Sexta, 24 de Maio de 2013
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Artigo

Até que a morte os separe

Em vez disso, instala-se um jogo de manipulação, utilizando-se de deboche, de mensagens duplas, de depreciação. Acusar, acuar e aliviar são manipulações que mantém esse jogo

Texto: Fátima Rabelo
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Fátima Rabelo - Psicóloga

É importante distinguir violência de agressividade, pois embora os dois conceitos possam estar ligados, eles não se superpõem.

Uma dose de agressividade faz parte da constituição psíquica de todas as pessoas. Isso não significa que precisemos ser agressivos. Com o bom uso da palavra, mediadora que nos permite simbolizar, mesmo de forma imperfeita, as nossas dificuldades, podemos sublimar a agressividade. Depende muito de como cada um se implica e se responsabiliza em seus relacionamentos.

Em qualquer relação, mas em especial nas relações amorosas, há sentimentos ambivalentes que encontram sua expressão por meio de brigas e conflitos. Em uma discussão acalorada, as manifestações agressivas costumam, quase sempre, buscar o reconhecimento do outro, exatamente pela importância deste. Há, no entanto, uma categoria de violência, de natureza mais sutil e insidiosa, tão devastadora quanto as agressões físicas, que, silenciosamente, causa enormes danos: o assédio moral.

Essa violência psicológica constitui um processo que visa implantar ou manter um domínio sobre o parceiro ou parceira. Um tratamento abusivo que se produz na intimidade da relação de casal, na qual um dos parceiros age como predador do outro, tentando impor o seu poder através de um tratamento brutalizante. Violência que se manifesta pela desqualificação do valor e da capacidade do outro. O alvo é atingir a autoestima da pessoa.

A conversa franca e aberta nunca é possível nesse tipo de relação. Em vez disso, instala-se um jogo de manipulação, utilizando-se de deboche, de mensagens duplas, de depreciação. Acusar, acuar e aliviar são manipulações que mantêm esse jogo. No dito popular “morde para depois assoprar”.

Sem se dar conta, as pessoas caem em uma armadilha na qual não se fazem vítimas apenas do outro, mas principalmente de si mesmas. Vítimas de si por terem deixado o seu desejo ser apagado, a sua alteridade negada. Na posição de objeto, tornam-se complemento ao narcisismo do outro.

Estudo realizado pela psiquiatra e psicanalista francesa Marie-France Hirigyen conclui que há na pessoa que se submete a esse jogo uma posição interna que favorece a manutenção do mesmo. 

Mas também  ressalta que esse processo de aviltamento sistemático causa ruptura de identidade, desestabilização e perda gradativa da autoconfiança, gerando quadros de depressão que são realimentados em um círculo vicioso.

Relacionamentos destrutivos que se mantêm ao longo do tempo revelam tentativa infeliz de fazer de dois um. Independentemente de se chegar de fato a uma separação ou a um trabalho que possibilite mudança a partir de separação interna, subjetiva, que sustente o espaço psíquico de cada um, nesses relacionamentos, o sofrimento é a chama que mantém a fusão com o outro.

Pessoas nessa situação afetiva são devotadas ao seu sofrimento, que preenche a própria vida e assim nada é separado. 

É aí que o chamado até que a morte os separe é cumprido à risca. Na morte do desejo, da alegria de viver, no triste gozo da devastação da vida psíquica. É quando Thânatos prevalece sobre Eros. 

 
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