São 60 anos de Brasil e 40 de Minas Gerais.
A Fiat começou em São Paulo, uma instalação mais comercial, embora tivesse uma pequena montagem. Depois foi comprada esta fábrica de Contagem. O governo de Minas, por meio governador Israel Pinheiro, comprou quase 500 tratores de esteiras para fazer as estradas do interior do estado. O governo mineiro então colocou no contrato a condição de que a montagem fosse aqui em Minas. A Fiat decidiu então procurar, dentro de seus quadros na Itália, uma pessoa para tocar este projeto. Eu fui o escolhido. Mostraram-me no mapa onde ficava Belo Horizonte. Fiquei uns três ou quatro meses em são Paulo antes de vir para cá. Aí comecei a descobrir a regionalização do Brasil. No período que fiquei em São Paulo, acreditava que já falava o português e entendia o brasileiro. Quando cheguei em Minas não entendia nenhuma palavra. É que o português de São Paulo tem forte influência italiana. Mas por causa da hospitalidade do mineiro rapidamente me adaptei. Em Contagem nós chegamos a adquirir um terreno, mas até por indicação do governo de Minas acabamos comprando a fábrica da Deutz, também de tratores, que estava desativada. Aí iniciou a história da Fiat em Minas. Em 1971, um ano após a compra, a fábrica foi inaugurada pelo então governador Rondon Pacheco e nós começamos a produzir máquinas de construção. Com a inauguração da fábrica, a Fiat e o governo de Minas se empolgaram e nasceu o projeto dos carros.
Quando a fábrica começou a funcionar era apenas para montagem?
Não só montagem, mas também a fabricação de componentes. Quando começamos, tínhamos em torno de 40% de nacionalização de nossos equipamentos. Hoje nosso nível de nacionalização está em torno de 90%. Então nossos 60 anos começaram com a importação em São Paulo. Aqui nós começamos como fábrica.
O que é produzido hoje em Minas?
Máquinas para o setor de construção, como trator de esteira, pá carregadeira, motoniveladora, escavadeira hidráulica, entre outros. Produtos Case e da New Holland. Nas outras fábricas, Curitiba, Sorocaba e Piracicaba, produzimos equipamentos agrícolas, tratores e colheitadeiras. Estas fábricas foram incorporadas dentro da Fiat com o tempo, quando nós compramos a New Holland e depois a Case. Formamos um conjunto de fábricas que é o maior do Brasil para a produção de máquinas de construção e agrícolas.
Quando fala em máquinas para construção, são equipamentos também para o setor de mineração?
Sim, são as mesmas. Nossas máquinas são para a construção de estradas, construção civil em geral, para infraestrutura, como redes de água, esgoto. Nossa linha para a mineração compreende pás carregadeiras, escavadeiras hidráulicas, tratores de esteira e motoniveladoras.
O senhor conhece bem o país e o nosso mercado. A empresa enfrentou dificuldades também, não?
Bastante. Nós começamos a produzir máquinas para construção, o segmento agrícola começou depois. No início foi muito bom. Havia todas aquelas obras do período militar. Naquele tempo o mercado brasileiro era muito forte, um dos melhores do mundo. O mercado chegou a demandar 30 mil máquinas por ano. Depois, no final do governo militar e nos dos anos 80 e 90, veio uma crise muito forte e as obras de infraestrutura praticamente sumiram. Aí nosso mercado de 30 mil, baixou para 5 mil. E isto foi por 15 anos. Depois voltou a crescer, e em 2010 chegamos a 23 mil máquinas. Só para comparação: o mercado da China é de 340 mil máquinas e dos Estados Unidos, que está em crise, 99 mil. Aqui há espaço enorme para ser preenchido com investimentos em obras de infraestrutura. O governo sabe disto, conhece os problemas. Quem vê as obras que estão sendo projetadas sabe que o país vai precisar de muitas máquinas. Para se ter noção desta demanda, o Nordeste é hoje um canteiro de obras e já representa 20% do mercado. Antes não passava de 6%.
O governo continua sendo grande comprador?
Não, ele é o maior fomentador. As construtoras e os particulares são os maiores compradores. Na fase de grande crescimento dos anos 70 o governo representava 50%, incluindo estatais. Hoje as compras do estado representam 30%.
E as perspectivas do setor de máquinas agrícolas?
Só para você ter uma ideia, há 10 anos, a safra agrícola brasileira era de 70 milhões de toneladas e agora é de 150 milhões. Quando eu falava que era possível chegar a este total, olhavam para mim, não o produtor, que este sabia ser possível, com desconfiança. Agora não sei se dá para dobrar novamente, mas para chegar a 200 ou 230 milhões de toneladas acho que dá, tranquilamente, sem derrubar nenhuma árvore. Então há um enorme mercado de máquinas a ser atendido, pois a cada x de produção, há necessidade de x máquinas, muito embora os equipamentos de hoje sejam mais eficientes e de maior produtividade. Na realidade, a eletrônica utilizada nos equipamentos, tanto para a construção quanto para a agricultura, é muito maior do que a utilizada nos carros, nos caminhões. Por isso que os melhores operadores destes equipamentos hoje são as mulheres que são mais caprichosas e cuidadosas. Até mesmo os tratores básicos, usados principalmente na agricultura familiar, ganharam muito em tecnologia, melhorando sua rentabilidade e reduzindo os custos com combustíveis.
O acesso a estes equipamentos hoje é mais fácil?
Sim, hoje há programas de financiamentos com juros subsidiados pelo governo. Agora vemos muitas famílias que antes produziam com pouca rentabilidade, trabalhando na enxada, tendo acesso ao seu primeiro trator, colheitadeira, ou outro implemento, que lhes permite aumentar seus ganhos e a produzir com lucro. O governo Lula deu oportunidade para estas pessoas, que se descapitalizaram por causa da inflação, a se recuperarem por meio dos planos de financiamento. Hoje 30% da venda de tratores é na agricultura familiar. Isso ajudou até a conter o êxodo rural.
O senhor está no Brasil há 40 anos e já viu muitos altos e baixos de nossa economia.
Sim, mas sempre ascendente. Hoje o Brasil tem bases econômicas e sociais que permitem um crescimento econômico e social contínuo. É importante continuar porque há como agregar mais pessoas no círculo virtuoso atual. Acho porém que precisamos dar mais valor agregado às nossas exportações. Temos que nos esforçar para isso. A mão de obra brasileira é muito boa. Agora para enfrentarmos o mercado internacional temos que reduzir o custo Brasil que é alto demais e ainda temos que resolver a questão da valorização do real. O mercado internacional está tomando rumos diferentes. A gente sente este peso e estamos apoiando o governo para serem tomadas medidas para melhorar a competitividade no país, especialmente no setor industrial, e enfrentar a ação de outros países que extrapolam a competitividade verdadeira com suas práticas econômicas.
Mas mesmo diante das dificuldades de exportação, estão com a capacidade de produção esgotada?
Neste momento, em nível nacional, estamos com 4 mil funcionários, sendo 1.100 em Contagem, onde produzimos, em 2010, o total de 7.250 máquinas. Estamos com a capacidade praticamente tomada. Já compramos um terreno ao lado para ampliação, mas muito provavelmente em alguns poucos anos vamos precisar de mais uma fábrica. Mas agora estamos mais focados é na modernização dos modelos que estamos fabricando. Até 2014 vamos ter toda a linha agrícola e a de construção nova. Toda a linha completamente modernizada.