O governador Antonio Anastasia e o senador Aécio Neves já devem ter percebido que os tempos são outros. A base do governo na Assembleia, também. De fato, de algumas semanas para cá cresceu o ânimo da oposição na Assembleia, com os deputados do PT, PMDB, PRB e PC do B não deixando nada passar em branco, ainda que tenham de criar alguma coisa. Criaram por exemplo um blog, Minas sem Censura, que é abastecido diariamente por notas, discursos, recortes de jornais, entrevistas e notícias que têm, como alvo, o governo do estado e a figura do senador Aécio Neves. O líder do bloco é o deputado Rogério Correia, de larga experiência legislativa, que tem o estímulo recente de uma desfeita que diz ter sofrido do senador Aécio Neves. Durante os funerais do ex-vice-presidente José Alencar, segundo o deputado, Aécio o deixou com a mão no ar, recusando-se a receber o seu cumprimento. “Uma coisa acintosa”, diz Rogério Correia.
Mas nem sempre foi assim, reconhece o próprio deputado petista. De fato, no início do governo Aécio, o então presidente Lula, durante almoço no Palácio da Liberdade, chamou dois ou três deputados petistas que estavam numa roda e os recomendou que tratassem bem o então governador, “pois é um dos nossos”. A bancada do PT na Assembleia acatou a recomendação de Lula, menos Rogério Correia, que, como conta, foi chamado à atenção em Brasília, após uma série de ataques ao então governador. “Puxaram minha orelha feio”, lembra o petista. Com efeito, era uma época em que Lula e Aécio conversavam quase toda semana e em que, pela menos uma vez, o tucano salvou o pescoço de Lula: na CPI do mensalão, a oposição pensou em pedir o impedimento do presidente. As forças leais a Lula se mobilizaram e coube ao então ministro Ciro Gomes pedir a ajuda do tucano Aécio Neves. O então governador saiu a campo e acalmou os tucanos mais alvoroçados, além de aliados no Democratas.
Mas, ao que parece, a orientação agora é outra. Ou não há orientação alguma. O que há é a formação de bloco de 23 deputados que se organizaram como nunca fizeram nesses últimos 10 anos para fazer oposição ao governo – o atual e o anterior. Esse bloco, aliás, foi formado no início da legislatura, quando o governo formou o blocão da maioria, com 54 deputados, e forçou com o arrastão partidário a aglutinação dos 23. É evidente que a desproporção dos blocos não dá muita chance à oposição, mas não é capaz de tirar dela aquilo que dá vida aos que se opõem aos governos, em qualquer lugar: o barulho.
E não adianta o governo reclamar. Toda oposição é assim, faz barulho, incomoda, apega-se a pequenas coisas, quando não há grandes, pede criação de CPI por qualquer coisa – às vezes consegue emplacar uma e quando não emplaca acusa o governo de massacrar a minoria – de forma que é assim que as coisas funcionam. E é melhor que haja oposição, por mais barulhenta e pouco efetiva que seja, do que não ter nenhuma. No caso mineiro, o que se verifica é a oposição, inexistente nos oito anos do governo Aécio, por inaptidão ou recomendação de Lula, renascendo para tirar o atraso.
O que resta à base aliada, majoritária na casa, é usar a sua força, não para massacrar a oposição, mas para fazer prevalecer o diálogo e com isso garantir o funcionamento harmônico do Legislativo. É evidente que à oposição não se deve pedir moderação. É forçoso, no entanto, que ela se atenha aos limites da lei e do senso ético, evitando os ataques pessoais e o dano à honra do governante. Da mesma forma que o governo deve garantir o direito à existência da minoria, por mais barulhenta que ela possa ser. É assim que funcionam as democracias,aqui e alhures.
Carlos Lindenberg, jornalista