A presidente Dilma Rousseff começa a governar sob intensa expectativa da população. Nada menos de 83% acham que Dilma fará um governo igual, ou melhor, do que o do presidente Lula. Desse percentual, segundo o Datafolha, 50 % acham que Dilma será igual a Lula e 30% acham que ela poderá ser melhor ainda. E olha que Lula termina o governo com índices de aprovação jamais vistos antes neste país, nada menos que 83%. Quase quatro vezes os índices do seu antecessor, Fernando Henrique, e o dobro dos níveis de Itamar Franco, até então o mais bem avaliado desde a redemocratização. Collor, quando caiu, estava com 9%. No caso de Itamar, apesar das dúvidas iniciais normais para o período, o alto índice se justificou pela criação do Plano Real, o restabelecimento da dignidade do primeiro posto da República e o início da retomada do crescimento, com o fim da inflação – exatamente o prometido por Itamar no seu discurso de posse diante de um país perplexo.
Lula também se beneficiou de certa forma dos baixos índices de popularidade de Fernando Henrique, que se apropriou da criação do Plano Real, começou a debelar a inflação, mas não conseguiu aumentar o ritmo de crescimento do país, acabando por patrocinar o duvidoso episódio da reeleição e passar ao sucessor o governo já com a inflação começando a sair do controle – se bem que em condições melhores do que as deixadas por Sarney e Collor. Lula impôs o seu ritmo e a sua marca, manteve os fundamentos da orientação econômica herdada, mas diferentemente de Fernando Henrique imprimiu ao governo uma forte aceleração para o atendimento às populações mais carentes. Os benefícios do bolsa-família, colocado nos trilhos pelo mineiro Patrus Ananias e os efeitos da manutenção do Plano Real, com o controle da inflação e melhor distribuição de renda – mais de 10 milhões de novos empregos criados – tudo isso fez com que 30 milhões de brasileiros saíssem da pobreza, um outro tanto engrossou a classe média e com o ganho de tal musculatura o país pôde falar alto nos organismos internacionais – Lula, gostem ou não, passou a ser o cara, a que se referiu Barak Obama numa roda em que estavam os principais mandatários do planeta.
Mas nem tudo foram flores. Em 2005, por exemplo, o desacerto político entre o governo e o PTB de Roberto Jefferson provocou a pororoca do mensalão. Os índices de popularidade de Lula foram lá embaixo, o governo balançou, a oposição mais radical tentou o golpe branco, mas finalmente o presidente conseguiu se manter nos arreios, contando em alguns momentos da CPI com a ajuda de até mesmo dois ou três governadores da oposição (?), conforme revelou depois o ex-ministro Ciro Gomes, citando o governador Aécio Neves como um dos aliados da época. O fato é que Lula deu a volta por cima e começou 2006 já na disparada para ganhar a reeleição que Fernando Henrique criou e ganhar o segundo mandato, quando finalmente deslanchou.
Como um mágico, Lula tirou sua candidata em 2010 da cartola, fazendo de Dilma a primeira mulher a presidir o país, ele que já inaugurara o fato de ser o primeiro operário oriundo das classes populares a chegar à Presidência da República. E aí está a presidente à frente de um governo feito à imagem e semelhança de Lula, com 37 ministros vindos a grande maioria do PT (17), sendo seis do PMDB, que também tem o vice-presidente, e restante dividido entre os tantos partidos que a apoiaram na campanha. A destacar que dentre os 37 ministros há apenas um mineiro, o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel, contrariando uma tradição que vem do Império, a de que Minas sempre contribuiu de forma marcante para a composição dos governos – no de Lula houve cinco, no de Fernando Henrique outro tanto, sendo no da mineira Dilma a predominância de São Paulo, com onze ministros. A expectativa positiva da população do país em relação ao novo governo é alta, mas contrasta com a dos mineiros que se sentem frustrados, como se viu nas diversas manifestações ora do PT ora do PMDB que chegaram, em vão, ao conhecimento da presidente. Ao seu estilo, Minas assunta.
Carlos Lindenberg, jornalista