Dos votos temporários de pobreza, castidade e obediência feitos ainda aos 16 anos, em Leganés – município na Espanha, próximo a Madri – à fundação do colégio Magnum Agostiniano, em Belo Horizonte, no ano de 1994, o caminho percorrido pelo ex-padre e educador José Bruña Alonso foi rico em experiências e capacidade de superação. Aos 10 deixou a casa dos pais, no povoado de Porto de Sanábria (Espanha), para fazer o seminário. Ingressou no Real Mosteiro de El Escorial, construção do século 16 em que os internos não podiam nem mesmo olhar pelas janelas. “Os padres nos diziam que era pecado”, recorda-se Alonso.
Ele era tão miúdo que tinha medo de ser expulso do seminário. Fez novena para Santa Rita: pediu para crescer. “Eu não tinha noção do que era ser padre, mas não queria fracassar de jeito nenhum. No seminário fui conhecer bola de futebol, me sentia muito bem. Era meu caminho e fui muito dedicado.” Aulas espirituais sobre obediência, jejuns, penitências e confissões semanais. Também aulas de latim e a oportunidade de acesso a um universo cultural a que seus outros três irmãos, que trabalhavam na terra, não passariam nem perto de ter.
Em 13 anos de clausura no seminário viu os pais apenas 3 vezes. Aos 23 voltou a seu povoado, já de batina. “A primeira missa foi uma emoção enorme. Meus pais estavam orgulhosíssimos.” Mas os votos de obediência obrigaram o padre José a mudar-se e, novamente, afastar-se da família com a qual tão pouco havia convivido. O destino era Belo Horizonte. “Cheguei ao Brasil no dia 2 de dezembro de 1958. A cidade me pareceu muito rudimentar, passei 2 meses chorando”, lembra, com bom humor.
No colégio Santo Agostinho começou dando aulas de trabalhos manuais. A integração com os alunos foi ajudando-o a tomar gosto pelas atividades. “Jogávamos futebol e eu corria de batina. Os meninos achavam uma graça.” Alonso e outros colegas religiosos começaram a questionar se o colégio deveria ser misto. Mas como lidar com garotas? Eles não estavam acostumados ao elemento feminino, que era associado ao pecado. “Foi um problema gravíssimo não nos terem preparado sobre a evolução física na puberdade. Nunca nos falaram de sexo e afetividade. Tudo tinha que ser sublimado.”
O colégio tornou-se misto e o padre José foi seu diretor por 35 anos. Quando se retirou, em 1994, já não era mais padre: “Percebi que a religião deveria ser vivida e não teorizada.” Estava convencido da necessidade do país investir na educação básica e do quanto gostaria de ajudar a formar alunos que aliassem o estudo aos esportes e atividades extraclasse como teatros e viagens pedagógicas. Daí pra frente é por meio do livro Caminhos, lançado este ano, que José Bruña Alonso, hoje pai de dois filhos, conta sua história. “Minha vida foi fantástica".