Entendo que a vida tem claramente várias etapas. A infância, da qual as lembranças são um pouco vagas com relação aos primeiros quatro ou cinco anos e vão crescendo até os doze anos. Acredito seja o período de maior felicidade. Sinto assim pela educação escolar que recebi no Grupo Pandiá Calógeras e no antigo Colégio Estadual, além da preciosa ajuda de meus pais. Naquele, minhas inesquecíveis educadoras dona Ema Ciodaro e dona Maria Inácia. Neste, por um corpo docente de nível universitário. Em ambos recebia-se o mais competente ensino das matérias curriculares e também os princípios fundamentais de ética, moral e disciplina.
E chegamos então à adolescência. A primeira namorada e as primeiras desilusões. Sonhos intensos. Os primeiros amigos para toda a vida, as grandes dedicações. E assim vamos para a próxima etapa.
A juventude. A maior idade. A carteira de motorista. Meu primeiro emprego com o saudoso Danilo Valle. O segundo, como vendedor da Editora Globo. Um salário e comissões que me permitiram comprar uma lambreta, a primeira geladeira para meus pais e todos os irmãos. Uma eletrola estéreo Telefunken que fazia o maior sucesso. As primeiras festas. Nossas reuniões no Bar Rolândia ou no Bob’s na praça Raul Soares. Não adianta procurar porque ambos não mais existem. O footing nas noites de domingo na praça da Liberdade e às quintas na praça Raul Soares. As inesquecíveis missas dançantes no Minas Tênis Clube aos domingos pela manhã. Os bailes de Carnaval no Minas, no Cine Tupi e no Cine Brasil. Também desapareceram. São lembranças. A segunda namorada, cuja paixão a gente acredita que vai ser eterna. Igualmente acaba.
E de repente chega a idade adulta. A responsabilidade aumenta. A vida social se inicia. A busca por um melhor emprego nos angustia. Aos vinte e um anos tornei-me chefe de publicidade do jornal Última Hora e aos vinte e cinco seu diretor-comercial. E acontece então a derradeira paixão. Vem o casamento e os filhos. E pouco depois os netos. Já são seis a esta altura. Uma família constituída, organizada e feliz.
Rapidamente chega-se à maturidade. Os quarenta anos que o poeta chamou, muito apropriadamente, de juventude da velhice. Já empresário, vamos conhecer as dificuldades de conduzir uma média empresa no Brasil. Vencemos todas. Como sabíamos eu e Deus. Hoje somente Ele é capaz de lembrar-se.
E chegamos finalmente à velhice. Um sexagenário. E vem então a pá de cal: a aposentadoria. E com ela as crises de ansiedade. Ocorrências de depressão. Os ansiolíticos. A hipertensão. Cuidados com o colesterol e o triglicérides. As cirurgias. Já foram sete. Felizmente todas bem-sucedidas, Estou me recuperando da última. E os medicamentos que fazem nosso pires mais colorido que o prato de salada.
Ultrapassamos então os setenta. Agora não tem mais jeito, pensei. Descobri então um santo remédio, recomendado por um psiquiatra argentino e autor de vários livros de sucesso: Jorge Bucay.
Sua recomendação: arranje uma AMANTE.
Depois de ouvir as tradicionais queixas de insônia, ansiedade, apatia e pessimismo, e os diagnósticos de outros colegas que identificam depressão e naturalmente a receita de antidepressivo, ele indica a melhor solução: você precisa de uma AMANTE.
Em vez de perambular por consultórios médicos e ir levando a vida, diz ele, seja um amante e protagonista de sua própria VIDA.
E INSISTE. Ir levando é ter medo de viver. É se deixar dominar pelas pressões, que acabamos sentindo de forma exagerada. É se aborrecer com facilidade. E vem o conselho final: PARA ESTAR SATISFEITO, ATIVO E SENTIR-SE FELIZ É PRECISO NAMORAR A VIDA.
Com o consentimento de minha mulher, cuja autoestima é das maiores que conheço, vou me apaixonar pela vida. Espero ser correspondido.
Hermógenes Ladeira, empresário