Temos profunda necessidade básica de manter uma conexão segura e confiável com outra pessoa, e saímos pela vida à cata de alguém capaz de nos oferecer tranquilidade, carinho, proteção – em outras palavras, vamos em busca do amor. Desejamos manter por perto quem nos inspira sensações ternas, para podermos usufruir de um vínculo de dependência afetiva – mútua, de preferência. A dependência é, e sempre foi, uma questão ligada à sobrevivência: o bebê necessita de um vínculo forte e confiável com a mãe. Essa necessidade nos acompanhará ao longo da vida, sob a forma de demanda de contato emocional. Estar fortemente vinculado a alguém permite-nos experimentar deliciosa e relaxante sensação de segurança – sentimos que o parceiro responderá a nossos apelos porque se importa conosco, gosta da gente e é sensível às nossas carências afetivas. A solidão é traumática para os seres humanos, pois se inscreveu em nossa subjetividade como perigo, ameaça. É castigo milenar, que varia do “criança, vá para o seu quarto!” com que os pais costumam disciplinar os filhos, à pena de reclusão carcerária aplicada aos criminosos – sendo a detenção na solitária castigo ainda maior. A experiência amorosa tem seus percalços. Na valsa da vida, algumas vezes nos afastamos da pessoa querida; em outras tantas, embaralhamos nossas pernas e tropeçamos fora do ritmo. Por uma série infinda de motivos, muitas vezes banais, experimentaremos momentos de desconexão afetiva. A perda da proximidade emocional ameaça nossa segurança. Se o afastamento for vivenciado como abandono, poderemos entrar em pânico. Na verdade, a qualidade da relação amorosa ao longo do tempo dependerá de como se vai reagir aos inevitáveis momentos de afastamento. Podemos elaborar o acontecido, dar meia-volta e retomar a conexão. Se isso não for possível, começaremos a sentir que o outro ficou realmente distante. E surgirão diálogos ásperos, repletos de mágoas e ressentimentos – dois dos piores conselheiros que se pode ter.
As mulheres costumam ser mais sensíveis aos primeiros sinais de desconexão e sua reação geralmente segue direção comum: tentarão desesperadamente obter a atenção do parceiro, mas de um modo que apenas promete confirmar aquilo que temiam – o parceiro não liga mais para elas. Tendem a culpá-los integralmente pelo que está acontecendo. A maioria dos homens aprendeu a esconder suas necessidades afetivas, e não entrar em conflito, exacerbando o distanciamento emocional. A raiva delas e o silêncio deles são apenas máscaras que escondem a vulnerabilidade, a insegurança e o desejo de proximidade, que agora está sob ataque do medo de perder e da tristeza que essa perda acarreta, já sentida antecipadamente. Do ponto de vista da teoria do vínculo, as brigas surgem como reação ao distanciamento emocional – não sendo apenas conflitos de poder, como preconizam certas correntes de psicoterapia.
Os homens costumam reclamar de que suas mulheres não conseguem compreender que tudo que eles fazem – trabalhar, trabalhar e trabalhar, na maioria das vezes – é seu jeito de dar carinho. “Elas parecem querer só abraços, beijos e palavras de amor”, reclamam. Eles costumam se esquecer de que também gostam de abraços, beijos e palavras de amor. Brigas de amor costumam ser protestos contra a desconexão afetiva. O que se quer de fato é saber se o outro ainda se importa, se ainda confia, se ainda deseja o relacionamento. Grande parte das desavenças se esvazia assim que um dos parceiros resolve desistir de brigar e se aproxima carinhosamente do outro.