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EntrevistaPerigo realO economista e ex-secretário da Fazenda em Minas Gerais afirma que a inflação é realmente um monstro prestes a atacar e que governo e Banco Central deveriam ser mais tradicionais no seu combate
Texto: Flávio Penna | Fotos: Pedro Vilela
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Quando o senhor fala em expectativas, como falou lá atrás, quer dizer que a indexação está voltando?
Eu não acho que já exista qualquer movimento mais significativo neste sentido. Alguma indexação sempre ficou, restou. Mas este é um dos temores. Nós vivemos décadas com mecanismos sofisticados de indexação e as pessoas não se esqueceram totalmente disso. Os agentes econômicos, as empresas, os bancos, as pessoas. Então um dos perigos é este. Não há ainda uma generalização, mas alguns contratos, como aluguéis, vão sofrer forte pressão pois estão indexados a índices de preços. Agora, sob o ponto de vista do funcionamento da economia de uma maneira geral, eu não percebo isto ainda.
Hoje ele é benigno. O câmbio nunca esteve tão baixo, do real para cá. Ele aumenta a demanda, facilita uma série de atividades que acabam engordando a demanda e sobretudo traz os impactos no balanço de pagamento que a gente já está sentindo.
Claro que tem. É um componente que adiciona robustez na demanda, sem dúvida nenhuma. O crédito é um instrumento poderosíssimo, para o bem ou para o mal. Eu diria que neste momento ele ainda está para o bem. O crédito possibilitou o aumento da taxa de crescimento da economia brasileira, e isto é benigno. O crédito possibilitou o aumento da produção, do emprego, da renda, formando um círculo virtuoso. Aumentando a produção, aumenta o emprego, que cresce renda e, aí, maior capacidade de acesso ao crédito. Então se sua renda aumenta, a capacidade de fazer operações de crédito aumenta também. Mas tem uma âncora, que é sua renda. O crédito é a grande invenção da humanidade, pois permite crescer muito mais rápido. Agora, num quadro em que você tem uma demanda, principalmente do setor público, enorme, uma pressão, com a liberalização do crédito, ou a concessão do crédito desordenada, aí ele passa a ser um mal, uma bomba relógio. Como foi a crise de 2008. Pode ser. E mais, elas podem gerar efeitos altamente indesejáveis e não eliminar o problema como se pretende. Pode gerar o efeito colateral de desorganizar o mercado de crédito, que é muito importante. Agora, já está havendo uma acomodação. O primeiro trimestre de 2011 não foi igual aos sucessivos trimestres do ano passado. Isto na concessão de crédito e na economia de modo geral. Existem segmentos que estão claramente numa tendência declinante. Por exemplo, o crédito consignado, o crédito ao consumidor para a compra de veículos, são segmentos que já apresentam crescimento bem inferior aos dos trimestres passados.
O ministro Mantega tem dito que a partir do segundo semestre a situação melhora.
Na minha opinião tinha que estar mais elevada. A inflação está em alta. Esta questão do câmbio é complicada sim. Mas eu acho que tem que ser feito. Com este negócio de inflação não se pode brincar, não. Manter a inflação sob controle deve ser prioridade. |
Quais caminhos seguir: câmbio controlado?
Não creio que seja o caminho. Você tem vários outros. Desoneração da folha de pagamentos. Reformas, por exemplo. Diminuição do custro Brasil. Diminuição do custo de infraestrutura. O governo não fala sobre isto. Um governo que tomou posse há seis meses está parecendo velho. Porque em vez de medidas prudenciais, tradicionais de controle da inflação, por que não encarar o chamado custo Brasil, melhorar a rentabilidade dos exportadores, já que o câmbio é apontado como fator que prejudica o setor?
Reflete, sim, nas arrecadações estaduais, mas o descontrole da inflação é pior.Também não interessa. A reforma tributária, por exemplo, não interessa aos governadores por medo de perder receitas. E é legítimo este receio. Qualquer prefeito, governador, presidente tem receio de perder receita. Agora, antes de uma reforma tributária estrutural, que considera muito difícil, é possível outros ajustes menores. A desoneração da folha é um destes ajustes. Dar mais racionalidade ao ICMS é outro ajuste possível.
Não é cortar. É parar de dar. Se você não pode cortar por problemas legais, que pelo menos pare de dar. O que nós assistimos nos últimos anos foi exatamente isto. Não só não cortou, por questões de previsão constitucional, como foram dados aumentos muito altos
As duas coisas. E há aí claramente o viés ideológico. Uma proposta de um estado mais intervencionista. Como definiu o Armínio Fraga num artigo recente, é a volta do estilo nacional-desenvolvimentista em que é reservado um papel mais proeminente ao estado. Claramente tem este viés. E aí a crise de 2008 e as respostas de todas as economias à crise, abriu-se um espaço para se criar um pretexto para o crescimento do estado novamente. Satanizou-se o chamado neoliberalismo em favor de uma maior intervenção do estado. Com a crise desencadeou-se uma série de mecanismos que fazem com que a presença do estado aumente, que já poderiam estar desligados.
Este é um dos problemas do Brasil. A taxa de investimento pública é pequena. Para trazer a taxa de investimento agregada, setor público e iniciativa privada, é preciso esforço. O setor público tem um consumo excessivo de sua receita com o custeio, impedindo o aumento dos investimentos. Este problema, nos últimos oito anos, atingiu mais o governo federal do que os estaduais.
A pressão vai continuar nos próximos meses. Há uma sequência de eventos micros, específicos relativos a reajustes de tarifas. Há a questão do combustível. Caso a pressão sobre os preços internacionais do petróleo se mantenha, vai exigir uma definição por parte da Petrobras, do governo. O reajuste das tarifas de energia elétrica não é bom, do ponto de vista das expectativas inflacionárias. A pressão sobre os preços das commodities continuam, apesar de uma aparente superação de um pico do ano passado. Os serviços no Brasil estão muito pressionados em demanda e, consequentemente, nos preços. Isto causa um estrago tremendo nos índices. E há um outro problema que ficou muito evidente em março, que foi a dispersão dos índices de preços no interior dos índices de preço. Estes índices têm uma configuração própria e até o início do segundo semestre do ano passado era possível dizer que a pressão estava muito concentrada em alguns desses itens. Hoje, a dispersão dos aumentos é quatro vezes maior do que era no meio do ano passado. Fica muito mais difícil de controlar. E aí nós voltamos ao início de nossa conversa quando falamos sobre a ambiguidade que se alojou no seios das decisões da política econômica. |
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