Para eles, a vida é como estar em uma montanha-russa gigante, cheia de altos e baixos e repleta de fortes emoções. Entretanto, diferente do que possa parecer, não há nada de divertido nesse sobe e desce repentino. Ao contrário, esse movimento representa, muitas vezes, oscilações bruscas de humor que vão da euforia à depressão e que trazem consigo inúmeros problemas para a vida de quem é vítima desse tipo de distúrbio da mente, que acomete de 3% a 7% da população em todo o mundo: o transtorno afetivo bipolar (TAB), também chamado de transtorno bipolar do humor (TBH).
Durante muito tempo, a patologia foi denominada de psicose maníaco-depressiva (PMD), nome que, para muitos especialistas, gerava desconforto para os pacientes e não expressava a real desordem mental provocada pelos altos e baixos do humor. Nos últimos anos, porém, o distúrbio se popularizou graças a uma associação comum – e polêmica – que se faz entre bipolaridade e criatividade. Inúmeras personalidades, sobretudo ligadas ao mundo das artes passaram a integrar uma lista vip de pessoas que têm ou tiveram a doença (ver quadro). De acordo com o médico psiquiatra Ismael Gomes de Oliveira Sobrinho, há, de um lado, argumentos evidenciando que os estados de humor depressivo e eufórico poderiam aumentar a percepção do ambiente e do mundo de modo a manifestar e/ou aumentar uma criatividade latente. Por outro, existem estudos que demonstram que a criatividade é prejudicada em um paciente em crise, sendo a mesma muito mais fator genético que fruto de associação com a bipolaridade.
O professor-adjunto do departamento de saúde mental da Faculdade de Medicina da UFMG, que também é um dos coordenadores do ambulatório de transtorno bipolar do Hospital das Clínicas, Fernando Silva Neves, é ainda mais enfático. “Não acredito que pessoas portadoras do TAB são mais criativas do que o restante da população. É possível que durante os episódios depressivos leves os indivíduos possam ter a sensibilidade aguçada, o que pode favorecer reflexões literárias profundas. Nos episódios graves, porém, os pacientes costumam estar incapacitados de realizar atividades produtivas, artísticas ou não.”
Seja qual for a relação, vale ressaltar que não existe nenhum glamour em ser bipolar. O distúrbio pode, inclusive, levar ao suicídio ou à incapacitação do indivíduo. A escritora e poetisa Cássia Janeiro, 44, autora de livros como A Pérola e a Ostra e Tijolos de Veneza, sabe bem o que isso significa. Há cinco anos, ela foi diagnosticada como bipolar. Entre os inúmeros problemas que a doença trouxe para a sua vida estão quatro tentativas de suicídio. “Desde a adolescência vivia as coisas com muita intensidade e acumulava uma energia extraordinária para o trabalho. O problema é que não reconhecia os meus limites”, conta.
Para a sociedade, a criatividade geralmente é considerada essencial para quem tem profissões como a de Cássia. A escritora, contudo, acredita que a relação entre a doença e a inventividade é fruto de uma visão romântica, glamourizada. “Alguns acham que os bipolares sentem orgulho disso e usam a doença para se promover quando artistas. Acho que temos de nos ater aos fatos, a estudos científicos.”
Atualmente, há duas abordagens sobre o tema. A psiquiatria clássica faz distinção entre dois tipos de bipolaridade: o tipo I, que seria a forma mais grave, e o tipo II, mais branda. Levando-se em conta essa teoria, o TAB acometeria de 3% das pessoas em todo o mundo. Há cerca de 10 anos, entretanto, uma outra classificação vem sendo utilizada. Essa aborda transtornos do espectro bipolar e considera que há quatro níveis da doença, além da ciclotimia (ver quadro). A diferenciação é feita pela intensidade em que ocorre a alteração de humor. Considerando-se essa linha de pensamento, os bipolares seriam até 7% da população mundial.
A banalização do diagnóstico é outra preocupação dos especialistas, causando a impressão de que ser bipolar está na moda. Isso se deve ao fato de o termo vir sendo utilizado por leigos para designar toda e qualquer alteração de humor. “A vulgarização de conceitos científicos é muito comum em nossa sociedade, especialmente porque a informação é hoje um importante objeto de consumo”, afirma o psicólogo e psicanalista João Carlos Vale. Mas como diferenciar o humor normal do patológico, já que, na vida, todos atravessamos fases de euforia e tristeza? A diferença está na desproporção entre as circunstâncias e as reações, explica o psiquiatra Ismael Sobrinho.
