Quarta, 19 de Junho de 2013
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Entrevista

Luz amarela na indústria

Presidente de uma das maiores empresas siderúrgicas do mundo, Wilson Brumer se mostra preocupado. A crise cambial é o maior motivo de sua aflição. Tanto que ele faz um alerta ao governo brasileiro: medidas precisam ser tomadas para proteger a indústria nacional, antes que seja tarde demais

Texto: Flávio Penna | Fotos: Emmanuel Pinheiro


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Certamente, Wilson Brumer é um dos mais conceituados executivos dos setores de siderurgia e mineração do mundo. Ele hoje preside a Usiminas, após comandar outras grandes empresas do setor. Brumer é um otimista, mas reconhece que a crise cambial que se desenha é preocupante, embora já haja sinais positivos, e que por isso é preciso que o governo federal se previna quanto a uma possível necessidade de adoção de medidas de proteção à indústria nacional. Defensor da abertura da economia, o executivo questiona apenas o fato de o Brasil não ter se preparado adequadamente para ela. Aqui ele fala sobre economia, sobre o setor da siderurgia e da mineração e diz que, apesar de ter desistido da implantação de uma nova usina no estado, a Usiminas mantém programa de forte investimento, algo em torno de 14 bilhões de reais, em seus ativos.

A questão cambial representa ameaça real de crise no mundo?
O programa de câmbio é um problema sério no mundo inteiro. O Brasil é hoje um país caro. Quando se fala que os nossos produtos siderúrgicos são mais caros do que em outros países, é preciso ver que nossos hotéis são mais caros, a passagem de avião é mais cara. Estou dando dois exemplos apenas para dizer que, em dólares, vários produtos são mais caros do que a média no mundo. Temos uma moeda muito valorizada.

Além da moeda supervalorizada, falta-nos a infraestrutura que também eleva custos.
Temos problemas de infraestrutura, de custos que precisam ser repensados. Nós não temos no Brasil, no meu modo de ver, muitos segmentos que nos permitam dizer que é um país competitivo. Podemos contar nos dedos quantos setores são de fato competitivos. Será que não está na hora de uma discussão mais macro, considerando os segmentos que têm competitividade para torná-los ainda mais competitivos?


Isto passa pela reforma tributária?
Passa pela reforma, por mais investimentos em infraestrutura, por uma discussão da parte trabalhista. Eu tenho sempre insistido que o recurso que vai para o bolso do trabalhador no Brasil é menor do que em outras economias. Mas o custo total do colaborador é maior do que em outras economias. Então é preciso que a gente repense, pois vivemos uma administração inadequada da gestão destes custos aplicados sobre a chamada mão de obra.

A  Usiminas está investindo muito, mas desistiu de uma nova planta industrial. A desistência tem alguma relação com a crise cambial?
Este projeto de nova usina é de cerca de três anos atrás. Veio a crise mundial que nos levou a uma paralisação. Este ano nós retomamos a avaliação do projeto. Em função de vários fatores, como a questão cambial, custo de investimento no Brasil, o projeto se tornou inteiramente inviável. Então decidimos não fazer.

Recentemente o senhor falou que há no mundo excesso de produção de 600 milhões de toneladas de aço. Essa é a realidade ainda? E no Brasil, como está a situação?
A capacidade instalada no mundo hoje é de cerca de 1,8 bilhão de toneladas. Deste total, em torno de 600 milhões é capacidade ociosa, por várias razões. Algumas economias estão se desenvolvendo menos. Por outro lado, o país vive uma fase de grande desenvolvimento – todas as previsões indicam crescimento em torno de 7,5% este ano – e tem  uma moeda supervalorizada. Com estes três fatores, crescimento, moeda supervalorizada e excesso de oferta, o Brasil virou um porto natural para produtos. Este é um dos grandes problemas que a siderurgia nacional está enfrentando. Hoje em torno de 20% do aço consumido no país é importado. Então a siderurgia brasileira não está tirando proveito do aumento do consumo de aço pelo crescimento econômico ,pois 20% é atendido pelo produto importado. Tão preocupante quanto o problema do aço, é o dos produtos que contêm este material. Veja bem, estamos falando em aço e este ano serão importados 5 milhões de toneladas, o equivalente a uma planta de Ipatinga. Se falarmos também em produtos que demandam aço em sua produção, chegamos a aproximadamente 9 milhões de toneladas, o equivalente então a uma planta de Ipatinga e de Cubatão. Estamos falando em uma Usiminas.

Por qual razão o país importa aço?
São vários fatores. Você tem aí o excesso de aço no mundo, o câmbio valorizado que  ajuda as importações – outros setores certamente estão enfrentando situação parecida – e a guerra fiscal que é outro problema que existe no Brasil. Nós temos vários portos que deixam entrar produtos sem cobrança de impostos. É um somatório de fatores. A indústria brasileira é competitiva? É competitiva.Agora, enfrentamos problemas conjunturais no país e, em função dos fatores que enumerei, não está sendo competitiva. Além disto, se você acrescentar custos de logística, trabalhistas, temos sim problemas sérios de competitividade.

Quais são as soluções?
Não são, a meu ver, soluções de curto prazo. Lógico que não atribuo ao problema da moeda o único fator. É preciso discutir a cadeia produtiva. No nosso caso, se alguém não vender o seu produto que contém aço, não teremos cliente a quem vendê-lo. Então é uma discussão ampla. A curto e médio prazo o que defendemos é que o Brasil passe a adotar as mesmas práticas que o mercado internacional pratica quando abre a sua economia. O país é muito lento na tomada de decisões, por exemplo, quando se quer proceder uma investigação se determinada empresa está praticando dumping. Aqui há demora de um ano para se decidir por uma investigação. Em outros países, só o fato de iniciar uma investigação já cria para aquele que está sendo investigado certo desconforto. E aí, se for constatado o dumping, a penalidade aplicada é desde o início da investigação. No Brasil não tem estas regras. A guerra fiscal é outro aspecto. Agora, nós, por princípio, não somos contra a importação até porque somos exportadores. O que a gente defende são condições de igualdade, isonômicas que, infelizmente, o Brasil não tem com outros países.

