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Entrevista
Saúde em questão
O presidente da Unimed-BH solta o verbo, critica a intromissão da Justiça
na relação cliente/planos de saúde, dos excessos de pedidos de exames
de alguns médicos despreparados e fala do envelhecimento da população
Os problemas da saúde no país não se resumem à falta de recursos. É preciso que a sociedade faça uma discussão séria sobre o modelo de saúde que está disposta a financiar. Recursos para tudo para todos, diz o médico Helton Freitas, presidente da Unimed-BH, não existem em qualquer parte do mundo. Então, segundo ele, é preciso decidir sobre o que não faltar. E isto envolve também o Poder Judiciário que tem sido pródigo em conceder liminares determinando aos planos de saúde e ao SUS que forneçam aos pacientes medicamentos caros e, muitas vezes, sem efeito comprovado. Até Viagra a Justiça tem determinado que se forneça aos interessados.
Ao longo das campanhas eleitorais o que se viu foi praticamente todos os candidatos falando em prioridade para a saúde. O setor é mesmo prioritário no país?
Ela é pautada nas eleições não é à toa. A população sabe o que é importante para a sua vida e por isso as pesquisas indicam que a segurança, educação e saúde são prioridades. Mais, a saúde vem sendo apontada como o maior problema a ser enfrentado pelos governantes. Daí este corolário de propostas que envolve a questão. Agora, tratar a saúde não é propriamente uma coisa simples. Saúde, entendida como o bem-estar físico, mental e social do ser humano, precisa ser tratada dentro de um conceito muito mais amplo. Mas vamos fazer um recorte e falar em atendimento médico-hospitalar e áreas correlatas. Isso só já é muito complexo. Hoje existe uma mudança no padrão demográfico. As pessoas vivem muito mais e, assim, vivem muito mais tempo doentes. Com alguma doença crônica, como um diabetes, uma hipertensão. Então é preciso que haja o desenvolvimento de um sistema que dê conta de absorver cada vez mais pessoas por um período mais longo, com atendimento especializado, que demanda recurso. Isto é que é o problema da saúde. O SUS, do ponto de vista conceitual é perfeito, mas do ponto de vista das expectativas das pessoas, uma delas de acesso, de chegar e ser atendido apresenta problemas. Esta talvez seja a grande razão da migração do Sistema Único de Saúde para a saúde complementar. Para ser paga individualmente a saúde complementar é muito cara, mas hoje as empresas pagam uma parte substancial destes custos.
Mas esta migração não acaba sobrecarregando os planos de saúde complementar?
Esta questão que você aborda é fundamental. A gente tem percebido hoje uma certa sobrecarga do serviço, provocada, além das razões que já abordamos, como o envelhecimento da população e a complexidade dos atendimentos, por um desenvolvimento econômico importante. À medida em que isto ocorre, um percentual da população migra para classes superiores, trazendo com isto contingentes novos para os planos de saúde complementar. Só que o crescimento da estrutura de atendimento – hospital, médico, clínica – é muito mais lento. Então aparece um excesso de demanda para os serviços de atendimento hospitalares que não necessariamente estão preparados para este crescimento. A própria Unimed hoje constrói hospitais exatamente por não ter de quem comprar. Então é preciso fazer para garantir o atendimento.
Mas os planos de saúde não passaram a ser a válvula de escape do governo, que não consegue atender à demanda pelo serviço?