O diagnóstico de TAB em crianças e adolescentes também tem se tornado cada vez mais frequente, apesar de a doença ser mais difícil de ser identificada nesses casos. Os sintomas mais frequentes nesses pacientes, de acordo com o psiquiatra Fernando Silva Neves, são hipersexualidade, grandiosidade, irritabilidade e comportamento impulsivo. A elevação do humor, que é o diagnóstico-chave em adultos, é mais rara de ser encontrada em crianças, explica o especialista.
Em geral, a forma clássica do transtorno bipolar tipo I se manifesta entre os 15 e 30 anos. Foi o que aconteceu com o empresário e estudante de marketing Eduardo Júnior Alves Costa, 21. Ele descobriu que era bipolar há cerca de um ano. Os primeiros sintomas, porém, já haviam se manifestado na adolescência. Chegou a dirigir perigosamente, colocando a vida em risco, a fazer gastos desnecessários e a chorar sem saber o motivo. Recusava-se a procurar um médico, pois não achava que estava doente. Em uma das crises, cedeu à pressão dos pais e procurou ajuda especializada. Hoje, medicado e fazendo acompanhamento médico regular, leva uma vida normal. “O primeiro passo foi aceitar a doença”, diz.
Autor do livro Temperamento Forte e Bipolaridade – Dominando os Altos e Baixos do Humor, o médico psiquiatra e pesquisador em neurociências, Diogo Lara, reforça que o tipo de temperamento é o alicerce do humor e que, por consequência, os possíveis transtornos de humor são também compatíveis com o temperamento. Fatores genéticos e ambientais podem determinar o aparecimento do TAB. A história de Cássia Janeiro, mais uma vez, é exemplo claro dessa relação. “Durante uma crise grave, reconheci a doença, pois muitos membros da minha família sofreram profundamente com ela”, relata. O abuso de medicamentos para emagrecer, antidepressivos, maus hábitos de sono e elevadas cargas de estresse podem ajudar a desencadear o problema em pessoas predispostas.
A doença não tem cura, mas pode ser controlada com tratamento adequado, que inclui o uso de estabilizadores de humor, psicoterapia e psicoeducação (ver quadro). Entretanto, uma das principais dificuldades em relação ao tratamento é o fato de que muitos bipolares acham que não têm qualquer tipo de problema. Isto ocorre porque, em algumas pessoas, a doença apresenta um curso em que predomina a elevação do humor. “Nesses casos,8 como a sensação de prazer predomina, as pessoas não se sentem doentes”, esclarece o psiquiatra Fernando Silva Neves.
Talvez isso explique porque William (nome fictício), 33, não quis dar segmento ao tratamento indicado pela médica que o diagnosticou como bipolar. Aos 29 anos, ele foi aposentado devido aos diversos problemas que teve em decorrência da doença. Em um dos episódios de crise, William chegou a agredir e a ameaçar com arma um cliente da agência bancária em que trabalhava como segurança após um acesso de fúria. Mesmo assim, ele se recusou a continuar tomando os medicamentos indicados pela especialista. “Eram oito remédios por dia e, depois que os tomava, eu ficava fora do ar”, argumenta. William, que prefere não se identificar para evitar possíveis retaliações de pessoas próximas, diz que não se sente doente. “Não tenho essa percepção. Acho que é meu jeito de ser.”
A escritora Cássia Janeiro conta que também deixou a medicação convencional de lado. “Na medida em que comecei a descobrir minha farmacopéia interior, a estudar nutrição, a praticar ioga e a mudar meu estilo de vida, senti-me apta a deixar os remédios. Pedi ajuda ao meu médico que, a princípio, negou. Depois, vendo que eu faria isso com ou sem a sua ajuda, ele resolveu diminuir as doses até parar de vez”, relata a escritora, que afirma estar curada.
O psiquiatra Diogo Lara diz que mudar o estilo de vida traz benefícios para o paciente, mas alerta que abandonar a medicação pode ser extremamente perigoso e um grande passo para que novas crises ocorram. Ele explica que alguns bipolares agem assim porque se sentem onipotentes. “Por não terem medo das consequências e agirem com certa arrogância, devido à sensação de poder que possuem, acham que não precisam tomar medicamento e essa é uma decisão perigosa.”
O apoio de familiares e amigos é fundamental para que os pacientes tenham vida normal. “Compreender os sintomas não como um jeito de ser da pessoa, mas como doença, alivia muito e reduz o sentimento de culpa no deprimido. Já o doente em euforia requer firmeza e paciência, porque o relacionamento se torna mais desgastante”, diz Ismael Sobrinho. Ao que parece, nessa montanha-russa de emoções, o ideal é tentar encontrar o equilíbrio