Vivemos a expectativa do amor. Quando estamos sozinhos, mesmo felizes, não deixamos de divagar, vez ou outra, em silêncio, como será o próximo? Quem será? O que será? Se estamos envolvidos e apaixonados, surgem novas ansiedades com perguntas parecidas. E agora, como será? O que será daqui pra frente? É esta a pessoa?
Falar em curtir o momento é fácil, o difícil é cumprir a promessa. Temos planos e ainda bem que os temos, caso contrário viveríamos à mercê de impulsos e desejos fugazes, o que pode parecer excitante, perigoso, mas não deixa de ser superficial e incompleto. Já o futuro instiga, preocupa, mas motiva. E o passado?
Este poderia ser grande fonte de inspiração e orgulho se não fosse tantas vezes transformado em traumas. Arrancamos algumas páginas, quando o melhor seria apenas virá-las, intactas, para eventuais consultas. Lembranças doloridas são apagadas na marra, criamos as regras para a próxima tentativa e o candidato que trate de atender ao novo padrão. Agora comigo é assim. E que tudo seja diferente.
Queremos o novo, mas, muitas vezes, o principal foco de resistência às mudanças está em nós mesmos. Passada a fase onde tudo é bonitinho e perdoável, inicia-se a troca de cobranças. A real hora de fazer diferente. Ouvir e cumprir. Porém é mais fácil desconfiar das intenções alheias do que admitir a necessidade de melhora. E daí travamos no ego, no medo de sermos dominados, na disputa burra por um controle estúpido. Em mim ninguém manda. Quem é você pra dizer o que eu preciso ou tenho de fazer?
Mas por que não mudar pela palavra do outro? Se está com a gente, é porque a gente gosta e confia, então por que não baixar as orelhas e obedecer, começando pelas coisas mais banais? Por que não repensar certos hábitos? Por que não ouvir a pessoa amada e ficar mais atento ao físico, ao vestuário que seja. Vigiar a postura, o palavreado, empenhar-se mais no trabalho, tornar-se mais sociável ou talvez um companheiro de esportes nos finais de semana? Diminuir a bebida, pegar leve na boemia, aprender a economizar dinheiro. Iniciar por estas coisas simples, mas também importantes e saudáveis, até chegar às transformações mais profundas e indispensáveis.
Queremos ser amados pelo que somos – é justo – mas, com o perdão da rima pagodeira, se é para o bem, qual o mal em fazer por alguém? Até porque, no fim das contas, os maiores beneficiados são os próprios autores da mudança e não os motivadores.
Vi num filme, do qual já não me lembro, alguém dizer que a gente muda, no máximo em 15%, mas que estes 15 podem fazer toda a diferença. Eu acredito que dê pra chegar nuns 20, 25%. E mesmo que não dê, quanto custa tentar?
E se emprestássemos ao amor a mesma dedicação, disciplina e obediência que deixamos na academia ou no trabalho? Mudar é bastante complicado, mas o amor se fortalece no esforço, na entrega. E pior que não mudar por incompetência é resistir por pirraça, medo ou egoísmo.
Porque quem ama tenta e por isso é amado. Já quem empaca é tolerado, até a paciência de alguém acabar. Feliz 2011. E que tudo seja diferente.
Bruno Fernandes, jornalista. http://twitter.com/Brunodo12