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SaúdeQue tal relaxar e tratar?Medo exagerado de dentistas leva profissionais a adotarem técnicas como acupuntura, fitoterapia, cadeiras massageadoras e óculos tridimensionais para assistir a filmes: tudo em nome de um paciente mais tranquilo
Texto: Cláudia Rezende | Fotos: Daniel de Cerqueira, Pedro Vilela e Victor Schwaner
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Nos consultórios de Cláudia Starling, proprietária do Instituto Mineiro de Odontologia, todos os recursos possíveis são utilizados. Além da acupuntura, ela trabalha com aromaterapia, hipnose e técnicas mais simples de relaxamento, como esteira massageadora na cadeira e óculos para que o paciente veja filmes enquanto é atendido. Todo esse aparato tem explicação. “Há pesquisas de campo que mostram que três em cada 10 pessoas morrem de medo e 10% da população sentem desconforto quando se sentam em uma cadeira de dentista.” A aromaterapia que Cláudia utiliza, por exemplo, é para evitar que o paciente sinta o cheiro típico do ambiente, provocado pelos produtos utilizados no tratamento bucal. “Tem gente que fica nervosa só de sentir esse cheiro. Além disso, a pessoa liga os aromas à tranquilidade”, diz. Já a massagem ajuda a relaxar os músculos e facilita o processo, já que com a musculatura enrijecida é difícil até que a anestesia pegue. Ela tem ainda outra técnica. “Meu consultório é todo em vidro. O paciente tem medo de ficar entre quatro paredes”, diz. Em Belo Horizonte, a vista é para a serra do Curral. Em Governador Valadares, para o pico do Ibituruna. |
Na clínica dos dentistas José Arbex Júnior e Andréa Murta, em Belo Horizonte, os pacientes também têm à disposição óculos tridimensionais para assistir a filmes, cadeira massageadora e, se a pessoa quiser, possibilidade de filmar o atendimento. No consultório, existem cerca de 260 DVDs à disposição. Na hora do procedimento, se o paciente não quiser ver filmes, usam uma cobertura sobre o rosto, que deixa somente a boca descoberta, para que ele não veja o que está sendo feito e possa relaxar. Andréa utiliza as técnicas há 12 anos. A dentista conta que ela mesmo passou por trauma quando tinha 14 anos por causa de um dente quebrado. “Senti desconforto muito grande e comecei a pensar como isso poderia ser melhorado”, lembra. No trabalho, ela tem ainda outros recursos, como música ambiente e microbrasão a ar para desgastar o dente e evitar o emprego do motorzinho. “Isso tudo não só relaxa, mas diminui a dor. Quando a gente fica menos estressado, quase não sente dor.” José Arbex observa que os pacientes costumam associar dentista com coisa chata e sofrida e, quando vão até lá e veem que não precisa ser assim, param de fazer essa associação. No entanto, ele destaca a importância da técnica. “O mais importante de tudo é o conhecimento científico e a habilidade profissional. Esses recursos são coadjuvantes e ajudam a motivar as pessoas.” |
Que o diga a estudante Geórgia Geo Rodrigues Chagas Ladeira, 12 anos. Ela teve um problema na dentição – os dentes de leite não caíam naturalmente – o que a fez ter de ir ao dentista sempre para fazer extração. “Eu tinha pavor. Chorava, gritava, não deixava mexer de jeito nenhum”, conta. Diante da situação, os pais tiveram de mudar a estratégia e a levaram ao consultório de José Arbex e Andréa Murta. “Eu cheguei apavorada lá também, mas assustei, no final, quando ela falou que eu podia ir embora. Eu não tinha sentido nada.” A estudante diz que ainda tem medo de dentista, mas que já melhorou bastante. A hipnose é outra técnica utilizada, porém mais difícil de se encontrar. O dentista Hamilton Mourão trabalhou com a hipnose por anos, mas deixou de utilizá-la por questões pessoais. “Eu chegava a tratar sem anestesia. Podia até extrair dente que a pessoa não sentia”, diz. A dentista Maria Luísa Oliveira de Paula é uma das profissionais que utilizam a hipnose. Ela trabalha com a técnica há aproximadamente 12 anos, depois de cursos que fez. “Eu percebia que faltava algo no atendimento para o paciente se sentir mais à vontade e relaxado.” |
Segundo a profissional, a hipnose é usada em várias situações, é uma forma de conversar com a pessoa, de deixá-la mais tranquila, de orientar a respiração, de direcionar perguntas. Nem sempre a pessoa entra neste estado “especial de consciência, entre o sono e a vigília”, conforme Maria Luísa. A conversa, em muitos casos, é mesmo para relaxar. “É o meu modo de atender, já incorporei no trabalho”, afirma. Hoje, ela utiliza mais na odontopediatria, mas já cuidou de casos de bruxismo em adultos, pânico de dentista, medo do barulho do motorzinho etc. Foi a hipnose que ajudou a motorista Kelly Cristina de Oliveira Soares a conseguir fazer o tratamento dentário no filho, Gustavo Vinicius, 11 anos. Ela conta que ele nasceu com problema nos dentes, o que faz com que tenha de ir com frequência maior aos consultórios. “Ele tem pavor de agulha e dentista. Ficava nervoso, endurecia na cadeira, chorava”, relata. Kelly Soares procurou a dentista Maria Luisa