Não será tranquilo o futuro próximo do senador eleito Aécio Neves. Ao contrário do que poderia Aécio supor, a ira do tucanato paulista recaiu sobre ele tão logo abriram-se as urnas e se constatou a derrota do ex-governador José Serra para Dilma Rousseff, nascida em Belo Horizonte. Dilma teve 55.752.529 votos e Serra 43.711.388. Até aí, nada demais, a vitória de Dilma já se desenhava desde o primeiro turno e só não se efetivou pelo efeito Marina Silva conjugado com a exploração de temas religiosos mal explicados. O pior veio depois quando se constatou que, em Minas, Dilma também ganhou (Dilma 58,45% e Serra 41,55%) com um percentual (17%) acima da média do país (12%). A senha para o azedume paulista veio inexplicavelmente do próprio Serra, que ao reconhecer a derrota e fazer dois agradecimentos (um a Geraldo Alckmin e o outro a Fernando Henrique, soprado por sua filha) não fez a menor menção ao ex-governador Aécio Neves, um gesto indelicado pelo menos, para espanto geral. E olha que no dia anterior, sábado, Aécio levou Serra a Uberlândia e a Belo Horizonte, onde a campanha foi encerrada com carreata monumental, o que certamente contribuiu para que o tucano ganhasse na capital, onde Dilma nasceu, por mais de 10 mil votos de frente.
Pouco? Talvez. Mas o que poderia acontecer era uma derrota acachapante, o que só não ocorreu porque Belo Horizonte é uma cidade de resultados imprevisíveis e o PT já não tem mais a máquina da prefeitura na mão, ainda que o prefeito Marcio Lacerda, recém-introduzido na política, estivesse apoiando Dilma Rousseff. E por que o PT não tem mais a prefeitura da capital? Porque o então governador Aécio Neves a tirou das mãos do PT com a mesma facilidade com que se toma um pirulito de uma criança, em 2008. De maneira que a vitória de Dilma sobre Serra em Minas não seria de espantar a ninguém. Já no primeiro turno ela foi vitoriosa no estado ao obter 46,98% dos votos contra 30,76% de Serra e 21,25% de Marina Silva – e olha que em Belo Horizonte quem ganhou foi Marina, com 39,58%, contra 30,92% de Dilma e 27,72% de Serra.
Assim, não parece razoável tentar atribuir a Aécio e aos mineiros qualquer parcela de responsabilidade neste novo insucesso de José Serra, ele que já fora derrotado em Minas em 2002, quando Lula obteve 66% dos votos e ele apenas 33% – assim como Alckmin também perdeu em 2006, para o próprio Lula, por 65% a 34% dos votos válidos. E por que Serra conseguiu colocar apenas oito pontos percentuais sobre Dilma em São Paulo, estado onde sempre fez política, de deputado a governador, passando por prefeito e senador? O problema, portanto, não está só em Minas, ainda que durante a pré-campanha os mineiros não tenham gostado da forma como Serra tratou Aécio na disputa pela candidatura tucana, tendo lhe negado até mesmo as prévias previstas no próprio estatuto partidário.
Vê-se que todo esse quadro, a começar pelas prévias negadas para culminar na derrota final, só obriga o senador eleito Aécio Neves a pensar e a repensar seu futuro político, sobretudo após o silêncio de José Serra ante o esforço do ex-governador mineiro para lhe dar votos – ou alguém esqueceu que o marketing de Dilma reforçou sua naturalidade belo-horizontina e mineira durante toda a campanha? O fato é que logo após proclamado o resultado, lideranças próximas de Serra começaram a incensá-lo como a nova (!) expressão da oposição ao futuro governo, no que foi interpretado como uma forma de deslocar o senador eleito Aécio Neves do lugar onde lhe colocaram os resultados das urnas no primeiro turno, quando em Minas ele se elegeu com grande quantidade de sufrágios, elegeu o segundo senador, Itamar Franco, e ainda reconduziu o seu substituto ao Palácio da Liberdade, Antonio Anastasia, o que fez dele o principal vitorioso das eleições de outubro e ainda o credenciou como principal líder das forças contrárias a Dilma e ao lulismo – papel que Serra agora almeja ocupar, após o fracasso nas urnas.
Carlos Lindenberg, jornalista