Existe no horizonte algum substituto para o aço?
Na minha visão, o grande substituto continuará sendo o aço. E costumo usar como exemplo disso o fusquinha, que tinha chapa de aço com uma grossura tal que se batêssemos nele, éramos capaz de machucar a mão. Mas nem por isso deixavam de enferrujar. Hoje o que vemos são aços mais modernos, com mais tecnologia. Ainda temos muito espaço, principalmente no Brasil, para um forte crescimento do seu uso. Na construção civil, por exemplo, o Brasil é ainda um país muito concreto. Nada contra o concreto, mas há espaço para o uso do aço crescer, com ganhos.

Voltando à questão da crise cambial. O senhor vê riscos de os países adotarem políticas protecionistas?
Olha, esta história a gente já viu algumas vezes na vida. Quando as economias e as empresas começam a ter problemas, a situação de mercado acaba levando os governos para, não sei se protecionismo é a palavra mais adequada, uma revisita dos modelos até então utilizados. A gente já viu vários países que, quando a economia começa a cair, criam uma série de proteção à sua indústria. O Brasil precisa pensar nisto. Nós começamos a abrir o país, e não estou falando que precisamos novamente fechar nossa economia, mas estamos disputando com países com competitividade melhor do que a nossa.

O senhor acha que o país está abrindo economia muito rapidamente?
Eu diria que talvez estejamos abrindo sem as ferramentas utilizadas por outros países. A velocidade é uma questão de você se preparar para ela. É preciso definir os marcos regulatórios, a questão das proteções não alfandegárias, as ações de investigação quando se pratica dumping, esta guerra fiscal que não ajuda ninguém. O que entra no Brasil hoje de produtos importados... E eu não estou falando só da siderurgia, estou falando de vários segmentos. Nós estamos criando os empregos fora, em outros países.

Falando em emprego, o setor siderúrgico e o de mineração continuarão sendo grandes empregadores?
A indústria como um todo tende, cada vez mais, a ser menos empregadora. Os setores de mineração e de siderurgia quando foram privatizados talvez tivessem mais de 100 mil empregados. Hoje tem pouco mais da metade disso. Mas, se olharmos o que se acrescentou de novos empregos em função dos investimentos que foram feitos, das indústrias que se instalaram no Brasil em função do aumento de nossa competitividade, certamente o ganho foi muito maior do que as perdas.

A importação pode chegar a prejudicar, de forma mais dura, o setor siderúrgico nacional?
Eu, até por ser um otimista, acho que o fundo do poço talvez já esteja chegando. O câmbio começa a dar uma mexida, o governo autorizou investigação de prática de dumping, a partir de uma denúncia que fizemos, envolvendo oito países, o que fará com que os outros que não estão se comportando adequadamente comecem a repensar seu comportamento e isto é bom. Reafirmo que não sou contra a importação, até por sermos exportadores também. No setor siderúrgico consideramos que índice de 10% é aceitável, mas os níveis atuais passaram do limite. Isso vale também para outros setores da economia. A nós não interessa que se importe carros, equipamentos, porque ao importarmos estamos deixando de consumir o aço que produzimos. Acho que a cada dia mais, a cadeia produtiva precisa estar junta na mesma discussão.

O Brasil vai continuar, cada  vez mais, dependendo da economia chinesa?
Eu acho que a China é um capítulo à parte. Eu pessoalmente não acredito até, no caso da siderurgia, que ela será um país exportador de aço. Ela vai ser, cada vez mais, exportadora de produtos que contêm aço, até porque faz parte da política do governo chinês, a agregação de valor à sua capacidade produtiva. E os números da China são assustadores. Se falarmos em exportação de 5% do que eles produzem, estamos falando em um Brasil de capacidade instalada. Agora em termos de capacidade instalada, de pessoal, de qualidade do produto, não fica nada a dever a ninguém. Acho que nós temos no Brasil problemas sistêmicos que precisam ser atacados, como a logística, a questão tributária.

O senhor esteve no governo, trabalhou para atrair empresas. É difícil vender o país?
Não, ao contrário, o Brasil é um país fácil de ser vendido. Somos o país da moda. Muita gente falava e continua falando nos Bric, mas só que o Br hoje é de Brasil. Nada contra a Rússia, mas o mercado já chegou à conclusão de que o r não é de Rússia, mas de Brasil. O Brasil é um país fácil de ser vendido, mas é preciso que ele não se acomode. Não podemos pensar que não temos nada a resolver. Ao contrário, temos muita coisa a resolver. Penso que Minas Gerais, durante o governo em que trabalhei, avançou muito na questão da logística, mas especificamente no que cabe ao estado, pois no que cabe ao governo federal ainda há um dever de casa enorme a ser feito. Por exemplo, em relação à área em que a Usiminas está, eu acho um crime, e a palavra pode parecer forte, mas é a mais adequada, o que acontece hoje com a BR–381. É inadmissível, e isto não se fala, que continuem morrendo mais de 300 pessoas por ano, fora os aspectos macroeconômicos, de competitividade que se perde. Tem que se dar uma solução a isso. Não é possível continuar esta situação.


 
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