Pela primeira vez em sua história, o Brasil elege uma mulher para a Presidência da República – e este, com certeza, é um dos destaques das eleições de 2010, mas não é o único. Também pela primeira vez, dezenas de candidatos, talvez centenas, foram impedidos de concorrer pela Lei da Ficha Limpa, nascida de iniciativa popular apoiada por cidadãos-eleitores cansados de esperar pela ação do Congresso. Nas duas semanas que antecederam a eleição em primeiro turno, a eclosão de escândalos empurrou a decisão para o segundo turno e, neste, os eleitores mostraram-se vacinados contra promessas populistas, como o aumento para os aposentados e do salário mínimo, bem como a banalização e o reducionismo sobre questões importantes e complexas envolvendo a vida, entre elas o aborto.
Enfim, o eleitor demonstrou maturidade, disse não às propostas demagógicas e, ao dividir e distribuir quase salomonicamente o poder entre situação e oposição, mostrou sabedoria. Embora derrotada, a oposição conseguiu eleger um expressivo número de parlamentares e governadores, o que lhe confere legitimidade para questionar, discutir e cobrar posições do governo. Na verdade, o eleitor optou pela continuidade, elegeu uma mulher, mas não lhe deu um cheque em branco. Ao contrário, deixou claro que irá acompanhar o desempenho do novo governo e também da oposição. A mensagem final do eleitor foi clara: a sociedade brasileira quer um governo que ouça suas demandas e que dê respostas efetivas no campo da economia e das políticas públicas – na educação, saúde, habitação, saneamento, segurança e infraestrutura, mas não abre mão de que o governo baseie sua atuação em valores e princípios éticos.
Na verdade, a sociedade brasileira exige a implementação de uma agenda positiva, governantes corajosos e probos, que encarem os problemas e encaminhem soluções, que façam as reformas das quais o país tanto precisa, que promovam avanços na administração pública, na eficiência da máquina do estado, nas questões eleitorais, que reduzam juros e tributos. Há enormes gargalos e o maior deles é a má qualidade do ensino que se oferece às suas crianças e jovens, o que impede o país de alcançar o patamar de uma sociedade efetivamente desenvolvida.
O enfrentamento e a superação de grandes desafios exigem grandes líderes, estadistas comprometidos com o futuro do país e não com as próximas eleições. Neste aspecto, o que vale para o universo empresarial vale também para o setor público, pois o mundo do século 21 impõe um novo padrão de liderança. Os líderes verdadeiros devem estar atentos aos valores e princípios que regulam as relações entre pessoas, entre as empresas, entre pessoas, empresas e governo – enfim, entre todos o tempo todo.
Líderes verdadeiros têm como características a retidão, o compromisso com a verdade, com a justiça, o desejo de servir e de inspirar pessoas para o rumo correto. Esta é a lição que nos ensina o livro Liderança baseada em valores, recentemente lançado pelos professores Carmen Migueles e Marco Túlio Zanini, da Fundação Dom Cabral, com a participação de um grupo de pensadores do qual tive a honra de participar, incluindo acadêmicos, executivos e empresários.
Este é o tipo de liderança que a sociedade brasileira espera encontrar na presidente Dilma Rousseff e também naqueles que lhe farão oposição. A disputa eleitoral é legitima e engrandece a democracia. Porém, abertas as urnas, proclamado o resultado, a tarefa de construir a nação é de todos, governo e oposição, sem que isso implique, para uns e outros, abdicar de suas convicções. Implica, sim, o respeito a princípios e valores tão caros à sociedade brasileira como ética, liberdade e responsabilidade social.
Sérgio Cavalieri é presidente da Associação de Dirigentes Cristãos de Empresa (ADCE/MG)