Domingo, 05 de Fevereiro de 2012
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Quase tudo acaba em pizza

Os bastidores da mais tradicional pizzaria de BH onde a cada um minuto e meio, em média, uma pizza é vendida

Texto: Luciana Avelino | Fotos: Nélio Rodrigues


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A amizade dos tempos da adolescência ainda perdura na relação travada pelo trio que comanda hoje a Pizzaria Mangabeiras: Adalberto Marques Pinto, 43, e os irmãos Antônio César Júnior, 43, e Marco Túlio Ribeiro de Miranda, 39. O companheirismo da época em que eram colegas no Loyola – tradicional colégio da capital mineira –, vendiam goiabada e colocavam som nas festas em Belo Horizonte parece mesmo ter se mantido intacto ante a forma que se tratam e convivem no atribulado dia a dia da empresa, responsável pela venda de 25 mil a 30 mil pizzas por mês. Extratrabalho, também estão sempre presentes na rotina pessoal um do outro: viajam e saem juntos e, ainda, tornaram-se padrinhos dos respectivos filhos. Vínculos mais que reforçados.

Se hoje a massa da casa rende expressiva produção e caminha para quatro décadas de fornadas, a pitada inicial de fermento foi dada por Antônio César Pires de Miranda, 67. Em 1972, o então comerciante, nascido no Serro (MG), compra e reinaugura a pizzaria onde anteriormente era fornecedor de presuntos, salames e afins. A casa era exatamente no mesmo endereço, na Serra, onde ainda funciona uma das 11 unidades da rede. Na época, inclusive, o local eleito para abrigar a pizzaria gerou controvérsias.


Nélio Rodrigues
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Afinal, há 38 anos, Belo Horizonte praticamente acabava nos limites próximos do polêmico entorno do alto da avenida Afonso Pena. Montar algo lá, era, no mínimo, visto como loucura. Mas, contrariando as perspectivas negativas, a intuição foi certeira. Na sequência, a região transformou-se em reduto de badalação. “Além da experiência com a pequena pizzaria que tinha na rua Rio Negro, minha especialidade como comerciante era diagnosticar se o ponto era bom ou não para se montar um negócio”, conta o fundador. Fora a localização privilegiada, a carência de pizzarias na Belo Horizonte do início da década de 70 contribuiu para o sucesso do investimento. A cidade contava apenas com duas casas do ramo de padrão similar. Detalhe: destas duas, apenas uma também sobreviveu ao mercado.

Se o apelo da tradição vinculada ao produto quase quarentão é forte, a empresa procurou se guiar por inovações. Em constante expansão – neste semestre mais duas casas serão abertas –, a pizzaria sempre lançou novidades. A começar pelo delivery, adotado há 20 anos. Foi a segunda empresa da capital a oferecer o serviço, disponibilizado até então apenas pelo fusquinha amarelo da Drogaria Araujo. E, também, o segundo estabelecimento local a vender pela internet. Hoje, a frota de motoboys que atende todas as casas contabiliza 130 funcionários contratados. “No primeiro pedido, contávamos somente com uma moto. Para garantir as entregas, colocamos nossos carros à disposição”, lembra Adalberto Marques Pinto.

NÚMERO

130 motoboys contratados são responsáveis
por centenas de entregas diárias de pizzas

Nélio Rodrigues
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Formado em medicina, Adalberto nem chegou a exercer a profissão. Nas folgas dos plantões em hospitais, passava o tempo em meio ao turbilhão da pizzaria junto ao fundador e seus filhos, atraído pela dinâmica do empreendimento. Mais uma vez, Antônio César Pires de Miranda parece ter vislumbrado os ingredientes certos da sua mistura de sucesso. A partir do interesse e aptidão demonstrados por Adalberto, decide contratá-lo para estimular os filhos a centralizarem-se profissionalmente na empresa. Antes de deixar o Brasil para morar no exterior, o patriarca divide a empresa entre os filhos. Com o tempo, Adalberto passa também a integrar o grupo. “A vinda dele, com quem já convivíamos 24 horas por dia e depositávamos total confiança, fortaleceu a empresa”, afirma Antônio César Júnior.

Figura diária presente no salão da unidade Serra, Júnior é atento aos detalhes. “Temos de administrar com os olhos do cliente. Isto quer dizer que é preciso oferecer o que ele gostaria de dispor quando sai de casa: ambiente confortável, organizado, limpo, com tudo do bom e do melhor.” Durante o almoço e jantar, entre uma pizza e outra, Júnior foca a atenção. Confere atendimento, serviço do manobrista, arrumação das mesas e, obviamente, o sabor da pizza. “Sei exatamente quando a receita está alterada.”

