|
ReportagemTem até mandiopãUma mercearia de mais de 100 anos em Itabirito (MG) reflete, com magia, a tradição dos antigos armazéns de Minas onde há de tudo, até escambo
Texto: Silvânia Arriel | Fotos: Nélio Rodrigues
|
“Quer comprar frangos?”, indaga da porta José Francisco Soares, da fazenda Bandeirinha. “São brancos?” “São”, responde. “Não quero. Se fosse caipira eu ficava”, fala Roney, enquanto atende a freguesia, entabula outros frequentes diálogos, lembra que prefere continuar nessa forma de comércio para ajudar o pessoal da região. Só compra fora o que não há lá para colocar na Paraopeba, cidade de onde vinham os produtos no início da mercearia e daí o nome, hoje bem itabiritense, onde a maioria é conhecida, nominada. A não ser os de forasteiros, afluídos para lá pela vontade de ver de perto o que o filme exibe em sete minutos. Há mais, espicha nas conversas com seu Juca, que conta como tudo começou. “Era perto daquela igreja, lá no alto, é aqui perto. Vamos até ali para ver”, diz. É longe, ele anda depressa, conta histórias, conversa com todo mundo, volta, recita versos. “Se as águas do mar fossem papel bem pautado não conseguiam anotar as cachaças que eu tenho tomado.” As do seu Juca são nenhuma, prefere cerveja. Fica ao lado do filho, acha que ele sabe mais do ofício de comerciante. O negócio é vender, não faltam argumentos, atendimento esmerado, criam-se necessidades. Se tivesse pedra, garante que vendia. “Aqui a gente viaja, lembra da infância”, diz a funcionária pública Rita de Cássia, assídua frequentadora da mercearia, onde compra biscoitos, doce, queijo e presentes para pessoas de fora da cidade. “Tem tudo o que procuro, ovo caipira”, emenda a cabeleireira Ângela Maria de Almeida, também freguesa daquele lugar de conversa agradável. |
Todo mundo é tratado igual por Roney, seu Juca, Josimar Neiva Dias Miranda, funcionário da Paraopeba há 15 anos, e Lorrainy Aline Angélica de Souza, há pouco mais de 12 meses. Até porque dinheiro é o mesmo, vai parar no caixote de madeira, sem máquina registradora, controle do que é comercializado. “Se fosse para fazer orçamento eu adoeceria. É na base da confiança”, conta Roney. Não tem ideia de quantos produtos há pendurados nas paredes, no chão, em cima dos balcões, dentro deles. Bombons foram parar na gaiola, os estilingues do outro lado. “Não são usados mais para matar passarinho, mas a saudade. É para brincar”, antecipa Roney em época ambientalmente correta. “Precisa até de manual de funcionamento.” Alguém compra penico? “Lógico, mas sempre a pessoa diz que é para o vizinho, algum conhecido.” Por que a pergunta, ele venderia até pedra. Prefere os produtos tradicionais, vai atrás deles, quando não aparecem na porta da venda. |
Sobe a serra da Capanema à procura do café orgânico, colhido a 1.300 metros no sítio Alto do Cristal, município de Ouro Preto, e o que tiver mais. “A gente comercializava o café no Sul de Minas, deixava um pouco para o consumo, mas sempre sobrava. Aí um dia passei em frente à mercearia e perguntei ao Roney se ele não queria comprar”, lembra Rejane Magalhães Braga. Quis, a parceria cresceu e hoje ela e o marido José Magno Braga vendem o que produzem para a Paraopeba. O Sul de Minas ficou no passado. Torram, moem, empacotam o café. Vão também biscoitos, queijo mussarela, ovo, galinha, favo de mel, verduras, copo de leite. Vem do armazém o fubá, as canecas e o bule esmaltado, nesse troca-troca que faz tempo. Lá e em outros sítios, que recebem sementes ou não, coletam marcelas nos campos da região e vão parar naquele emaranhado de coisas. |
É fácil achar as mercadorias que o cliente pede? “A gente sabe onde os produtos estão. Só não pode tirar do lugar. Num domingo, um freguês queria boia de caixa d’água. Não achava. Já ia desistir quando a encontrei pendurada na porta. Ele saiu numa alegria danada”, conta Roney. A felicidade do cliente é o que quer, busca nestes tempos de prateleiras espichadas, iluminadas. “Minha família compra aqui há 40 anos”, diz a professora Maria Beatriz Cardoso, à procura de canela, fubá. “O pai dela é bom pagador”, lembra o comerciante. Arcava com a dívida anotada, registrada, como tantos outros, no caderno guardado, relíquia do seu Juca, de épocas antigas, de séculos passados, em alta cotação hoje. Procurado, revisto no filme, lá e enquanto tiver quem se interessar. mercadorias diferentes. |
Tem quase tudoDe secos a molhados
Para entender A mercearia existe desde o final dos anos 1800. Antes era perto da igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, hoje ao lado de São Sebastião, no centro de Itabirito, a 55 km de Belo Horizonte Há incontáveis produtos num espaço pequeno: menor que 30 m² Funciona também na base do escambo. As pessoas trocam o que produzem pelo que não têm ou vivem de parcerias |
Frases
“Todo produto que tem aqui eu vendo. Se eu colocar pedra, eu vendo.” “No início do mês, a pessoa faz lista, com arroz, palha de aço. Por isso, o armazém precisa ter tudo.” “Vendo o ovo que me oferecem. Quando a galinha para de botar, eles trazem a galinha e aí aumenta a parceria.” “Não tem caixa registradora. O dinheiro vai para o caixote. Se fosse para fazer orçamento eu adoeceria. É na base da confiança com o Josimar, meu funcionário há 15 anos.” “Não tem telefone na mercearia. Eu vendo cartão. Já pensou: o cara chega, pede para telefonar, aí vou ter que emprestar.” “Tento não perder a freguesia, porque conquistar é tão difícil.” “Você já viu que não tem mais mamão grande? Vou arrumar semente e dar para alguém plantar. A de amendoim árabe também.” Roney Antônio de Almeida |
VIVER_BRASIL PROMOÇÃO - Concorra a pares de convites para o musical "Gonzagão", no Teatro Bradesco. Acesse o link e saiba mais on.fb.me/14yHtKw:
TudoBH Mãe de Eliza quer pena máxima para Bruno - Minas jornaltudobh.com.br/minas/mae-de-e? via @TudoBH
VIVER_BRASIL "Achar mão de obra qualificada também é um dos nossos grandes desafios", afirma Paulo Castellari.