Quinta, 23 de Maio de 2013
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Entrevista

A política do amém

Frei Mário Taurinho: Formado em teologia, sociologia e psicologia e prior do Convento dos Dominicanos, frei Mário faz uma análise da disputa religiosa que marca as eleições presidenciais no país

Texto: Flávio Penna | Fotos: Pedro Vilela


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Frei Mário Taurinho, um belo-horizontino nascido e criado no bairro Santa Efigênia, atualmente comanda a Pastoral Universitária da Universidade Católica, em Belo Horizonte. É com base em sua visão religiosa e de participação nos movimentos sociais nos quais os dominicanos estão envolvidos que ele analisa a disputa religiosa que vai marcando as eleições presidenciais no país. O frei entende como normal a participação das diferentes igrejas na política, argumentando que a religião é parte da sociedade. Teme, porém, o radicalismo religioso, que considera o mais perigoso, e a exploração da fé como forma de fazer política.

O processo eleitoral no segundo turno da sucessão presidencial começou com um debate envolvendo religião. Como o senhor vê esta mistura de religião e política?
A Igreja tem que ser um elemento facilitador para que a pessoa encontre sua cidadania e possa exercê-la. Isto com todas as igrejas e, em especial, com a Igreja Católica, que tem este princípio. Você encontra isto em Isaías. Já no primeiro capítulo ele diz que a gente deve ter esta vivência de cidadania. E, se pegamos Isaías, pegamos todas as igrejas cristãs. Na Igreja Católica, a CNBB tem frisado muito esta questão de que todo cidadão deve ter esta responsabilidade, deve exercer os seus direitos. Agora, evidentemente, a Igreja Católica – a gente sabe que outras igrejas não são assim – não é a favor do partidarismo. Isto é, ela levanta as bandeiras dentro da igreja. Ela orienta, chama a consciência, mas não indica um determinado partido. Assim, ela preserva aquilo que sempre defendeu, que é a liberdade do cristão de escolher em quem deve votar ou não. Agora, ela não se furta ao direito de dizer que, para a pessoa votar livremente, precisa verificar a atuação e o passado do candidato. O político deve ser representativo. Representar a coletividade, não seu próprio interesse. 

A coletividade de uma determinada igreja, de uma religião?
Não, a coletividade da sociedade. Nós não estamos defendendo que ele represente a igreja A ou B. Estamos defendendo a sociedade. 

O aborto, por exemplo, deve ser tomado como um elemento para definir o voto?
Olha, esta questão do aborto é muito complicada. Sendo um elemento que vai nortear um problema social, acho que ele afeta também a questão do voto. Todos os elementos, não apenas o aborto, que são complicadores, devem ser avaliados na hora do voto. Na escolha do candidato.


O senhor considera normal que existam nos parlamentos bancadas que representem as diferentes igrejas e religiões?

Não. O parlamento tem que ser representativo da sociedade e não de bandeiras religiosas. Mesmo porque a questão religiosa cria uma certa dificuldade para aquelas denominações que não conseguem o diálogo. Que querem justamente reforçar seus princípios. Querem fazer um parlamento que se torne um prolongamento da missão de sua igreja. Se é desta forma, eu acho muito arriscado. Isto pode causar uma certa tensão, um certo atrito. E o parlamento não é o palco para isso. Se queremos um parlamento representativo, ele deve ser formado por pessoas capazes de respeitar todas as denominações religiosas. Ele não pode ser um espaço de confronto de dogmas e de princípios religiosos. 

Então considera natural que o cidadão, eleito parlamentar, defenda, dentro do parlamento, dogmas do grupo a que ele pertence?
Tudo bem, é legítimo, mas dentro de um princípio de respeito. O político pode até ser eleito como representante de um segmento, de uma denominação religiosa, mas ele tem que se abrir ao diálogo com todas as que estão ou não ali representadas. Tem que estar pronto para o diálogo, entendendo que ali é uma Casa de diversidade muito grande.

Ter alguém representante de um segmento religioso dentro do parlamento é compatível com o estado laico?
Eu acredito que não é incompatível. Mesmo porque é interessante nossa Constituição falar em estado laico, já que, em seu preâmbulo, fala que ela foi promulgada com as bênçãos de Deus. Quando faz isto, o estado abre a possibilidade para que a manifestação religiosa tenha importância. E, se tem importância, o estado precisa abrir o diálogo com todas estas manifestações. Seja ela qual for. Na realidade, ele não é tão laico assim. E não pode ser também por conveniência do governante. E nós temos visto atualmente que muita coisa só é vista e ouvida conforme a conveniência de um ou outro governante. Isto se torna um perigo de nos aproximarmos de uma ditadura. Podemos não ter mais uma ditadura militar,  mas outro tipo de ditadura. E isto nós estamos vendo pela América Latina atualmente. 

Como vê esta radicalização da discussão de temas religiosos na campanha eleitoral? É um caminho para a ditadura das religiões?
Eu não vejo assim, mas penso que nenhum governante no Brasil terá condições de governar sem um diálogo com as igrejas. O elemento religioso, mesmo estando enfraquecido no atual momento, ainda sensibiliza boa parte da população brasileira. Se um político não levar isto em consideração, ele estará perdido. Eu não estou dizendo que a Igreja, em seu sentido mais amplo, tenha que determinar todas as discussões. Mas o governante tem que discutir, dialogar com a Igreja. Tem um outro aspecto: as várias denominações religiosas, especialmente a católica, mantém muitas entidades que desempenham funções que seriam do estado. Então, tendo estes dois elementos, como você não dialoga? Imagine se a Igreja Católica, e eu a cito por ser um de seus membros, resolve entregar ao estado todas as suas instituições? Ele vai conseguir mantê-las? A Igreja, e sei disto por que trabalho há muito tempo com a assistência social, é um canal de sensibilização e de movimentação da população, e faz com que as pessoas encontrem nesta participação aquilo de que fala o evangelho.