Nélio Rodrigues
Nélio Rodrigues

Formado em medicina, Adalberto nem chegou a exercer a profissão. Nas folgas dos plantões em hospitais, passava o tempo em meio ao turbilhão da pizzaria junto ao fundador e seus filhos, atraído pela dinâmica do empreendimento. Mais uma vez, Antônio César Pires de Miranda parece ter vislumbrado os ingredientes certos da sua mistura de sucesso. A partir do interesse e aptidão demonstrados por Adalberto, decide contratá-lo para estimular os filhos a centralizarem-se profissionalmente na empresa. Antes de deixar o Brasil para morar no exterior, o patriarca divide a empresa entre os filhos. Com o tempo, Adalberto passa também a integrar o grupo. “A vinda dele, com quem já convivíamos 24 horas por dia e depositávamos total confiança, fortaleceu a empresa”, afirma Antônio César Júnior.

Figura diária presente no salão da unidade Serra, Júnior é atento aos detalhes. “Temos de administrar com os olhos do cliente. Isto quer dizer que é preciso oferecer o que ele gostaria de dispor quando sai de casa: ambiente confortável, organizado, limpo, com tudo do bom e do melhor.” Durante o almoço e jantar, entre uma pizza e outra, Júnior foca a atenção. Confere atendimento, serviço do manobrista, arrumação das mesas e, obviamente, o sabor da pizza. “Sei exatamente quando a receita está alterada.”

sxc
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E com este olhar atento dos proprietários,  a empresa inaugura mais quatro endereços próprios. Primeiro a unidade Gutierrez, em 1994 e, posteriormente, as dos bairros Eldorado, Padre Eustáquio e Pampulha. A partir desta fase, a pizzaria passa a abrir mais pontos a partir do sistema de franquias. O feito demarca o boom da pizzaria. Hoje, das 11 casas, 10 são franqueadas. A exceção é a primogênita da Serra, na Afonso Pena, única própria do grupo detentor da marca.

Rodrigo Guimarães foi o primeiro franqueado da rede. Em 1998, abriu salão e delivery na Floresta. “Na época, apostei no potencial da marca, na qualidade do produto já conhecido. Fui bem-sucedido.” Doze anos após o investimento, a franquia continua sendo bom negócio para Guimarães. Em outubro, inaugura outro endereço franqueado, desta vez em sociedade com Gilberto Vieira, dono da franquia de Contagem. O investimento será o primeiro endereço da marca em shopping: o Boulevard. “Será uma loja diferente. Terá visual bem contemporâneo, descontraído, capaz de agregar novo público a partir do conceito gourmet de pratos mais elaborados”, adianta.

MENU DA CASA: 

  • Entre os 24 sabores do cardápio, a pizza à moda – que leva mussarela, presunto, calabresa, azeitona, salaminho, e pimentão –, é recordista de pedidos desde que a pizzaria foi inaugurada.
     
  • Além da pedida carro-chefe, todas as unidades servem 15 pratos à la carte de massas, como espaguetes, lasanhas, calzones e fetuccines. A lasanha à bolonhesa é a que tem mais saída. No almoço, há ainda bufê de saladas com três pratos quentes.
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Nélio Rodrigues
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Tecnologia no cardápio

Entre as inovações propostas pelo atual grupo dirigente, o eficiente sistema de informática. Tudo para agilizar as entregas solicitadas ao departamento de telemarketing e pelo site. A partir de mapeamento da capital e Grande BH, cada pedido é automaticamente direcionado à pizzaria mais próxima. A agilidade alcançada levou o grupo a lançar o desafio de executar entregas no prazo de 30 minutos. Caso o tempo exceda, o cliente fica isento de pagar. Mas para participar, há pré-condições. É preciso, por exemplo, que o local solicitante esteja inserido em um dos 153 bairros divulgados no site, que o valor não ultrapasse 85 reais e que o pedido não inclua massas nem mais de duas pizzas.

Segundo Adalberto, o não cumprimento do prazo proposto é mínimo. A agilidade de atendimento é supereficiente. No delivery, cada funcionário é responsável por uma etapa: abrir a massa, colocar recheio, levar ao forno, embalar e disponibilizar o pedido ao motoqueiro. “Entre pedido e pizza embalada, gastam-se 11 minutos. O tempo restante é suficiente para a encomenda ser levada de moto, já que o percurso é curto. Não viabilizamos insensatez. Temos índice zero de acidentes.”

FRASE:

“Atendo clientes que começaram a namorar aqui, casaram, e agora trazem os filhos e até os netos”
Jesus de Oliveira

Preocupados em preservar os motoqueiros, a empresa promove com frequência treinamentos ligados à segurança e prevenção no trânsito. Também de olho na tecnologia, a pizzaria já está a postos para atuar a partir do sistema digital de TV, quando os pedidos poderão ser feitos a partir da televisão. Empreendedores, passaram a disponibilizar espaço para marketing no próprio produto. Há pouco tempo, a empresa passou a estampar publicidades nas embalagens das pizzas.