depois de ver uma reportagem na televisão. Hoje, o filho está mais tranquilo. A mãe diz que paga mais caro por esse tipo de tratamento, mas vale a pena. “Eu ficava muito mal de ver ele sofrendo, ter de segurar, fazer obrigado.” O que Kelly queria mesmo é que seu filho sentasse na cadeira do dentista para um procedimento longo e complexo sem sentir nada. É assim com quem opta por se tratar com profissionais que utilizam a sedação. O paciente recebe uma dose de medicamentos que faz com que ele durma. Entre aspas porque, conforme o cirurgião maxilo-facial Luiz Marinho, a pessoa fica entre o sono e a vigília, sendo capaz de atender todos os comandos solicitados. Para ser tratado com o uso da técnica, o paciente, primeiro, é submetido à avaliação médica com um anestesista. Depois, é preparado para receber a medicação endovenosa. A quantidade depende da extensão do procedimento cirúrgico que será feito. Antes da injeção, ele recebe sedação via oral. “A pessoa tem memória zero do que aconteceu. Eu não quero que meu paciente tenha trauma nenhum”, diz. Segundo o especialista, a técnica é muito utilizada em pessoas que precisam fazer enxertos ósseos e implantes e que têm de fazer uma reconstrução maxilar. Também é empregada em pacientes mais novos que não têm histórico com dentistas, mas precisam extrair os sisos. “Hoje, os jovens não têm mais cáries. Nunca sentiram nenhum trauma e você não quer que a primeira experiência dele seja assim”. |
O dentista destaca, ainda, que o paciente precisa observar as condições de segurança do local em que vai receber a sedação. Segundo ele, precisa ter central de oxigênio, equipamento de emergência, monitores, desfibrilador e ser aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Luiz Marinho conta que aprendeu a técnica nos Estados Unidos, onde atuou por 16 anos, e foi pioneiro em utilizá-la no Brasil. Ele também usa a sedação com gás nitroso, o chamado gás do riso – porque o indivíduo sente vontade de rir antes de cair no sono. O paciente fica recebendo o gás e acorda assim que ele é cortado. De acordo com o especialista, a técnica é mais utilizada para pequenos e rápidos procedimentos. No caso da professora Claudina Ramos, 56 anos, foi preciso usar a sedação endovenosa. Quando criança, ela sofreu trauma após uma queda e, apesar dos esforços dos profissionais na época, o ferimento lhe provocou prejuízos na fase adulta. Dos 26 anos de idade até o ano passado, ela sofreu em consultórios odontológicos. “Gastei horrores de dinheiro, sem ter resultados. Não tinha mastigação, tinha sangramento, passava por procedimentos doloridos. Cheguei a ficar deprimida por causa disso”. |
No ano passado, ela começou a fazer tratamento com o dentista Luiz Marinho. “Fui sedada, mas não fiquei dopada. Às vezes, ouvia conversas deles (dentista e anestesista), movimentava-me, respirava e via que estava tudo bem”, diz. A intervenção demorou cerca de três horas, mas, para ela, não passou de meia-hora. “Não senti nada”, conta. Segundo Claudina, o paciente paga um pouco mais caro, mas é “caro que sai muito barato”. O cirurgião-dentista Ronaldo Lucena também faz uso da sedação. Ele costuma encaminhar pacientes que têm fobia para médicos especialistas que podem receitar medicamentos para tranquilizar quando for necessário fazer procedimentos. Quando é algo mais complicado, chama o anestesista para aplicar a sedação no consultório. Além disso, trabalha com outros recursos, como massagem e exibição de filmes com óculos e fone de ouvido. Segundo ele, tudo depende da conversa com a pessoa, para avaliar a situação, o trauma que ela tem. A presidente da Comissão de Terapias Complementares e Integrativas do Conselho Regional de Medicina (CRO-MG), Maria do Perpétuo Socorro, observa que, para qualquer uma das técnicas aprovadas pelo CFO, é preciso que o profissional tenha formação complementar ou atue com um profissional especializado. Para a dentista, a aprovação das medidas pelo CFO mostra uma mudança nos consultórios odontológicos. “Todas essas terapias visam a tratar o paciente como um todo. Vê a cárie, a obturação, mas vê o ser humano. Vai além de tratar o medo. Pela boca, chega à essência da pessoa”, diz. Segundo ela, há estudos sobre esses métodos, mas a maior comprovação dos resultados é clínica e está no relato dos pacientes. |
Fora do consultório No campo da fitoterapia, Minas Gerais tem pesquisas avançadas em andamento. Uma delas é coordenada pelo professor de Patologia Bucal da Faculdade de Odontologia da UFMG, Vagner Rodrigues Santos. Ele trabalha, principalmente, com a própolis verde, encontrada no cerrado brasileiro. O pesquisador, com sua equipe, conseguiu desenvolver enxaguante bucal para escovação à base da substância. “A própolis é um excelente anti-inflamatório, antifúngico, antibacteriano, cicatrizador, anestésico. Além disso combate a placa e a cárie e não tem contraindicação”, afirma. Segundo Vagner Santos, um único produto reúne efeitos de vários medicamentos. O enxaguante bucal já está no mercado. |
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