Não foi um mês de maio dos melhores para a presidente Dilma Rousseff. Desde que assumiu o governo, em janeiro, a presidente vinha bem. Seus índices de popularidade sempre em alta, sua atuação elogiada, mas eis que o suposto escândalo envolvendo o ministro Antonio Palocci paralisa o governo e deixa a presidente na defensiva – suposto escândalo porque não foi provado que o ministro tenha de fato se enriquecido ilicitamente como acusa a oposição. É inegável que a curva de aprovação da presidente caiu, ainda que as pesquisas vindouras possam mostrar que ela continua acima da média. Mas será que o caso Palocci teve tamanha força assim que foi capaz de paralisar o governo? Há controvérsias, dir-se-á. De fato, o caso Palocci parece a parte mais visível dessa paralisia que tomou conta do governo. Mas pode não ser a única causa. É de observar que em política não existe espaço a ser preenchido, portanto vazio. Se o governo não o ocupa, a oposição o faz – ou vice e versa. Foi o que aconteceu. Antes mesmo do caso Palocci, o governo já dava mostras de apatia. Dilma, no entanto, em contraste com seu antecessor, era aplaudida pela mídia e tratada com moderação pela oposição.
Nesse cenário, o governo comete o seu primeiro e decisivo erro: gosta dos elogios e acredita neles, sem perceber que na verdade os encômios não tinham como objetivo o enaltecimento da figura da presidente Dilma, mas a desconstrução da imagem pública do ex-presidente Lula, que deixou o poder com os maiores índices de popularidade de que se conhece, mas brigado com a grande mídia, o que merece estudo acadêmico, por sinal. Nesse embalo, a presidente se enclausurou, e permitiu que a oposição crescesse, ainda que de maneira titubeante. Essa retração da presidente coincidiu, no início de maio, com a pneumonia que a acometeu, deixando o governo mais inativo ainda. Foi nesse momento que a imprensa e a oposição perceberam a guarda baixa do adversário e encaixaram o golpe com a denúncia de suposto enriquecimento ilícito do ministro Antonio Palocci, não por acaso, o homem forte do governo, ainda que estivesse falhando na sua missão de articular-se com o Congresso e a sociedade civil.
Zonzo com o golpe, atribuído aos tucanos paulistas e a um jornal também paulista, o governo dobrou os joelhos e recebeu mais duas pancadas que, por pouco, não o jogaram na lona: a derrota para os ruralistas na votação do novo Código Florestal e o recuo para a bancada evangélica que exigiu a supressão do kit anti-homofobia, sob a ameaça de votar pela convocação de Palocci para depor na Câmara sobre a sua rápida variação patrimonial. Era o fim. Ou quase. Daí a entrada em cena do ex-presidente Lula, que acorreu a Brasília para fazer o que Dilma não gosta de fazer e Palocci não podia por razões óbvias: política. Em dois dias Lula fez o que os dois não fizeram em cinco meses. Chamou o PT à responsabilidade, adulou os aliados rebelados, reuniu o que pôde da base, aconselhou Dilma a se movimentar mais e puxou a orelha de Palocci para descer do pedestal e conversar, isto é, atender aos pleitos dos políticos até aqui represados, dizem que por orientação da presidente que não pretende banalizar as nomeações do segundo escalão.
Se vai dar certo, não se sabe ainda. Mas é evidente que o governo não pode ficar acuado como esteve nesse mês de maio. Foi a timidez, a falta de imaginação da equipe, a retração da presidente e uma certa arrogância de alguns ministros que encorajaram a oposição a partir para o ataque contra um governo que até aqui batia recordes de aprovação e caminhava para reinar soberanamente. Já nos últimos dias de maio, Dilma parecia disposta a cumprir a receita de Lula, reunindo-se com parlamentares e lideranças partidárias na tentativa de sair da defensiva e retomar o ritmo dos primeiros três meses de governo, quando sua ação foi tão intensa que simplesmente desarticulou a oposição a ponto de colocar o Democratas e o PSDB em crise de identidade – o primeiro ameaçado de extinção pela ação do prefeito Gilberto Kassab, de São Paulo, e o segundo engalfinhando-se numa briga interna infernal pelo controle partidário. Agora é esperar o que vão dizer as pesquisas que a essa altura já estão no forno. E, na perspectiva do governo, que a presidente possa recuperar o controle da ação política perdida para os adversários nesse mês de más lembranças.