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ComportamentoEle e ela...... que, somados, são uma só pessoa. São os crossdressers, homens com H que adoram se vestir com trajes femininos
Texto: Raquel Ayres | Fotos: Victor Schwaner
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CONVERSA ÍNTIMAO cartunista Laerte fala, com mais detalhes, de como é ser crossdresserSabe dizer quando surgiu a vontade de vestir-se com roupas femininas? Já estou metido neste processo há algum tempo e a aproximação com este universo foi gradual, o que faz o assunto ser tranquilo. À medida que tomo contato com as pessoas, vou recolhendo reações e impressões: estranhamento, recusa, apoio, simpatia. Sempre gostei de costura e cozinha, por exemplo. Mas não me lembro de, em criança, experimentar roupas femininas. Mas havia um modo diverso de aderir aos jogos masculinos: por exemplo, jogar bola sem precisar contar pontos ou competir. As pessoas se mostram chocadas com sua figura? Existe uma confusão entre gênero e sexualidade provocada por visão normativa. Alguns acham que sou necessariamente gay e digo que é um engano. Muitos travestis estão na rua atendendo gêneros masculinos, mas são heterossexuais. É questão de sobrevivência, pois as vias de acesso aos estudos e profissão lhes são negadas. Muitos transgêneros têm que abandonar os estudos. Apesar de todos seus prêmios e prestígio, você já declarou que não gosta de quase nada que fez ao longo da carreira. Também a morte de seu filho, há 5 anos. Acredita que o crossdressing vem num momento em que a vida está monótona? Será choque de novidade, aprendizado? Esta pergunta é quase irrespondível, pois não tenho esta clareza de autoanálise. O travestimento já havia surgido antes da morte do meu filho, mas exatamente este fato interrompeu o processo por conta da angústia. É uma busca pessoal. Não sei até que ponto comecei tarde ou na hora certa. Se começasse aos 20, não sei como seria. Com esta idade, por exemplo, estava envolvido na universidade. Em 1974 entrei para o Partidão, arranjei laços conjugais, emprego. As possibilidades na música, cinema, sexualidade eram amplas. Na lira dos 20 anos era tudo intenso, mas creio que fiz movimentos para fechar tudo isto por medo de exercer a liberdade. Usar roupas femininas mudou sua visão de mundo? Mudou, sim. Ao frequentar rodas de crossdressers conheci muitas correntes de opiniões. Há aqueles que acham os homossexuais mais avançados e buscam entender a transgeneralidade. É preciso entender a construção cultural do homem, desta engenharia social que parece natural, mas não é. Foi tudo inventado. Não vivemos mais em cavernas e a sociedade mudou, mas há reflexos tardios até do patriarcalismo, que já não faz sentido nenhum. Em relação mesmo ao feminino e os acessórios, ele comporta todos. Se você usar calças, paletó, gravata, colete, ninguém vai achar problema nenhum. Não vão achar que a mulher é lésbica por usar peças masculinas. Por que os homens têm que usar ternos ridículos? Por que não batas? O uso de saias pelos homens não avançou nem um milímetro. Isto deveria ser uma conquista humana. Descobriu que há muito mais homens que gostariam de se vestir de mulher? Têm desejo, mas não confessam, vejo olhares até de inveja. Não faço aparições públicas por motivo de espetáculo, conheço minha tribo. Percebo olhares, risadinhas, entendo o que é aquilo e reconheço naquela atitude o que é meu. Sorrio de modo amigável. Os travecos é que enfrentam a dureza da rua e têm que lidar de modo guerreiro com a situação. É o contexto. Você se preocupa com o caimento das roupas femininas em você, uma vez que, em outras entrevistas, disse que em relação às roupas masculinas só comprava e usava o básico? Preocupo-me porque não deixo de ser eu, não deixo que a roupa me anule. Este é um processo longo, de experimentar. Hoje não tenho quase nada mais do guarda-roupa masculino. A feminilidade nada mais é que um atributo biológico. O resto é tudo patacoada. As mulheres ainda aceitam que ser feminina é ser delicada, que não podem ter bíceps poderosos, se comunicar por um corpo pleno. Como faz para andar de salto alto, fazer as unhas? Não acha difícil? Salto é moleza. Fazer os pés e a mão foi acontecendo aos poucos. Tem uma manicure do lado da minha casa. As atendentes de loja são de uma gentileza comovente. Chegam e falam: “experimenta esta blusa.” Alguma mulher o inspira? A Maria Rita Kelh (psicanalista). Adoro, acho que é uma figura tão firme e digna. Apresenta-se ao mundo com inteireza e verdade. Tem medo de ser agredido por estar com roupas femininas? Tenho, da mesma maneira que tenho medo de ser agredido por outras questões. Todos se dizem livres de preconceito, estamos no país com a maior parada gay do mundo, mas somos esquivos. O que achou da análise que a especialista em crossdressing, Veronica Vera, fez para a revista Veja, sobre seu visual? Isto é uma tentativa de standartização, de criar uma normatização para homens que querem se vestir de mulher, um padrão intermediário. Quero criar minha própria visão das coisas. Gosto do meu corpo como ele é. Vou achar roupas que digam o que meu corpo quer dizer. |
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