Sábado, 18 de Maio de 2013
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Comportamento

Ele e ela...

... que, somados, são uma só pessoa. São os crossdressers, homens com H que adoram se vestir com trajes femininos

Texto: Raquel Ayres | Fotos: Victor Schwaner


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Guilherme como Thalyta, 26 anos, adora botas de plataforma

O cartunista Laerte, criador das tirinhas Piratas do Tietê e Overman, está se vestindo, cotidianamente, com indumentárias do guarda-roupa feminino: cabelo estilo Chanel e franja lateral, unhas pintadas de vermelho, brincos dependurados. Isto não é mais novidade; não faltam publicações entrevistando o senhor de 60 anos, que tem uma namorada, é pai, mas parece ter certa preferência por minissaias. O interessante é que a postura de Laerte trouxe à tona um assunto de nome até recentemente desconhecido, o crossdresser: homens que se vestem de roupas femininas e usam adereços deste universo. Muitas vezes por baixo de calças de ternos, nada de cuecas, eles estão usando lingeries. Em casa, muito menos roupão e chinelões. Sentem-se mesmo à vontade de vestidos.

“Resolvi me discriminalizar. É algo que me proporciona grande alegria interior. No decorrer da vida fui me aproximando do universo feminino e desde o início de 2009 me propus à travestividade e a questionar as fronteiras de gênero (masculino e feminino). E a roupa é algo de entendimento fácil e rápido”, conta Laerte. Não por acaso um de seus personagens, Hugo, tem se apresentado aos leitores como Muriel: saias, maquiagem e cabelos balançantes, ela é ele.  

Se a palavra crossdresser é nova para nosso vocabulário e reúne muitas interrogações – homem que veste de mulher é travesti? Travesti é homossexual? – o mesmo não se pode dizer da prática. O caso mais conhecido é do cineasta norte-americano Ed Wood, (1924-1978), que usava nada menos que casaquinhos de angorá branco e pelúcia, mas nem por isto deixou de casar-se duas vezes e de servir na Segunda Guerra entre os mariners. Entre sua filmografia está a película Glen or Glenda, que trata do travestismo. Nos anos 70 David Bowie aparece de vestido rodado e peruca de abundantes cachos na capa de seu disco The man who sold the world. 

Em São Paulo, desde 1997 foi fundado o Brazilian Crossdresser Club (BCC). A associação promove festas em que não faltam trocas de experiências que vão certamente das dificuldades em ser crossdresser – como sair na rua vestido de mulher sem causar estranhamento ou contar para a esposa e filhos sobre o incontrolável desejo de usar a sandália de salto? – até festas em que fazem desfiles com vestidos de noite. “Vestir de mulher é uma necessidade, quase uma fissura que os crossdressers chamam de urge. Se não o fazem vem uma angústia forte. Mas muitos experimentam tamanha culpa por conta de familiares que em alguns momentos dão tudo: roupas, sandálias, perucas. É o que chamam de purge. Mas logo irão comprá-las novamente”, diz a psicanalista Eliane Chermann Kogut, cuja tese de doutorado foi Crossdressing masculino: uma visão psicanalítica da masculinidade. 

“Minhas montagens são uma forma de extravasar o estresse. Ameniza muito minha ansiedade”, conta a crossdresser Cyntia.nev, que também é Luiz e trabalha com marketing.  Em suas palavras, é “um homem hetero, normal, sem afetações ou bichisses.” Mas não dispensa em hipótese nenhuma a adorada calcinha, de preferência fio dental P. “Já faz mais de 10 anos que não uso cuecas.” Entre suas preferências estão meia-calça, espartilhos, vestidos colantes, bodysuits e os saltos altos. 

Segundo Eliane Kogut, que para desenvolver o trabalho associou-se ao BCC, os comportamentos como de Cyntia não se tratam de fetiche muito menos de dupla personalidade, uma vez que apesar de se arrumarem com capricho e detalhes para ficarem o mais parecido possível com mulheres, os crossdressers sabem que são homens. “Gostam da vida sexual masculina, de serem provedores da casa e do escritório. O erotismo deles está voltado para a figura feminina que criam e não para outro homem.” Ela afirma que durante o tempo que frequenta o BCC não se deparou com homossexuais, mas sim com bissexuais. Por isto, operar-se para mudar de sexo não faz parte da prática crossdresser. “Nunca penso em operação. Este é o maravilhoso mundo de estar mulher”, afirma Cyntia, com ênfase.

É por volta dos 4 anos que experimentam os primeiros impulsos por calcinhas e afins. É o universo feminino, com tantas possibilidades de peças de roupas e cuidados que mais fascina. O analista financeiro Guilherme de Oliveira Lacerda tem 35 anos, quatro filhas e uma namorada. Mas quando coloca uma das quatro perucas longas castanhas – a última já veio até com efeito de luzes – minissaias e botas, é louco pelas plataformas, assume a identidade de Thalyta e a idade cai para meros 26 anos. “Gosto de brilhos e tenho tamancos de 10 cm. Depilo perna e até comecei a fazer laser na barba. Uso hidratantes e quase todo dia compro algo feminino. Hoje mesmo comprei este colar”, aponta ele para o adereço. 