Nélio Rodrigues
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Trabalho de formigueiro

Quem passa entre 10h e 16h em frente ao prédio da esquina na Afonso Pena, de 1.894 m2 de área construída, incluindo estacionamento próprio, não imagina o trabalho de formigas no seu interior. É neste endereço que o coração da pizzaria pulsa a mil. No andar abaixo do restaurante, funciona o centro de pré-produção que abastece todas unidades. O trabalho em equipe parece orquestrado. É de lá que saem as bolas de pizzas, massas e molhos. Os demais ingredientes, como presunto, mussarela e peito de frango,  são comercializados pela central de compras da empresa e distribuídos para cada ponto. O formato centralizador garante padrão e procedência dos produtos. No andar superior do anexo ao restaurante, 30 atendentes de telemarketing acionam o delivery, responsável por 90% da demanda de pizzas, ativo das 10h à 1h.

O que mais pode intrigar nesta história é o fato de a Pizzaria Mangabeiras se manter por tantos anos no cenário gastronômico da cidade, conhecido pelo abre e fecha dos estabelecimentos. Numa conta rápida, por dia, as 360 mesas disponíveis da rede, que funcionam dia e noite, sem fechar suas portas no intervalo, atendem em quatro rodadas 5.760 pessoas. Por mais incrível que pareça, a empresa continua a usar a mesma receita de pizzas de quando abriu.

HORAS DE PICO:

  • Quando chove, sobretudo no horário do almoço, os pedidos multiplicam pelo telemarketing e acessos no site.
  • Nos almoços e jantares de sextas, sábados e domingos, uma intensa demanda é esperada. As casas já ficam preparadas.
  • Julho e dezembro são meses imbatíveis no delivery.
  • Campeonatos de futebol e datas comemorativas são, literalmente, prato cheio para o delivery.
Nélio Rodrigues
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Além de preservar o modo de fazer (guardado a sete chaves) e os ingredientes, que inclui água mineral, a pizzaria manteve praticamente os mesmos sabores ao longo dos anos. Apenas quatro novos tipos foram acrescidos no menu desde a abertura da casa: chocolate, banana com canela, rúcula com tomate-seco e peperoni. E parece ser, justamente, a tradição do sabor que fideliza o cliente. “Ele sabe exatamente o que vai comer: uma pizza saborosa, macia, crocante, nem grossa e fina demais. Mantemos o padrão da empresa que tanto agrada. Para que vamos mexer em time que está ganhando?”, diz Cláudio Roberto Leal, pizzaiolo da Mangabeiras há 15 anos.

A tradicionalidade da casa se estende ao público versátil do reduto: várias gerações de família, times de futebol, casais de namorados, figuras do cenário político. Funcionário da casa desde a inauguração, Jesus de Oliveira, 67, aprendeu o ofício de garçom na pizzaria. Grande parte da clientela fiel o conhece pelo nome e também sabe seus pratos e bebidas favoritos. “Atendo clientes que começaram a namorar aqui, noivaram, casaram, passaram a trazer os filhos, os netos. Também já servi muitos políticos, como Tancredo Neves e José Alencar.”

MÃO NA MASSA

Depois de acrescentar farinha de trigo e água mineral à pré-mistura com fermento personalizada, a massa é levada à batedeira de capacidade máxima de 50 kg. Na sequência, a massa vai para a boleadora automática que formata 14 bolas em cada operação. Dois tamanhos são executados: um para as pizzas pequenas e médias e, outro, para as grandes e gigantes. Em seguida, as bolas descansam por três dias. Depois são dispostas em bandejas de PVC. Parte da produção segue em caminhões resfriatórios para as franquias, enquanto o restante fica acondicionado na sede. As pizzas são assadas no forno elétrico, que garante processo prático e ágil.

Para o ano que vem, o grupo prevê a abertura de novas casas. Uma será em BH, unidade gourmet em endereço ainda não definido. “A ideia é oferecer pizzas com ingredientes nobres, exóticos, versões lights e isentas de glúten e vinhos bem selecionados“, conta Adalberto. As outras unidades vão se estabelecer em localidades ainda em estudo, como Juiz de Fora, Brasília e Vitória. Mas, os investimentos não param por aí. Em breve, novo empreendimento de peso, sairá do forno na capital, anunciam os empresários.

OUTRAS EMPRESAS DO GRUPO

Geloso
Há 35 anos, o grupo abriu sua primeira fábrica de gelo. Hoje, são cinco unidades funcionando
em pleno vapor: Belo Horizonte, Vitória, Rio de Janeiro, Brasília e Salvador. Além das fábricas, a marca atende ainda a 2.500 pontos de venda em Minas, localizados a até 400 km da capital mineira. A produção mensal é de 180 toneladas de gelo somente em BH. Há projetos de implantação de fábricas em Pernambuco e Recife.

Condomínio Trilhas do Ouro
Desde 2007, o grupo comercializa 115 lotes de mil m2 no condomínio no valor de 120 mil reais. O loteamento fica em Rio Acima (MG). Sessenta terrenos já foram vendidos.
 


 
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