Quarta, 22 de Maio de 2013
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Reportagem

Tem até mandiopã

Uma mercearia de mais de 100 anos em Itabirito (MG) reflete, com magia, a tradição dos antigos armazéns de Minas onde há de tudo, até escambo

Texto: Silvânia Arriel | Fotos: Nélio Rodrigues


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Roney e o pai, José Augusto: gerações no armazém

Tem quase tudo naquele amontoado de produtos. Penico? Tem. Gordura de porco, estilingue, lampião, arroz, feijão, biscoito, chiclete, bombom, ovo, pano de chão.

Está sem dinheiro? Tem problema não: você traz galinha, leva farinha. Troca café por biscoito, peneira por mandiopã, vassoura por picanha, marcela por chocolate.

Há goiaba na horta? Pede açúcar para o dono do armazém, faz doce e vende lá, nessa mercearia, no meio da praça, quase em frente à igreja de São Sebastião, perto da Nossa Senhora da Boa Viagem. Varou mais de um século parada no tempo, até que o youtube colocasse na web um filme sobre ela, produzido pela Cara de Cão, que já obteve cerca de 150 mil acessos e rendeu mais de 190 comentários. Puxou o saudosismo para a tela do computador, do celular, de onde mais se assistem aos vídeos, e jogou a fama para esse jeito tão antigo de comercializar.

A Mercearia Paraopeba, em Itabirito, região Central de Minas, abre suas duas estreitas portas todos os dias às 7h30, desde o final dos anos 1800, pela família Almeida, na época do português José Manoel, avô de José Augusto, o Juca, e tetravô de Roney, o Roninho. 

Pode entrar, freguês. “Tem azeite de mamona?”, pergunta o agricultor José Antônio de Paula. “Estou em falta, mas amanhã arrumo para você”, responde Roney. “É para amaciar couro de boi, antes era usado para curar umbigo de menino”, continua a conversa e, assim, vai o dia inteiro neste lugar miúdo, de entra-e-sai constante, ainda mais agora com a alta visibilidade na internet, o presente amando o passado. Sem pretensão de mudar, de alargar o lugar. “O pessoal ia ficar inibido.” Os que entregam os produtos, trocam, fazem parceria para abarrotar o armazém de tudo o que se possa imaginar ter lá, as peneiras, os balaios de Maria Isabel dos Santos, a dona Duquinha, do povoado de Saboeiro. “O que eu trouxer, ele compra. Aí tenho crédito para mais uns dias”, diz. Leva outras mercadorias e assim move a mercearia.


Ângela Maria de Almeida: “Tem tudo o que eu procuro”
Ângela Maria de Almeida: “Tem tudo o que eu procuro”

“Quer comprar frangos?”, indaga da porta José Francisco Soares, da fazenda Bandeirinha. “São brancos?” “São”, responde. “Não quero. Se fosse caipira eu ficava”, fala Roney, enquanto atende a freguesia, entabula outros frequentes diálogos, lembra que prefere continuar nessa forma de comércio para ajudar o pessoal da região. Só compra fora o que não há lá para colocar na Paraopeba, cidade de onde vinham os produtos no início da mercearia e daí o nome, hoje bem itabiritense, onde a maioria é conhecida, nominada. A não ser os de forasteiros, afluídos para lá pela vontade de ver de perto o que o filme exibe em sete minutos. Há mais, espicha nas conversas com seu Juca, que conta como tudo começou. “Era perto daquela igreja, lá no alto, é aqui perto. Vamos até ali para ver”, diz. É longe, ele anda depressa, conta histórias, conversa com todo mundo, volta, recita versos. “Se as águas do mar fossem papel bem pautado não conseguiam anotar as cachaças que eu tenho tomado.” As do seu Juca são nenhuma, prefere cerveja. 

Fica ao lado do filho, acha que ele sabe mais do ofício de comerciante. O negócio é vender, não faltam argumentos, atendimento esmerado, criam-se necessidades. Se tivesse pedra, garante que vendia. “Aqui a gente viaja, lembra da infância”, diz a funcionária pública Rita de Cássia, assídua frequentadora da mercearia, onde compra biscoitos, doce, queijo e presentes para pessoas de fora da cidade. “Tem tudo o que procuro, ovo caipira”, emenda a cabeleireira Ângela Maria de Almeida, também freguesa daquele lugar de conversa agradável. 

