coisas impensáveis. Lourdinha ainda estava por nascer quando ele escreveu uma carta à esposa, como se fosse Papai Noel, falando do presente que seria o nascimento da filha para toda a família. 

Um dos passatempos prediletos era utilizar seu equipamento de radioamador, que era ligado religiosamente todos os dias às cinco da tarde. Também adorava o walk talk que ganhou de Maria Helena. “Quando ele morreu, aos 97 anos, lia os jornais do dia e estava antenado com seu tempo. Tenho certeza de que se estivesse vivo, estaria às voltas com um computador e internet”, brinca Lourdinha.

O roteiro da viagem das sete irmãs também inclui Roma e uma bênção especial do papa Bento 16, em audiência que será realizada no dia 8 de junho. A audiência foi marcada por Mazzô, que em 2007 cozinhou para o papa, no Mosteiro São Bento. O roteiro inclui ainda Assis, Positano, Amalfi, Praiano, Ravello e Mormanno. Quando chegarem à cidade do pai, Pichita, Maria Auxiliadora, Anita, Mazinha, Helena, Antônia Sílvia e Lourdinha já decidiram que uma das primeiras coisas que farão é uma oração, em que não só homenagearão o pai, como também relembrarão de todos os seus antepassados. “Meu pai era um homem que prezava sua origem. Será uma viagem memorável, muito especial para todas nós”, diz Lourdinha.


 
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