O nosso setor só existe porque o sistema de saúde, da forma que está proposto institucionalmente, não consegue atender às expectativas de uma parcela importante da população. O que está acontecendo, e que de uma certa forma está sobrecarregando o setor, é que o governo tem hoje um órgão regulador, a Agência Nacional de Saúde, que começa a impor determinadas condições, para o atendimento ao cliente, especialmente condições vinculadas ao chamado rol de procedimentos. Quando você vende um plano de saúde para alguém nós estamos falando de uma venda que se baseia num cálculo atuarial que nos permite calcular quanto cada pessoa deve pagar para que, no conjunto, a gente possa atender às diversas condições. Então o preço está baseado na cobertura. Quando você mexe na cobertura, sem mexer no preço, está provocando um achatamento que obriga a uma redução de custos. Nós, por exemplo, somos uma cooperativa e não admitimos, por exemplo, o achatamento do honorário médico. Então nós somos obrigados, com os mesmos recursos, a oferecer a ampliação de cobertura. Isto sem falar em outros mecanismos, como as liminares que, volta e meio um juiz concede, para que um plano de quem tem acima de 60 anos não seja reajustado, como previsto no contrato. Você lá atrás contou com este reajuste e ele não vem para cobrir seus custos. Há os casos de liminares para que se ofereça um determinado procedimento ou medicamento. Ah, isto aí é outro problema que já tem até nome: judicialização da saúde, que é a intervenção do Judiciário sobre os tipos de tratamento que se devem fazer. A premissa básica, que muitas vezes é ignorada, é que todo plano de saúde é regulado por uma lei e por uma relação contratual. Quando se rompe um contrato mandando acrescentar alguma coisa que não foi prevista, muitos pagam para que alguns poucos possam utilizar dentro de regras preestabelecidas. Seja pela prestação aumentada, seja pela piora dos serviços porque o dinheiro faltou. Isto se não chegar à inviabilização da operadora. Quem pagou não vai receber os serviços.
Servidores federais vão passar a receber ajuda para a contratação de planos de saúde privados. A prefeitura de BH deverá encaminhar a mesma solução e, no governo estadual, os estudos sobre esta mudança são antigos. Isto é uma confissão de incapacidade de gerenciamento de seus próprios planos?
Esta questão pode ser olhada de duas formas. Uma delas é isso, que pode ser questionada como contradição. O outro viés pelo qual a questão pode ser vista é olhar o governo como empregador. Não há hoje, no mercado, nenhuma grande empresa que não ofereça um plano de saúde para seus trabalhadores. Neste sentido os governos começam a ver seus servidores como um trabalhador que precisa ser disputado no mercado, para se conseguir os melhores quadros. E a cobertura de saúde é um diferencial nesta disputa. Determinados executivos não aceitam ir para empresa que não tenha plano de saúde.
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O que isto representa em termos de consultas médicas por ano?
Nós temos na Unimed-BH 950 mil vidas e devemos fazer seis milhões de consultas este ano. É uma média de 6,5 consultas cliente/ano. Eu já trabalhei no SUS e à época tínhamos uma estimativa de duas consultas por habitante. Mesmo tendo um número menor de clientes, acho que estamos com um número de consultas próximo ao SUS. Há uma questão que envolve o profissional médico. É o número de exames que é pedido, mesmo antes de uma consulta mais detalhada. Esta é, talvez, a discussão mais pertinente hoje sob o ponto de vista do modelo assistencial. É preciso tratar a saúde de forma mais ampla. Não se deve esperar que a pessoa adoeça para começar a tratar da saúde dela. Nós temos discutido isto, no ambiente do plano, sobre como melhorar isto. Tem condições que já são conhecidas, como nos casos dos que têm, por exemplo, problemas coronarianos. Estas pessoas precisam ser cuidadas com mais atenção. Se você solta estas pessoas, elas vão hoje a um clínico, ele pede determinados exames. A pessoa sai de lá e vai a um urologista, muitas vezes ele acaba repetindo exames que já fez. A especialização é muitas vezes excessiva. O indivíduo tem que ser olhado como um todo. Parece que quantas mais vezes você for ao médico é melhor. Não. Mas de outro lado tem o paciente que considera bom o médico que pede mais exames. Se você tem um clínico que o acompanha há muito tempo, ele sabe a evolução do seu caso. Ele sabe, por exemplo que uma tosse pode não representar absolutamente nada e aí não há necessidade de pedir exame de sangue, tomografia etc. É preciso que todos tenham um médico- referência. Outro aspecto é que, quando há excesso, pode ocorrer a iatrogenia que é o dano causado pela intervenção do médico desnecessariamente e, às vezes, indevidamente. A iatrogenia, ao que me parece, é hoje a quarta causa de morte nos Estados Unidos.