Para viver Thalyta em plenitude, Guilherme preparou-se: largou a malhação pesada e mudou a alimentação para não ficar barrigudo. “Não gostaria de ser mulher, mas quando saio assim na rua, me sinto poderosa. Como Guilherme sou mais sério, mas como Thalyta experimento outra vida.”


CONVERSA ÍNTIMA

O cartunista Laerte fala, com mais detalhes, de como é ser crossdresser

Sabe dizer quando surgiu a vontade  de vestir-se com roupas femininas? 

Já estou metido neste processo há algum tempo e a aproximação com este universo foi gradual, o que faz o assunto ser tranquilo. À medida que tomo contato com as pessoas, vou recolhendo reações e impressões: estranhamento, recusa, apoio, simpatia. Sempre gostei de costura e cozinha, por exemplo. Mas não me lembro de, em criança, experimentar roupas femininas. Mas havia um modo diverso de aderir aos jogos masculinos: por exemplo, jogar bola sem precisar contar pontos ou competir.

As pessoas se mostram chocadas com sua figura? 

Existe uma confusão entre gênero e sexualidade provocada por visão normativa. Alguns acham que sou necessariamente gay e digo que é um engano. Muitos travestis estão na rua atendendo gêneros masculinos, mas são heterossexuais. É questão de sobrevivência, pois as vias de acesso aos estudos e profissão lhes são negadas. Muitos transgêneros têm que abandonar os estudos. 

Apesar de todos seus prêmios e prestígio, você já declarou que não gosta de quase nada que fez ao longo da carreira. Também a morte de seu filho, há 5 anos. Acredita que o crossdressing vem num momento em que a vida está monótona? Será choque de novidade,  aprendizado?

Esta pergunta é quase irrespondível, pois não tenho esta clareza de autoanálise. O travestimento já havia surgido antes da morte do meu filho, mas exatamente este fato interrompeu o processo por conta da angústia. 

É uma busca pessoal. Não sei até que ponto comecei tarde ou na hora certa. Se começasse aos 20, não sei como seria. Com esta idade, por exemplo, estava envolvido na universidade. Em 1974 entrei para o Partidão, arranjei laços conjugais, emprego. As possibilidades na música, cinema, sexualidade eram amplas. Na lira dos 20 anos era tudo intenso, mas creio que fiz movimentos para fechar tudo isto por medo de exercer a liberdade. 

Usar roupas femininas mudou sua visão de mundo?

Mudou, sim. Ao frequentar rodas de crossdressers conheci muitas correntes de opiniões. Há aqueles que acham os homossexuais mais avançados e buscam entender a transgeneralidade. É preciso entender a construção cultural do homem, desta engenharia social que parece natural, mas não é. Foi tudo inventado. Não vivemos mais em cavernas e a sociedade mudou, mas há reflexos tardios até do patriarcalismo, que já não faz sentido nenhum. Em relação mesmo ao feminino e os acessórios, ele comporta todos. Se você usar calças, paletó, gravata, colete, ninguém vai achar problema nenhum. Não vão achar que a mulher é lésbica por usar peças masculinas. Por que os homens têm que usar ternos ridículos? Por que não batas? O uso de saias pelos homens não avançou nem um milímetro. Isto deveria ser uma conquista humana. 

Descobriu que há muito mais homens que gostariam de se vestir de mulher?

Têm desejo, mas não confessam, vejo olhares até de inveja. Não faço aparições públicas por motivo de espetáculo, conheço minha tribo. Percebo olhares, risadinhas, entendo o que é aquilo e reconheço naquela atitude o que é meu. Sorrio de modo amigável. Os travecos é que enfrentam a dureza da rua e têm que lidar de modo guerreiro com a situação. É o contexto.

Você se preocupa com o caimento das roupas femininas em você, uma vez que, em outras entrevistas, disse que em relação às  roupas masculinas só comprava e usava o básico?

Preocupo-me porque não deixo de ser eu, não deixo que a roupa me anule. Este é um processo longo, de experimentar. Hoje não tenho quase nada mais do guarda-roupa masculino. A feminilidade nada mais é que um atributo biológico. O resto é tudo patacoada. As mulheres ainda aceitam que ser feminina é ser delicada, que não podem ter bíceps poderosos, se comunicar por um corpo pleno. 

Como faz para andar de salto alto, fazer as unhas? Não acha difícil?

Salto é moleza. Fazer os pés e a mão foi acontecendo aos poucos. Tem uma manicure do lado da minha casa. As atendentes de loja são de uma gentileza comovente. Chegam e falam: “experimenta esta blusa.”

Alguma mulher o inspira?

A Maria Rita Kelh (psicanalista). Adoro, acho que é uma figura tão firme e digna. Apresenta-se ao mundo com inteireza e verdade. 

Tem medo de ser agredido por estar com roupas femininas?

Tenho, da mesma maneira que tenho medo de ser agredido por outras questões. Todos se dizem livres de preconceito, estamos no país com a maior parada gay do mundo, mas somos esquivos.

O que achou da análise que a especialista  em crossdressing, Veronica Vera, fez para a revista Veja, sobre seu visual?

Isto é uma tentativa de standartização, de criar uma normatização para homens que querem se vestir de mulher, um padrão intermediário. Quero criar minha própria visão das coisas. Gosto do meu corpo como ele é. Vou achar roupas que digam o que meu corpo quer dizer. 


 
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