Embora pareça aos olhos de alguns como provinciana, é legítima a movimentação das forças políticas mineiras que apoiaram Dilma Rousseff, na busca de participação no governo federal. Esta é uma prática tão antiga como normal. Quem ganha governa. E quem ajuda a ganhar quer ajudar a governar. É a base do poder, em nome do qual se travam as mais ferozes batalhas, como se viu há pouco na última campanha eleitoral. No caso das forças que apoiaram Dilma em Minas, as dificuldades são enormes. Primeiro, porque o grupo se esfacelou logo após a campanha, para não dizer que já participou da campanha dividido. Até a coligação PMDB-PT, que sustentou a candidatura de Hélio Costa e Patrus Ananias ao Palácio da Liberdade, entrou na arena rachado, tanto do lado do senador pemedebista como do ex-ministro petista. Mas ainda assim, é inegável que, rachado ou não, o grupo situacionista deu a Dilma Rousseff a vitória em Minas por quase dois milhões de votos de frente sobre o tucano José Serra. E isso é o que importa.
De forma que, ao indicar quatro nomes para o ministério de Dilma, o PT pode errar no varejo, mas acerta no atacado. Mesmo deixando que Serra ganhasse de Dilma em Belo Horizonte, por pouco mais de dez mil votos de diferença, o partido mostrou serviço no segundo turno, principalmente, e com os aliados, mesmo que dispersos, garantiu a vitória à candidata nascida em Minas – traço reforçado durante a campanha pelo marketing político de Dilma.
Mas como unidade partidária num país em que os partidos funcionam, quase sempre, como legendas para abrigar interesses pessoais é mercadoria de luxo, fica claro que as forças vitoriosas em outubro entram agora numa espécie de “gata parida”, a antiga brincadeira de crianças em que um empurra o outro até tirá-lo fora do banco. O PT mineiro, como estratégia, faz de conta que não e indica ao grupo que cuida da montagem do governo – sem um único mineiro, diga-se, – quatro nomes extraídos de suas facções majoritárias para o ministério, a saber: Patrus Ananias, Fernando Pimentel, Luiz Dulci e Virgílio Guimarães. Nomes de fato representativos do partido no estado, mas e os aliados? Ao indicar isoladamente quatro nomes, o partido não estaria fechando as portas aos aliados e com isso aumentando a dor de cabeça da presidente eleita?
Há quem responda que não, que é isso mesmo, que cada um cuida do que é seu. O que parece difícil é a presidente eleita acolher quatro nomes do seu partido e deixar de fora o de outros, sem que isso crie problemas em cima para ela. A menos que os outros partidos, minoritários frente ao PT, busquem cargos no segundo escalão, o que também não é ruim para Minas nessa sua busca de espaço no centro do poder.
E este é o ponto. Por sua força política, pelo que tem representado ao longo da história como centro de equilíbrio entre as forças em disputa, Minas não precisa ter pejo do que alguém em algum lugar possa chamar isso de prática provinciana ou de regionalismo antiquado. Não é. Vejam o apetite de São Paulo, por exemplo, na busca desses cargos. O que faz lembrar aqui, a propósito, a dificuldade que o então vice-presidente Itamar Franco teve para montar o seu governo na sucessão de Fernando Collor. Tentando acomodar as forças que o apoiavam, Itamar ofereceu aos paulistas o ministério da Fazenda – por coincidência o nome era de José Serra – e recebeu a resposta de que São Paulo, na verdade, queria todos os cargos da área econômica. Não teve, claro, o que fez com que Itamar nomeasse o mineiro Paulo Haddad para o Planejamento e o pernambucano Gustavo Krauser para a Fazenda. Nascia ali, por sinal, a sementinha do Plano Real. Mas isso é outra história que Itamar poderá contar da tribuna do Senado, para onde foi reconduzido agora, quando achar necessário.
Carlos Lindenberg, jornalista