Pode ser um estilo, pode ser uma estratégia para desligar o governo da imagem de Lula, mas que os primeiros 30 dias do governo Dilma foram o contrário de seu antecessor, ninguém tem dúvida. A presidente vem mantendo postura discreta, com adoção de medidas muito mais de cunho administrativo, como aliás foi apresentada na campanha, do que político e, mais que isto, um conveniente silêncio. Desde que se elegeu, a presidente tem falado pouco. Isto é, tem falado pouco em público, mas tem conversado bastante.
As entrevistas e os discursos, ao contrário dos tempos de Lula, têm sido poucos. Daquelas tumultuadas entrevistas em pé, com dezenas de jornalistas perguntando ao mesmo tempo, ela só participou das que aconteceram no Rio de Janeiro, logo após a tragédia da região serrana. No mais foram entrevistas para correspondentes estrangeiros e uma ou outra conversa com grupos de jornalistas, sem o caráter de entrevista.
Este silêncio tem sido providencial e, certamente, benéfico. Com ele Dilma Rousseff tem angariado mais respeito como política e administradora e alimentado a figura de durona, intransigente com erros e abusos. O que tem vazado de informações sobre o dia a dia presidencial enfatiza isto, como o puxão de orelha nos ministros que gostam de usar jatinhos para ir em casa nos finais de semana, ou nos que fazem quatro horas de almoço ou chegam tarde aos ministérios e até naqueles auxiliares que, para se valorizarem, adoram entrar no gabinete falando ao celular.
Mas algumas decisões da presidente marcam, claramente, uma postura diferente do antecessor em questões mais ideológicas. Ela já sinalizou, por exemplo, que não será tão complacente, como Lula, com os regimes ditatoriais, o que terá reflexos na política externa. Internamente a presidente já sinalizou aos sindicalistas que as relações com o governo serão um pouco mais distantes.
A resposta que deu sobre o reajuste do mínimo mostra isto. Há limites para o chamado diálogo com os trabalhadores. Dilma mostrou também que sabe se impor perante a comunidade internacional. O respeito ao Brasil de Lula será o mesmo, ou talvez maior, com o Brasil de Dilma. Tanto que o presidente Barack Obama já anunciou, em discurso, que virá a Brasília para discutir as relações bilaterais, reconhecendo a importância do país no mundo e em especial na América Latina.
Também foi estratégica a primeira viagem da presidente a um país amigo. Sua ida à Argentina indica mudanças nas relações preferenciais com os nossos vizinhos. Dilma foi se encontrar com Cristina Kirchner, acabando com o privilégio da interlocução dos ruidosos bolivarianos, Hugo Chávez à frente. Pelo que mostrou até aqui, a presidente pretende realizar um governo de menos marketing e mais discrição. Será um ganho de qualidade, sem dúvidas, ainda mais num momento em que o mundo sente, bem próximo ao rosto, o desagradável hálito das crises econômicas.
Que ninguém duvide daquilo que, neste mesmo espaço, foi anunciado. Dilma vai surpreender a todos, principalmente a oposição. Seu estilo de comando será firme, sem demagogias, e de respostas rápidas. Em pouco tempo ela se mostrará uma candidata com alto potencial para 2014. Será um bom problema para o PT que terá o privilégio de contar com dois candidatos imbatíveis daqui a quatro anos.
Paulo Cesar de Oliveira, jornalista