No segundo turno das eleições, os dois candidatos  estão com posturas cautelosas, pisando em ovos para agradar às igrejas e não perder votos. É uma postura correta ou o senhor acha que deveriam estar apresentando propostas, independente da fé que professam ou mesmo de não terem fé?
A gente tem que ter cuidado com a utilização da fé para fins políticos. Acho que eles devem ter a preocupação é em responder com ética, com o compromisso de governantes, às necessidades da sociedade, dos cidadãos. Se eles estão querendo apenas se aproximar das instâncias religiosas, sejam elas quais forem, estão errados. Ser contra ou a favor do aborto é muito pouco. O comprometimento deve ser maior, por exemplo, com a questão da fome, da saúde, da educação, da moradia. Se os candidatos tiverem o comprometimento com estes elementos, e ainda com o combate à corrupção, à ficha limpa, acho que eles conseguem a aproximação com as manifestações religiosas. 

O senhor falou que a Igreja está num momento de fraqueza, mas o que a gente vê é um enorme crescimento das igrejas pentecostais.

O que eu vejo nestas igrejas, e eu respeito todas elas, é um crescimento relativo. O que ocorre na realidade é uma dança, uma migração dos fiéis dentro das igrejas. Ora na A, ora na B. Mas existe um movimento forte de pessoas que não se envolvem com nenhuma igreja. Este é um público que nos preocupa.

O senhor trabalha com a Pastoral Universitária. Trabalha com jovens universitários. Estes jovens não se ligam à igrejas, não têm fé?
Eles têm fé, mas não professam esta fé numa determinada instituição. E isto é um elemento questionador para nós. Precisamos questionar qual está sendo o nosso testemunho na sociedade que possa estar levando estas pessoas a não participarem de uma igreja. Tem um número grande de pessoas que dizem achar interessante o movimento religioso, respeitam este movimento, mas consideram a religião um complicador e, por isso, preferem não se envolver. Não participar de nenhum.

Pois é, as pessoas dizem não ter uma religião, não acreditar, mas na hora do aperto recorrem a Deus. Na hora de despedir de alguém que consideram, dizem “vai com Deus”.
Esta é uma questão interessante. Acho que estamos vivendo um momento da Nova Era. Ela é um pouco assim. Eu acho um elemento importante da Igreja Católica, por exemplo, a figura de Maria, então eu pego esta figura. Se quero a dança, vou ao candomblé. Se quero a alegria dos cânticos, vou à Pentecostal. Em todos estes lugares me sinto muito bem e fico em paz com Deus.

Há no Brasil um explosão de filmes sobre o espiritismo. Isto significa que o espiritismo tem crescido entre nós?
Eu não tenho números atuais que mostrem o crescimento dos adeptos do espiritismo. Penso, porém, que o número de filmes sobre o tema e a aceitação popular são resultados da curiosidade e da divulgação pela mídia. Agora, não podemos descartar também uma manifestação de um certo desencanto. Querendo ou não, estamos passando na Igreja Católica um período um pouco delicado com todos estes escândalos que andam por aí. Porque são pessoas em quem elas confiam, admiram, que são referências. Se elas começam a ter um comportamento, digamos entre aspas, “comum”, deixam o público sem chão.

Há alguma relação entre radicalismo religioso e o subdesenvolvimento de um país?

Eu acho que a religião pode sim ser um elemento complicador. Todo radicalismo é ruim, mas o religioso é pior. É que você está trabalhando com as questões de cunho puramente humanas – o poder, a fama, a força – e ainda tem a fé, o mistério de Deus. É Deus quem pede, é Deus quem orienta. Então, deixa de ser uma manifestação humana para ser uma manifestação da vontade de Deus. E isso é complicador.

Qual é a real influência política de um religioso sobre as pessoas?
Acontece uma situação curiosa. Mesmo que se tenha certa dificuldade com as instituições, as pessoas preservam as pessoas. Então, mesmo que alguém não concorde com a Igreja Católica, e aí estou falando sobre a minha experiência, pelo seu testemunho, seu envolvimento, ela te respeita. Te respeitam e começam a participar de atividades que são propostas.

O senhor pertence a uma ordem, a dos Dominicanos, que teve enorme participação política nas décadas de 1960/70. Talvez por isso sejam acusados, por alguns católicos, de terem ajudado a esvaziar a igreja por uma atuação menos espiritual. 
Eu não sei se a gente esvazia a igreja. Eu acho que o comprometimento com a sociedade, com os mais pobres, não é exclusividade dos dominicanos. É do evangelho. Podemos ter cometido erros, mas penso que tivemos mais acertos. Infelizmente, o Brasil caiu na ditadura militar e muitos padres, freis, irmãs de diferentes ordens, leigos, lutaram pela liberdade. Muitos morreram, desapareceram no período. Felizmente, a normalidade se restabeleceu. Agora, é verdade que a Ordem dos Dominicanos é marcada por este envolvimento com este movimento pendular entre a fé e a religião, com maior participação popular. Eu penso que, com esta atitude, respondemos primeiramente ao evangelho. Mas nós ficamos orgulhosos de saber que a nossa ação é transformadora. Acho que estes elementos fazem com que sejamos diferentes dentro da Igreja. Como pregadores, temos que assumir o papel dos profetas, de anunciar e denunciar. Se este é o nosso papel, nós devemos isto à sociedade. 


 
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