Rejane e José Magno Braga: parte da produção do sítio vai para a Paraopeba
Rejane e José Magno Braga: parte da produção do sítio vai para a Paraopeba

Todo mundo é tratado igual por Roney, seu Juca, Josimar Neiva Dias Miranda, funcionário da Paraopeba há 15 anos, e Lorrainy Aline Angélica de Souza, há pouco mais de 12 meses. Até porque dinheiro é o mesmo, vai parar no caixote de madeira, sem máquina registradora, controle do que é comercializado. “Se fosse para fazer orçamento eu adoeceria. É na base da confiança”, conta Roney. Não tem ideia de quantos produtos há pendurados nas paredes, no chão, em cima dos balcões, dentro deles. Bombons foram parar na gaiola, os estilingues do outro lado. “Não são usados mais para matar passarinho, mas a saudade. É para brincar”, antecipa Roney em época ambientalmente correta. “Precisa até de manual de funcionamento.” Alguém compra penico? “Lógico, mas sempre a pessoa diz que é para o vizinho, algum conhecido.” Por que a pergunta, ele venderia até pedra. Prefere os produtos tradicionais, vai atrás deles, quando não aparecem na porta da venda.

Rita de Cássia Araújo: “Aqui a gente viaja, lembra da infância”
Rita de Cássia Araújo: “Aqui a gente viaja, lembra da infância”

Sobe a serra da Capanema à procura do café orgânico, colhido a 1.300 metros no sítio Alto do Cristal, município de Ouro Preto, e o que tiver mais. “A gente comercializava o café no Sul de Minas, deixava um pouco para o consumo, mas sempre sobrava. Aí um dia passei em frente à mercearia e perguntei ao Roney se ele não queria comprar”, lembra Rejane Magalhães Braga. Quis, a parceria cresceu e hoje ela e o marido José Magno Braga vendem o que produzem para a Paraopeba. O Sul de Minas ficou no passado. Torram, moem, empacotam o café. Vão também biscoitos, queijo mussarela, ovo, galinha, favo de mel, verduras, copo de leite. Vem do armazém o fubá, as canecas e o bule esmaltado, nesse troca-troca que faz tempo. Lá e em outros sítios, que recebem sementes ou não, coletam marcelas nos campos da região e vão parar naquele emaranhado de coisas.

Dinheiro no caixote, sem máquina registradora nem orçamento
Dinheiro no caixote, sem máquina registradora nem orçamento

É fácil achar as mercadorias que o cliente pede? “A gente sabe onde os produtos estão. Só não pode tirar do lugar. Num domingo, um freguês queria boia de caixa d’água. Não achava. Já ia desistir quando  a encontrei pendurada na porta. Ele saiu numa alegria danada”, conta Roney. A felicidade do cliente é o que quer, busca nestes tempos de prateleiras espichadas, iluminadas. “Minha família compra aqui há 40 anos”, diz a professora Maria Beatriz Cardoso, à procura de canela, fubá. “O pai dela é bom pagador”, lembra o comerciante. Arcava com a dívida anotada, registrada, como tantos outros, no caderno guardado, relíquia do seu Juca, de épocas antigas, de séculos passados, em alta cotação hoje. Procurado, revisto no filme, lá e enquanto tiver quem se interessar. mercadorias diferentes.

Tem quase tudo

De secos a molhados

  • Estilingue
  • Lampião
  • Gordura de porco em garrafa pet
  • Torresmo na gordura
  • Pele de porco
  • Sabão de cinza (ou preto)
  • Esterco
  • Peneira
  • Vassoura para tirar teia de aranha, limpar picumã
  • Penico
  • Marcela
  • Óleo de mamona
  • Mandiopã
  • Bucha vegetal
  • Cabaça
  • Cavacos grandes de canela
  • Bule esmaltado
  • Trempe para fogão a lenha

Para entender

A mercearia existe desde o final dos anos 1800. Antes era perto da igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, hoje ao lado de São Sebastião, no centro de Itabirito, a 55 km de Belo Horizonte

Há incontáveis produtos num espaço pequeno: menor que 30 m²

Funciona também na base do escambo. As pessoas trocam o que produzem pelo que não têm ou vivem de parcerias 

Frases

 

“Todo produto que tem aqui eu vendo. Se eu colocar pedra, eu vendo.”

“No início do mês, a pessoa faz lista, com arroz, palha de aço. Por isso, o armazém precisa ter tudo.”

“Vendo o ovo que me oferecem. Quando a galinha para de botar, eles trazem a galinha e aí aumenta a parceria.”

“Não tem caixa registradora. O dinheiro vai para o caixote. Se fosse para fazer orçamento eu adoeceria. É na base da confiança com o Josimar,  meu funcionário há 15 anos.”

“Não tem telefone na mercearia. Eu vendo cartão. Já pensou: o cara chega, pede para telefonar, aí vou ter que emprestar.”

“Tento não perder a freguesia, porque conquistar é tão difícil.”

“Você já viu que não tem mais mamão grande? Vou arrumar semente e dar para alguém plantar. A de amendoim árabe também.” Roney Antônio de Almeida


 
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