Por despreparo do médico ou por excessos de exames?
Estas coisas não são excludentes. Quem mais pede exames desnecessários são os médicos despreparados. Os bons médicos não pedem quantidade, pedem qualidade. Estamos falando da rotina, do paciente chegar e antes de falar “bom dia” o médico já entrega uma lista de exames.
Estes excessos acabam elevando os custos do plano?
Claro, os exames são pagos individualmente e alguns deles são muito caros.
Nós estamos falando com a visão dos planos de saúde. E no SUS?
O SUS não é muito diferente. A gente muda aí os valores, os problemas, mas estamos falando basicamente das mesmas coisas. O SUS tem um valor per capita para atendimento da população menor do que o dos planos de saúde, o que explica em parte as dificuldades do sistema. Os planos de saúde também enfrentam dificuldades causadas pelos excessos de pedidos de exame, do envelhecimento da população, das doenças crônicas, das órtoses e próteses e também na judicialização da medicina. Nós, inclusive, fazemos fóruns comuns com o sistema público, sentamos juntos diante dos juízes para falar que da forma que o Judiciário está fazendo, não tem jeito. São autorizadas pelo Judiciário as compras de medicamentos que nem são aprovados pela Anvisa. A Secretaria Municipal de Saúde daqui fez, há algum tempo, um levantamento sobre os medicamentos mais autorizados judicialmente. O Viagra lidera a lista. Como os recursos são finitos, não dão para atender a tudo, a sociedade terá que definir se quer fornecer o Viagra ou dar o tratamento mais moderno para o câncer.
Esta é uma discussão complexa e difícil de ser feita com a sociedade?
É, mas eu acho que precisa ser feita. Normalmente os políticos, falam o que o seu eleitor gosta de ouvir. Mas há uma parte desta discussão que é dizer não. Para a saúde melhorar para todos, é preciso dizer não para alguns. É preciso dizer não, por exemplo, para uma parte da indústria farmacêutica que infla os custos com materiais de última geração mas que, nem sempre, tem efeito prático comprovado. É preciso dizer não para órteses, próteses e etc. É preciso dizer não para determinados padrões de atendimento. Na Inglaterra, por exemplo, e eu não estou defendendo isto, o estado não paga hemodiálise para quem tem mais de 70 anos. Se a pessoa precisar, ela terá que pagar. São as opções. Tudo para todo mundo não tem dinheiro. Então é preciso gerar algum nível de racionalização, fazendo algumas opções. UTI neonatal, por exemplo, que é um equipamento muito caro. Quando eu me formei em medicina, há 21 anos, uma criança que nascesse com menos de 500 gramas era considerado aborto. Não se falava da perspectiva de vida desta criança. Hoje, a criança com menos de 500 gramas vai para a UTI neonatal, para um procedimento que demanda muito dinheiro. Fica quatro, cinco meses internados e, frequentemente ficam muitas sequelas. E como você vai falar com uma mãezinha que não tem lugar para o filho dela? Mas esta é uma questão que a sociedade terá que discutir. Pelo viés religioso que a gente viu aí, na campanha presidencial, imagine como seria uma discussão desta. Mas, de fato, esta é uma discussão que a sociedade precisa fazer. Ela precisa definir quanto de recurso está disposta a investir na saúde. A partir daí, surge uma outra questão, não menos importante. É sobre qual é o melhor uso, o mais racional, o mais efetivo, que eu posso dar ao orçamento.
O senhor preside uma cooperativa médica e conhece bem a situação dos profissionais. O Brasil tem carência de médicos?
Não, o que ocorre é que eles estão mal distribuídos, como tudo neste país. Falta incentivo para o médico ir para o interior, para as cidades menores, mais distantes. Não é apenas a questão salarial. É também a falta de condições de trabalho e até mesmo de convívio social com outros colegas.
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